A sociedade do cansaço: por que estamos sempre exaustos?
Vivemos sobrecarregados de ruído, informação e urgência de saber. Todos os dias recebemos mensagens que nos lembram de que poderíamos fazer mais, aprender mais, render mais. Tornou-se quase uma norma existir em estado de alerta, como se a vida dependesse da capacidade de responder rapidamente a tudo. O descanso, esse espaço antes sagrado, passou a intervalo culposo entre tarefas.
Acreditava-se que a tecnologia libertaria tempo. Que os e-mails substituiriam reuniões desnecessárias, que as apps simplificariam rotinas, que a conectividade traria eficiência. Mas o que aconteceu foi o inverso: quanto mais rápido o mundo ficou, mais rápida se tornou também a nossa ansiedade. A promessa de liberdade dissolveu-se numa rotina sem fronteiras claras. Trabalhar a partir de qualquer lugar passou a significar trabalhar em todos os lugares.
Byung-Chul Han chamou-lhe “a sociedade do cansaço”. O filósofo descreve uma era em que deixámos de ser oprimidos por outros para nos oprimirmos a nós próprios. A antiga sociedade disciplinar dizia “deves”; a atual sussurra “tu consegues”. É uma diferença aparentemente positiva, mas que esconde um esgotamento profundo. A obrigação foi substituída pela auto-exploração, e a liberdade converteu-se num imperativo de desempenho.

Hoje, acordamos com alarmes, corremos para prazos, contamos passos, notificações e produtividade. O tempo, medido ao segundo, perdeu elasticidade. E quando tentamos abrandar, sentimos culpa. O simples ato de parar torna-se uma afronta a uma cultura que idolatra a eficiência e vê o ócio como fraqueza. Até o lazer se transformou em tarefa: viajar exige fotografias, descanso requer partilha, e dormir cedo é uma meta monitorizada por aplicações.
Nas redes sociais, a exaustão assume uma máscara sorridente. Cada imagem de sucesso reforça a ideia de que há sempre algo mais para conquistar. Compararmo-nos aos outros tornou-se um reflexo automático, e o sentimento de insuficiência é o novo normal. Nunca nos sentimos tão livres e simultaneamente tão presos a nós próprios.
Porém, o corpo fala. A mente protesta. Multiplicam-se os casos de burnout, a fadiga crónica, as insónias, os surtos de ansiedade. É uma epidemia silenciosa, fruto de uma civilização que já não distingue cansaço de fracasso. E, paradoxalmente, quanto mais exaustos estamos, mais sentimos necessidade de manter a aparência de energia e entusiasmo. Ninguém quer ser o que para, o que fica para trás, o que sai do movimento.
A verdade é que o “parar” ganhou um novo significado. Já não é sinónimo de preguiça, mas de consciência. É uma forma de resistência contra um sistema que transforma pessoas em métricas e horas em mercadoria. Parar é um gesto de lucidez, talvez o mais radical que podemos ter no século XXI.

Recuperar o tempo não é um luxo, é uma urgência. Precisamos de reaprender a estar no presente sem a obsessão de registar ou rentabilizar cada momento. Há prazer em existir sem objetivo imediato, há criação na lentidão, há pensamento no intervalo. As ideias mais brilhantes surgem muitas vezes quando não estamos a fazer nada, porque esse “nada” abre espaço ao que realmente importa.
O problema não é trabalhar ou querer ser melhor. O problema é fazer disso o único critério de valor. A sociedade do cansaço não nasceu de um inimigo externo, mas de uma crença interior: a de que só somos dignos se estivermos constantemente a produzir. Precisamos de reverter essa lógica antes que o corpo e a mente nos obriguem a fazê-lo.
Abrandar não é desistir do mundo. É voltar a habitá-lo. É lembrar que a vida não é uma corrida, mas um percurso onde se pode ainda olhar à volta, respirar, existir. Talvez o verdadeiro progresso não seja ir mais depressa, mas aprender a chegar inteiro.
Fonte: Unsplash
Artigo revisto por: Eva Guedes e Mariana Ranha
AUTORIA
Sonhador por natureza, curioso e sempre atento ao que o rodeia, o Samuel de 21 anos, finalista da licenciatura em Publicidade e Marketing, encontrou na editoria de Opinião o lugar ideal para dar asas às suas ideias, um espaço onde pode escrever sobre o que mais o intriga: o mundo em constante mudança. Para ele, opinar é mais do que escrever, é pensar alto. Gosta de refletir sobre a atualidade e de transformar pensamentos soltos em palavras que façam sentido de ser lidas. Vê na escrita uma forma de explorar o mundo e partilhar a sua visão com quem o lê.

