Crescer é desaprender?
Há um momento subtil, e quase imperceptível, em que substituímos a pergunta “porquê?” por “para quê?”. Talvez seja aí que começa o ato de crescer: quando trocamos a curiosidade pela funcionalidade, o sonho por um plano e a liberdade pela segurança de um caminho conhecido. Mas será que crescer é, inevitavelmente, desaprender? Ou será apenas aprender de outra forma, menos inocente, mais contida, mas não necessariamente menos verdadeira?
A infância é um território generoso. Nela, o tempo parece elástico, os dias são feitos de descobertas e o erro é uma experiência, não uma falha. À medida que crescemos, o mundo estreita-se um pouco: a escola ensina-nos respostas certas, o trabalho ensina-nos competências úteis, e a vida, com as suas exigências, ensina-nos a evitar riscos. Tudo isso é necessário, claro, mas vem com um preço. No processo de amadurecimento, esquecemo-nos muitas vezes do prazer de experimentar sem objetivo, de imaginar sem medir, de viver sem uma constante sensação de eficiência.
Desaprender, neste contexto, não é esquecer o que aprendemos, mas reaprender a olhar. É um gesto de recomeço, uma habilidade rara num tempo em que tudo parece exigir certezas. Talvez o que realmente nos faz crescer não seja acumular conhecimento, mas ter coragem de nos desapegarmos daquilo que já não nos serve. Da necessidade de aprovação, do receio de falhar, da obrigação de corresponder sempre. Crescer é, também, perceber que aquilo a que chamamos “maturidade” tem mais que ver com aceitação do que com perfeição. Só crescemos de verdade quando ganhamos coragem para desaprender o que o medo nos ensinou. Essa é talvez a maior prova de força interior: desaprender o medo para reaprender a liberdade.
Vivemos numa era obcecada pela aprendizagem contínua – cursos, tutoriais, formações, especializações. Ser competitivo é saber mais, fazer mais, estar sempre atualizado. Mas há um tipo de sabedoria que nasce do inverso: do espaço, da pausa, do silêncio. Desaprender é, talvez, uma das formas mais sofisticadas de inteligência emocional. É quando paramos um instante e reconhecemos que nem tudo o que absorvemos ao longo da vida é realmente nosso. Que muitas ideias que defendemos são ecos de vozes antigas, da família, da escola, da sociedade; e que crescer, verdadeiramente, é distinguir aquilo em que acreditamos do que apenas repetimos.

A certa altura, descobrimos que o processo de amadurecer é menos sobre ganhar certezas e mais sobre fazer as pazes com a dúvida. Quem cresce demais, às vezes, empobrece a alma: perde o olhar curioso, o humor leve, a coragem em não saber. E, no entanto, é precisamente desse desaprendizado que pode nascer algo novo, uma maturidade sensível, atenta, empática, capaz de ver além da forma. Parar para repensar o caminho não é retroceder: é consolidar o que ficou e desapegar do que pesa.
Hoje, ser adulto é um exercício de equilíbrio constante. De um lado, o peso das exigências; do outro, o desejo de leveza. As crianças sabem brincar, os adultos precisam de reaprender. As crianças confiam naturalmente, os adultos desaprendem até o simples gesto da confiança. Crescer é aprender a viver com perdas, sim, mas também a transformar essas perdas em espaço para o que virá. O crescimento mais amadurecido é o que deixa espaço para continuar a espantar-se.
E é curioso: quanto mais a vida avança, mais percebemos que o que realmente importa se aprende de dentro para fora. Não vem de diplomas, nem de conquistas, nem de títulos, mas de experiências que nos devolvem a humanidade. Desaprender o medo, o controlo e a pressa é, talvez, o passo mais corajoso para reencontrar o equilíbrio.

Afinal, crescer não é desistir da criança que fomos, mas dar-lhe nova voz dentro de nós. É olhar o mundo com a consciência de um adulto e a alma curiosa de quem ainda acredita que há sempre algo por descobrir. É entender que a maturidade não precisa de ser uma armadura – pode ser uma forma de leveza.
Fonte: Unsplash
Artigo revisto por: Eva Guedes e Mariana Ranha
AUTORIA
Sonhador por natureza, curioso e sempre atento ao que o rodeia, o Samuel de 21 anos, finalista da licenciatura em Publicidade e Marketing, encontrou na editoria de Opinião o lugar ideal para dar asas às suas ideias, um espaço onde pode escrever sobre o que mais o intriga: o mundo em constante mudança. Para ele, opinar é mais do que escrever, é pensar alto. Gosta de refletir sobre a atualidade e de transformar pensamentos soltos em palavras que façam sentido de ser lidas. Vê na escrita uma forma de explorar o mundo e partilhar a sua visão com quem o lê.

