O Esplendor de Portugal
Quando era mais novo queria ir para o estrangeiro. Hoje em dia, a longo prazo, não me imagino a viver noutro país que não aquele que me viu crescer.
Costumava pensar que Portugal era pequeno demais para mim. Agora penso que é enorme, demasiado rico, demasiado vasto, demasiado bonito para tudo o que sonho. À medida que cresci o meu país foi ficando maior. E o meu amor por ele aumentou também.
Parece-me ponto assente que devíamos partilhar e preservar este amor, mas o ódio deve ser mais fotogénico porque atualmente é ele quem toma conta dos debates e envenena as redes sociais. Em vez de se falar de integração e acolhimento fala-se em expulsões e deportações, e a solidariedade é confundida com “portas escancaradas”. Só se fala de amor para discutir quem ama mais e para definir quem é digno e indigno de ser amado pelo país. O amor deixou de ser um princípio fundamental e tornou-se uma ferramenta ao dispor de quem prefere disseminar o ódio.
A ideia de que somos “nós contra eles” ou de que nós, portugueses, somos de algum modo superiores a quem cá procura casa é não só perniciosa como também absurda, mas, infelizmente, é cada vez mais aliciante. O voto no racismo e na xenofobia tem vindo a aumentar e detesto ver este movimento mascarado de patriotismo.
As vozes que se erguem contra a imigração e contra a diversidade procuram proteger uma ideia de tradição e de valores tradicionais que é inadequada ao nosso mundo e que perde o sentido de várias maneiras. Uma delas é ignorar que a cultura portuguesa é, à partida, a mistura de várias influências e o cruzar de muitas outras culturas, e outra é conceber a tradição como algo inerte, quando, na verdade, está em constante evolução.
Não vivemos confinados às nossas fronteiras. É natural e positivo que aconteça a partilha intercultural, que sejamos expostos a outros costumes e nos deixemos influenciar tal como influenciamos outras culturas com a nossa. O radicalismo e ideologismo cego que levam a que se fale em “substituição” e “extinção cultural” revelam uma arrogância injustificável e um profundo desconhecimento das nossas raízes.

Portugal é a minha casa e entristece-me que não o seja para todos quantos precisem de ser acolhidos, abrigados e protegidos. Quem atravessou o mar ou o oceano para cá chegar, em condições inimagináveis e enfrentando todo o género de provações, provou com sangue, suor e lágrimas que merece o país.
Portugal merece receber de braços abertos, com respeito e dignidade, quem é forçado a abandonar a sua casa, aqueles cujas vidas foram reduzidas a cinzas pela guerra, pela catástrofe, pela miséria ou pela opressão. Receber todos sem distinções ridículas entre “portugueses de bem” e os outros devia ser motivo de orgulho e a capacidade de conduzir uma integração social plena e proveitosa devia ser um objetivo comum.
Se de facto nos preocupamos com a manutenção da nossa identidade cultural, então cabe-nos preservar as tradições e fomentar o gosto pela portugalidade e não atacar as outras culturas, até porque as culturas não têm fronteiras e, até certo ponto, todas as culturas se pertencem umas às outras. A morte da cultura em Portugal não se deve à convivência com outras nacionalidades, religiões e costumes, mas sim ao desinteresse dos próprios portugueses. É urgente ir a casas de fado, apoiar a confeitaria regional, visitar o interior, comprar produtos locais e nacionais, ouvir música portuguesa e ler autores lusófonos. É importante dar continuidade à tradição em todas as suas vertentes, desde a música e a dança à gastronomia, passando pelo artesanato.
É nosso dever e devia ser a nossa missão proteger o cante alentejano e o bailinho da Madeira, o galo de barcelos, a filigrana, os tapetes de Arraiolos, a Alheira, o Cozido e as mil e uma receitas de Bacalhau. Devíamos esforçar-nos para manter vivo o Mirandês, os trajes típicos, os ovos moles e todos os outros aspetos que contribuem para a nossa identidade nacional, sem repudiar ou recusar os elementos de outras culturas, estando abertos a novas experiências.

O mundo é demasiado vasto para que o conheçamos todo a fundo, por isso, sinto-me grato pelos pedaços do mundo que me chegam através dos gestos, da comida e, sobretudo, das pessoas que partilham um pouco da sua casa e da sua história comigo. Por achar essa partilha uma das coisas mais bonitas que existe, também me dá gosto dar a conhecer o meu mundo, o meu país, e para isso é preciso lutar para que tenhamos algo para mostrar, mas não lutar contra ninguém, contra nenhum país ou cultura: lutar por nós mesmos, contra o degredo da tradição, contra o desinteresse e a ignorância e a favor da memória.
Eu quero um país caloroso para com quem chega, sobretudo para quem deposita em Portugal a sua última esperança. Quero um país com consciência de si próprio, que preze a cultura em todas as suas formas e promova a paz e a interculturalidade sem se esquecer das pequenas grandes coisas que tornam Portugal o país de que tanto me orgulho.
Fonte: iStock
Artigo revisto por: Constança Alves
AUTORIA
O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.

