A moda não é conservadora. E o público?
As festividades do mundo da moda já acabaram: começaram em Nova York, passaram por Londres e Milão e terminaram em Paris. 2025 foi um ano marcado por estreias de designers e, com eles, novos conceitos e estéticas. A passarela destacou-se pela reinvenção de padrões clássicos, por cenários inovadores e por mudanças radicais, mas também por escolhas seguras e confortáveis. Diria até que foi um evento polarizado: de um lado, coleções consideradas elegantes e modestas; do outro, uma ousadia mascarada de desafio. A verdade é que ambos os casos inquietam o público e, no final do dia, é isso que se quer, certo?
Quando, há meses, Dario Vitale se estreou na Versace, fui ver todas as publicações para perceber como estava a ser a receção e, imagine a minha surpresa quando vi comentários a criticar. Porém, no momento em que me apercebi de que muitos comentários negativos estavam ligados ao facto de Vitale fazer referência direta à nudez e à expressão queer, o meu semblante mudou. Seria possível que as pessoas estivessem tão incomodadas com este tipo de referências? Não estariam elas à espera de algo assim (ou parecido) de uma marca tão extravagante e assumidamente irreverente como a Versace? Pelos vistos a resposta é não. Comecei a juntar as peças e daí surgiu esta reflexão.
O público reflete as ideologias em que acredita e quer que a indústria entregue isso mesmo. A questão principal não é a mudança de direção criativa (antecedida por Donatella Versace), mas sim o projeto em si e o que representa.
Fonte: Instagram da Versace
Outro exemplo é o regresso dos desfiles da Victoria’s Secret. A marca voltou à passarela e trouxe consigo representatividade: já não eram apenas as icónicas angels, magras e com o habitual blowout, a ocupar o centro do espetáculo. Existiu de tudo um pouco, uma tentativa de representação da realidade contemporânea. Todavia, no dia seguinte, foram inúmeros os vídeos no Tik Tok e comentários nas redes sociais a dizer que queriam as angels de volta. A maioria apoiava o regresso da supremacia da magreza na passarela porque são corpos “inalcançáveis”. É isso que querem ver.
Fonte: Vídeos diversos do TikTok
A moda sempre esteve associada à receção do público, ao choque, à inquietação e ao comentário. Atualmente, a partilha de opiniões é muito mais alargada: a relevância da opinião escrita nas revistas físicas diminuiu e as plataformas digitais tornaram-se o refúgio da maioria. A evolução da sociedade teve de ser acompanhada pelas revistas, pelos redatores e pelos críticos, portanto, as redes sociais são, ultimamente (há mais de uma década, aliás), o espaço onde mais se vêem comentários, sejam eles críticos ou amadores.
Ora, o público é soberano e as marcas têm de atender às suas expectativas. No entanto, o que acontece quando esse mesmo público está fragmentado? A opinião pode e deve ser variada, as pessoas não têm de gostar de tudo nem olhar com a mesma perspetiva. As razões mais frequentes para não se gostar de algo estão relacionadas com a projeção dos nossos valores e visões acerca do mundo sobre algo específico. Contudo, o problema inicia-se quando uma vasta porção da população tem valores enraizados nos princípios básicos de um regime que atenta contra a liberdade. Sim, estamos a falar de regimes conservadores.
Nos últimos anos tem-se vindo a observar a ascensão de partidos de extrema-direita, que têm crescido e alcançado o poder, trazendo consigo o conservadorismo em vários aspetos. Tendências que incentivam o retrocesso, como os valores tradicionais (tradwife) e estilos de roupa que se assemelham ao luxo, como o old money (o famoso quiet luxury), têm vindo a propagar-se. Tal poderia ser normal se não viesse acompanhado de ideologias controversas – e é aqui que o cenário se complica.
Numa sociedade conservadora não existe espaço para corpos diferentes do padrão, nem para a demonstração de nudez, nem para a liberdade de expressar e, sobretudo, de ser. Refletir uma ideologia repressiva numa arte intrinsecamente relacionada à expressão é preocupante e um sinal de que é necessária uma mudança.
Afinal, a moda é arte e a arte, por si só, é rebelde. Estará para breve esse ato de rebeldia?
Fonte da Capa: Instagram da Versace
Artigo revisto por Leonor Almeida
AUTORIA
A Luna tem 18 anos, nasceu em Lisboa, mas há quem diga que ela vive no mundo da lua.
Sempre com um pé na terra e o pensamento noutro sítio qualquer, a Luna desde sempre que ouviu histórias a serem contadas a si e decidiu que agora seria a vez dela de contar histórias aos outros. Por isso está em jornalismo, para se conectar com o público, transmitir a sua verdade, fazer reportagem e poder falar sobre todos os assuntos que a fazem ficar acordada de madrugada.
A entrada na ESCS Magazine representa um sonho antigo que finalmente foi realizado.



