Literatura

Será a trope “friends to lovers” uma boa trope?

A ficção pode ser um lugar onde exploramos todo o tipo de fantasias que não podemos concretizar na vida real. Ler sobre estas fantasias, como apaixonarmo-nos pela primeira vez, conquistar um inimigo num duelo romântico ou chegar à maioridade sem consequências reais, pode alimentar-nos de vários cenários que esperamos que aconteçam futuramente nas nossas vidas.

Na literatura atual, a presença de tropes como grumpy and sunshine, enemies to lovers ou relações que começam por ser falsas é bastante comum. A lista continua com várias outras. No entanto, nenhuma parece tão querida pelos fãs de livros como friends to lovers.

Há algo viciante na ideia de friends to lovers nos romances mais aclamados. A história repete-se consistentemente: amigos que partilham piadas internas, cervejas e tremoços e, de repente, apercebem-se de que há uma atração mútua e que são almas-gémeas. É cinemático, romântico, um enredo digno de uma boa romcom. Contudo, o que acontece quando esta trama se torna real? Será que levará a uma relação com mais profundidade e consistência, ou será que estes amigos devem preparar-se para dois corações partidos?

Jamie e Dylan, Amigos Coloridos (Fonte da imagem: The Hollywood Reporter)

No início desta atração, a relação é baseada em inseguranças. De repente consegues perceber os detalhes do sorriso da outra pessoa, notas que o seu riso não é tão irritante como era anteriormente, ou então a mão antes inexplorada toca inesperadamente na tua. Quando menos notas, já estás com a cabeça cheia de “e se..?”.

Ao contrário do que se pensa geralmente, apaixonares-te pelo teu amigo/a não é tão magnífico como se quer acreditar, porque esta paixão está muitas vezes associada ao  medo de perder o que já se tem. Apaixonar-se é muito mais assustador quando a pessoa já sabe de todos os pormenores vergonhosos da tua vida. 

É bastante mais fácil ires a um encontro romântico com alguém que, caso falhe, poderás nunca mais ver do que com alguém que já conheces a um nível profundo. Sentes que é muito mais sério estar com alguém que não podes simplesmente ignorar ou cortar de repente, por isso tens que estar 100% confiante antes de avançares. Porquê arriscar perder algo bom que já se tem por algo incerto?

Para além do medo, há a tristeza de sentires que a amizade, antes tão presente, já não se encontra no mesmo estado. É muito comum começarem a surgir pensamentos como “eu sinto que já não somos amigos”.

Afinal, apaixonares-te por uma amizade pode ser uma experiência solitária, especialmente quando estás preso em sentimentos não expressos e gestos não recíprocos. Não é apenas sobre querer a outra pessoa, mas também sobre o medo de a perder

Jenna e Matt, De Repente Já nos 30 (Fonte da imagem: Buzzfeed)

Quando se passa desta fase e a amizade já é algo mais, existe uma certa tensão e ciúmes. Muitas vezes surge uma dinâmica em que, se estiveres com outra pessoa, há ciúmes vindo da outra parte da amizade. Por outro lado, se tornares claro que queres persuadir a amizade para um lado mais romântico, há medo. Esta dinâmica pode ser viciante, mas também revoltante. 

Idealmente, serem amigos anteriormente tornaria as coisas muito mais fáceis: afinal já riram, já choraram, já se ajudaram mutuamente, já passaram vários momentos juntos. No entanto, basta uma parte ter medo do compromisso para que a situação se torne uma novela trágica de Eça de Queirós. 

Porém, a parte mais difícil nem é essa dinâmica desconcertante, mas sim conseguir voltar de amantes para amigos. Nos livros, são muitas as vezes em que antigos relacionamentos continuam presentes na vida dos protagonistas, devido aos leitores já gostarem e  estarem familiarizados com os personagens. Se for o caso, há sempre a possibilidade de os protagonistas voltarem a estar juntos romanticamente. Contudo, na realidade, este acontecimento é um pouco tabu. É bastante comum parceiros atuais pedirem que bloqueiem ou parem de falar, por completo, com as pessoas de antigos relacionamentos. 

Betty e Archie, Riverdale (Fonte da imagem: AlternativePress)

Então, mas o que se pode fazer quando se sente atração por uma pessoa amiga? Preserva-se a sanidade mental ou toma-se um pouco de coragem para atingir um possível futuro a dois? Primeiramente, temos de perceber que, por mais que queiramos imitar na nossa vida a arte a que assistimos, as relações reais baseiam-se na  comunicação, na reciprocidade e no esforço, não apenas em história e química. Logo, se sentires um “crushzinho” numa pessoa amiga que te está a dar  sinais confusos, tens de te perguntar a ti mesmo: “o que é que eu quero?”, “estou atraído/a pela tensão existente ou vejo realmente um futuro com aquela pessoa?” e “será que ele/a é capaz de ver esse futuro comigo?”.

Amor que não é recíproco, especialmente com alguém de quem já és próximo, pode parecer uma ferida que nunca desaparece por completo. É completamente normal impor certos limites ou afastares-te da outra pessoa, não por ser insignificante, mas porque priorizas o teu estado mental acima de tudo. 

Mas, se realmente pretendes persuadir esta atração, lembra-te de que o amor necessita de sinceridade, e não é apenas um “projeto giro”. Caso seja recíproco, a pessoa irá procurar-te, irá encontrar-te a metade do caminho. Mas se ainda estiveres no “talvez”, se calhar é boa ideia procurares outro alguém que de quem tenhas certezas.

Imagem de Capa: CinemaBlend

Artigo corrigido por Miguel Calixto

AUTORIA

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Desde sempre que a Maria sente gosto em escrever, mesmo quando era bastante pequena tinha um caderninho onde punha-se a escrever as matrículas que via nos carros ou a escrever nomes que via fora de casa aleatoriamente. Viu na ESCS Magazine uma oportunidade de ouro de reviver este gosto e da mesma forma de falar sobre outro assunto que lhe interessa (literatura). Sempre gostou de ler e até chegou a “gabar-se” aos seus amigos o quão rápido lia os livros do Geronimo Stilton. Já gastou mais dinheiro em livros do que gostava de admitir, no entanto é bastante provável “investir” mais dinheiro no seu hobbie.