Opinião

Produtividade tóxica: quando já não sabemos parar

Vivemos numa época em que parece que parar é sinónimo de falhar. Ter um dia produtivo, em que realizamos todas as tarefas a que nos propomos, é sem dúvida satisfatório e dá-nos uma sensação de dever cumprido. Mas quando nos propomos a fazer mais do que conseguimos e carregamos connosco a culpa de não ter feito tudo, talvez a sensação que isso nos deixa já não seja tão boa. 

Nas redes sociais, somos bombardeados com todo o tipo de conteúdos, e um em especial que me aparece vezes sem conta são vídeos de influenciadores a mostrarem as suas rotinas diárias, que roçam a perfeição: aquela pessoa que todos os dias acorda cedo, vai treinar às 7h da manhã, lê um livro por semana e passa a tarde inteira a estudar sem nunca se distrair. Por um lado, é certo que nos podemos inspirar e quem sabe até adotar alguns hábitos que vemos. 

Às vezes, depois de ver esses vídeos, sinto uma vontade súbita de ler todos os livros do mundo, correr uma maratona e desacumular a pilha de trabalhos e matérias que tenho pendentes. Porém, noutras ocasiões, acabo por cair numa espiral de comparação e a pergunta que ecoa na minha mente é apenas uma: porque é que não consigo ser igual a esta pessoa?

Fonte: Working Capital Review

Desejamos que houvesse uma fórmula mágica que nos permita ser iguais àqueles que julgamos serem perfeitos, mas a verdade é que nem eles o são. Há períodos em que estamos mais ocupados e outros em que simplesmente não temos energia para fazer nada além de ficar sentados a ver a nossa série favorita, e isso não deveria ser visto como um fracasso. Ainda assim, a cultura da produtividade ensina-nos o contrário: descansar é perder tempo e estar sempre ocupado é a chave para o sucesso. 

No início do secundário, lembro-me de ter o péssimo hábito de encher a minha agenda com tarefas a cumprir: não sobrava uma única linha em branco e tinha de fazer tudo num tempo muito limitado. O resultado disto era um constante sentimento de impotência por não conseguir cumprir as tarefas a que me propunha. Na minha cabeça, a razão pela qual eu não era capaz de fazer tudo não era por realmente estar a tentar fazer demasiadas coisas de uma só vez, mas simplesmente por não ser suficiente. No meu caso, eventualmente, consegui desconstruir esta ideia, mas nem sempre esse processo é simples e muitas pessoas acabam por desenvolver problemas de saúde mental como depressão, ansiedade ou entrar em burnout, por viverem presas a esta ideia de produtividade constante. 

O problema não está em não conseguirmos fazer tudo ao mesmo tempo, mas sim na ideia de que o deveríamos conseguir. Reconhecer limites não é um sinal de fraqueza: enquanto o descanso continuar a vir acompanhado de culpa e a ser visto como preguiça, o esgotamento vai continuar a ser visto como sucesso.

Fonte: Kumo Space

Fonte: Neofórmula

Artigo corrigido por Carolina Ferreira

AUTORIA

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A Carolina tem 18 anos, vem de Loures e está no 1º ano da licenciatura em Jornalismo. Adora ouvir música, fazer compras, passear com uma boa companhia e ver futebol (se for o Sporting ainda melhor). Fala pelos cotovelos e ri-se de tudo. É a pessoa mais distraída do mundo mas quando ouve a palavra “fofoca” não lhe escapa nenhum detalhe. Desde pequena sempre gostou de escrever e criar histórias e por isso, viu na Magazine uma oportunidade para partilhar a sua paixão com os outros!