Ditadura Física na Era Digital
Na atualidade, algo de que não nos podemos certamente queixar é da falta de recursos. Recursos vários, mas especialmente aqueles facilitadores da comunicação. É mais fácil estabelecer contacto com outras pessoas independentemente de onde nos encontramos, mesmo a nível internacional.
Foram pensados, desenvolvidos e executados com a conveniência em mente. O leque de possibilidades criativas expandiu-se para além da nossa compreensão, atingindo dimensões estratosféricas mais rapidamente que qualquer outro fenómeno na história da civilização: e este, caso fosse dominado, levaria a nossa espécie consigo e nunca mais olharia para trás, colmatando assim outra etapa inegável da evolução humana.
No entanto, como esperado e demonstrado pela história, o progresso é sempre temido pelos membros mais conservadores da sociedade. Invejam a melhoria das condições, temem a mudança e prendem-se a princípios envelhecidos, desadequados, ineficientes e redundantes. A sua teimosia e a ilusão da “metodologia ideal” (a forma como eles abordavam os afazeres antigamente é que era boa) é a causa principal desta ditadura. Ditadura, porque as vítimas deste regime pouco ou nada podem fazer contra os seus comandantes, exceto assistir e esperar a altura certa para remediar o atraso que surge como consequência de toda esta confusão.
Um exemplo prático da ação desta ditadura evidencia-se claramente no setor empresarial; empresas e organizações forçam trabalhadores a desempenhar funções presencialmente que facilmente poderiam ser tratadas de forma remota, poupando tempo, recursos de deslocação e, acima de tudo, impulsionando a eficácia por detrás da gestão destes desafios.

Mas afinal o que motiva esta insistência na presencialidade?
Parece-me que a raiz do problema não reside na lógica da produção, mas num défice crónico de confiança ontológica. O “comandante” empresarial sofre de uma cegueira percetual; de uma cegueira que o leva a acreditar que não está, de facto, cego. Que aquilo que vê é a verdade final acerca do desempenho efetivo. Para ele, o trabalho só é tangível se for visível. Se não consegue observar o corpo físico do funcionário estacionado num determinado espaço, a sua mente arcaica não consegue validar a existência do esforço da produção, do trabalho: é a satisfação que o “parecer” traz sobre o “fazer”.
Este enclausuramento impõe uma prisão agonizante ao indivíduo. É um desperdício, tanto de essência humana como do seu potencial. Numa era onde a informação viaja à velocidade da luz, obrigar um trabalhador a passear tartarugas é, no mínimo, falta de consideração.

Não podemos permitir que a presencialidade continue a ditar a competência. É necessário que a nova geração de cidadãos – aqueles que agora formamos e que somos – se insurja contra estes “padrões secos e chatos”, como diria qualquer pessoa que preze a sua liberdade institucional.
O futuro do ofício não deve depender da ocupação desnecessária de um determinado espaço físico, mas da flexibilidade espacial do pensamento livre. Afinal, se a nossa ocupação assim o permitir, que o façamos onde a lógica melhor floresce, e não onde a tradição ultrapassada nos manda sentar.
Fonte: Pixabay
Corrigido por Carlota Lourinho
AUTORIA
O António, de 18 anos, é um rapaz especialmente curioso, com interesse na envolvência da sociedade. Adora filosofia, e de pensar sobre aquelas camadas da existência que aparentam ser invisíveis à percepção. Pratica, no Substack, a articulação de postulações reflexivas, que representam a intriga inevitável do pensamento inquietante. Vibra com hip-hop melódico, e encontra na escrita e na criatividade uma forma de se expressar e crescer. Também procura aplicar o pensamento crítico no seu quotidiano, em busca da veracidade nas suas convicções. Parte desse quotidiano passa, portanto, por aziar no Fifa.

