Ensinar e aprender devem ser sinónimos de alegria
Cristina Oliveira nasceu em Braga, a 10 de janeiro de 1970. Filha de uma assistente administrativa e de um bancário, encontrou no ensino a sua vocação profissional. Licenciou-se em Ensino de Português e Alemão pela Universidade do Minho, em 1996.
Houve alguma professora ou experiência de infância que tenha influenciado a sua decisão de seguir o ensino (de ser professora)?
Quando frequentava o 1º ano (hoje 5º ano) adorava a minha professora de Inglês (a professora Gabriela) e, por isso, queria ser como ela. Os meus pais tinham um quadro preto de giz na garagem e eu chamava as minhas amigas e dava-lhes aulas de Inglês como se fosse a professora. Anos mais tarde, talvez no 7º ano, também quis ser professora de Educação Física, mas a ginástica foi demais para mim e voltei à minha primeira escolha: ser professora de Línguas.
Sempre imaginou trabalhar em sala de aula ou o caminho foi-se desenhando aos poucos?
Como já referi, ensinar sempre foi o meu foco. Assim, em 1990, dei aulas de Inglês ao 2º ciclo numa Escola de Barcelos, apenas com o 12º ano. Nessa altura, também havia poucos professores em algumas áreas.

Fonte: Leonor Faria
O que a levou a escolher a Licenciatura em Ensino de Português e Alemão?
Os meus pais só me deixavam concorrer para três cidades: Braga, Porto e Lisboa.
Desse modo, só entrei aos 21 anos (1991) quando abriu esta licenciatura na Universidade do Minho. Não foi a minha primeira escolha, mas gostei tanto do curso que nunca pensei em mudar.
Sempre teve uma ligação especial à língua portuguesa ou foi uma paixão que surgiu mais tarde?
A minha paixão pela língua portuguesa e pela escrita começou cedo, na Escola Primária. Lembro-me de que o título da composição era “Quem sou eu?” e a professora deu-me Muito Bom e elogiou-me imenso. Isto marcou-me tanto que, nas minhas aulas de Português, a primeira tarefa dos alunos era escrever um texto com o mesmo título.
Durante alguns anos escrevi histórias na máquina de escrever que tínhamos em casa. Com as mudanças, essas histórias perderam-se… Juntamente com a escrita surgiu o gosto pela leitura que ainda mantenho.
Enquanto a instabilidade da profissão docente é, em muitos casos, apontada como um motivo para o abandono da carreira, no percurso de Cristina essa instabilidade traduziu-se num repensar da sua área de especialização.
Em algum momento pensou em desistir da profissão devido à instabilidade?
Nunca pensei nisso. No entanto, tive que abrir “uma porta” a outro grupo de recrutamento para poder continuar o meu sonho. Em 2015, tirei o Curso de Formação Especializada: Educação Especial – Domínio Cognitivo e Motor.
O que é que a Especialização em Fafe lhe trouxe em termos de ferramentas, visão e práticas?
A Especialização ajudou-me a manter o meu sonho. Claro que também me ensinou as competências técnicas e pedagógicas para apoiar alunos com necessidades específicas e promover a sua plena inclusão na escola.
Acredita que a formação em Português lhe deu bases importantes para trabalhar na Educação Especial?
Não foi propriamente a formação em Português que me deu as bases, mas sim o facto de ter tido, quase sempre, nas minhas aulas, alunos com necessidades específicas, que sempre me desafiaram nas minhas práticas letivas.
De que forma a entrada tardia nos quadros influenciou a sua vida pessoal e familiar?
Efetivamente apenas entrei nos quadros em 2017 porque optei sempre por concorrer para escolas que dessem para estar perto de casa e acompanhar a minha família. Nesse ano concorri a nível nacional, uma vez que achei que estavam reunidas as condições para o fazer. Fiquei colocada no Quadro de Zona Pedagógica (QZP) seis, que abrangia a Zona Oeste e o Ribatejo. Na altura pensei que conseguiria Mobilidade Interna perto de casa. Não aconteceu e, pela primeira vez na minha vida, com 47 anos, fui trabalhar para longe de casa. Não foi fácil! Finalmente, este ano, entrei num Quadro de Agrupamento perto de casa.
Quais foram as maiores diferenças entre trabalhar no Bombarral e nas restantes escolas da sua carreira?
A maior diferença foi a distância (300km) a que estava de Braga.
O Agrupamento de Escolas Fernão do Pó foi a minha vigésima primeira escola, por isso nada me surpreendeu.
Que aprendizagens pessoais ou profissionais trouxe desse ano?
Que tudo se consegue quando temos a família a ajudar para não custar tanto. Em termos profissionais foi um ano muito exigente e de muitas aprendizagens com colegas que me marcaram para a vida.
Com 29 anos de carreira, 25 escolas e milhares de alunos ao longo do seu percurso, a “professora Cristina” já não é a jovem que entrou na Universidade do Minho aos 21 anos. É hoje uma profissional com experiência e um percurso marcado pela diversidade de contextos educativos.

Fonte: Leonor Faria
Acredita que o facto de ter passado por tantas escolas diferentes moldou a professora que é hoje?
Claro que sim. Todas as 25 escolas onde lecionei me ensinaram algo, as vivências foram sempre diferentes. Penso que sou hoje melhor professora do que era há trinta/vinte/dez anos porque estou sempre a aprender e a melhorar as minhas práticas letivas.
Ver um sorriso num aluno é uma das suas prioridades. Enquanto alguns descrevem isso como “instinto materno”, Cristina considera que faz parte do seu papel como professora.
Sente que as escolas estão melhor preparadas para receber alunos com necessidades específicas?
Muitas escolas não estão preparadas por falta de condições físicas e humanas. Temos que trabalhar com os recursos que temos, por isso sempre que o aluno, no final do ano, está melhor do que no início, é uma conquista dele, da família e da escola. Nem todos aprendem da mesma forma, mas todos conseguem aprender (inclusão). O importante é prepará-los e dar-lhes ferramentas para a vida.
Que mudanças gostava de ver nos próximos anos no ensino?
A Escola tem novos desafios além de ensinar a aprender a ler, a escrever e a contar. A Escola tem de ser mais do que uma sala de aula, pois alguns dos nossos alunos vão ter profissões que ainda não foram inventadas.
Gostava de que a Escola Pública fosse uma escola de qualidade/equidade e com possibilidade de aprendizagem para todos os alunos. Isto implicará definir para cada um a estratégia adequada para haver uma educação de qualidade. É importante ensinar os nossos alunos a ser, a questionar e a ter conhecimento.
O que diria a um jovem que sonha ser professor, mas tem receio dos desafios da carreira de docente?
Que os professores nasceram para fazer a diferença. Que ensinar e aprender deve ser sinónimo de alegria.
Imagem de capa: Leonor Faria
Artigo corrigido por: Érica Gregório
AUTORIA
A Leonor tem 20 anos e é de Braga. Desde cedo percebeu que o jornalismo era mais do que uma curiosidade: era uma paixão que lhe corria nas veias.
Dividiu a infância entre a bola nos pés e o caderno nas mãos, mas foi na escrita que encontrou o verdadeiro campo onde queria jogar.
Na ESCS, procura transformar esse sonho em profissão e vê na ESCS Magazine a oportunidade perfeita para dar voz às histórias que sempre quis contar.

