A Epopeia Portuguesa nos Jogos de Inverno
Ao longo dos séculos, a identidade desportiva de Portugal tem sido definida pela sua geografia. A nossa história é construída à volta do Sol, do Atlântico e de um clima mediterrânico que favorece naturalmente os desportos de verão. No entanto, existe um lado persistente que resiste a esta identidade: a participação portuguesa nos desportos de inverno.
Esta presença é vista como um contraste geográfico, dada a falta de neve natural e de infraestruturas alpinas no nosso país. Na verdade, este percurso é um testemunho de força da nossa comunidade no estrangeiro e da adaptação dos atletas, que levam a bandeira para locais muito distantes das praias do Algarve.
O percurso nacional nos Jogos de Inverno foi, por muito tempo, uma sucessão de eventos isolados e quase acidentais. Desde a estreia solitária de Duarte Silva em 1952 até à equipa de bobsleigh de 1988, que ficou famosa por angariar fundos junto da comunidade no Canadá para pagar o seu equipamento, o esforço dependeu da iniciativa própria de emigrantes. Hoje, esse espírito amador evoluiu para uma estrutura profissional.
Embora a maior parte dos atletas ainda viva e treine no estrangeiro – por falta de condições naturais em Portugal -, estão agora integrados num sistema formal liderado pela Federação de Desportos de Inverno e pelo Comité Olímpico. O foco atual são os resultados competitivos e o bater recordes, e não apenas o objetivo de terminar a corrida (como acontecia nas primeiras participações).
Fonte: Olympics.com
Os Jogos de Milão-Cortina 2026 mostraram os resultados desta mudança através de uma delegação composta por Vanina Guerillot, Emeric Guerillot e José Cabeça.
Aos 23 anos, Vanina Guerillot fez história ao tornar-se a primeira mulher portuguesa a competir em duas edições seguidas dos Jogos de Inverno. Em 2026, participou nas provas de Slalom e Slalom Gigante. O seu desempenho no Slalom Gigante foi particularmente significativo, pois terminou no 41º lugar e bateu o seu próprio recorde nacional alcançado em Pequim 2022. Apesar de viver e treinar em França, a lusodescendente mantém uma ligação às suas raízes em Atães, no concelho de Guimarães. Vanina encara esta repetição olímpica como uma recompensa por anos de trabalho árduo, e espera que o seu exemplo inspire outras jovens portuguesas a dedicarem-se ao desporto de alta competição.
Fonte: Reuters
O grande destaque desta edição veio do seu irmão de 18 anos, Emeric Guerillot. O jovem estreou-se na lendária pista Stelvio, conhecida pela inclinação extrema e pelo gelo, na modalidade de Super G.
Este momento foi especial, pois marcou o regresso de Portugal às provas de velocidade pela primeira vez desde 1994. Emeric terminou no 32º lugar e igualou o melhor resultado de sempre de um atleta português no esqui alpino. Também conseguiu um 38º lugar no Slalom Gigante, provando que consegue manter um alto nível de desempenho em diferentes disciplinas apesar da sua juventude. Mesmo que uma tempestade de neve o tenha impedido de concluir o Slalom final, os seus resultados estabeleceram-no como um competidor sério no palco internacional.
Fonte: Diário de Notícias
A história de José Cabeça oferece uma perspetiva diferente sobre a experiência portuguesa na neve. Ao contrário dos irmãos Guerillot, que cresceram nos Alpes franceses, Cabeça é natural de Évora, uma das regiões mais quentes de Portugal. O antigo triatleta, que aprendeu as bases do esqui através de vídeos no Youtube em 2020, representa atualmente o clube sueco Mora IFK e já conta com duas participações olímpicas. Como um dos porta-estandartes em Milão-Cortina, competiu no esqui de fundo.
Num desporto dominado pelos países nórdicos, terminou em 99.º lugar. Embora a posição seja modesta, o sucesso da sua campanha é medido pelo tempo de prova, uma vez que reduziu significativamente a diferença para os campeões olímpicos em comparação com a sua prestação em 2022.
Fonte: TVI
Esta evolução tem agora olhos postos no futuro. A federação trabalha para expandir a delegação, com um foco forte na Patinagem de Velocidade através de Jéssica Rodrigues. A jovem atleta da Madeira já atingiu resultados de classe mundial a nível júnior, tendo-se sagrado campeã mundial em 2025. Jéssica esteve muito perto de garantir uma vaga para os Jogos de 2026, ocupando o último lugar de apuramento no ranking mundial, mas a falta de índices mínimos de tempo nas distâncias individuais adiou a sua estreia.
O caminho para 2030 está aberto, apoiado numa estrutura mais sólida e numa nova geração de talentos pronta para levar a bandeira nacional ainda mais longe nas pistas de neve e de gelo de todo o mundo.
Fonte de Capa: GettyImages
Artigo corrigido por Eva Guedes
AUTORIA
A Maria está no segundo ano de Jornalismo e sempre foi daquelas pessoas que não consegue dizer que não a um desporto novo. Já passou por quase todos, mas foi a ginástica que acabou por dominar a sua vida durante anos. Agora, longe das competições, encontrou na Magazine o espaço ideal para manter viva a ligação a um mundo que sempre a fascinou.





