Passatempos: do lazer à obsessão
Todos nós temos ou já tivemos algum passatempo. O passatempo vai desde o livrinho de palavras cruzadas até aos rabiscos num caderno de bolso, e é uma atividade que serve, como o próprio nome indica, para ajudar a passar o tempo livre. No entanto, muitas vezes acabamos por nos esquecer disso e levamos essas atividades demasiado a sério.
O passatempo é diferente do hobby, na medida em que o primeiro exige menos dedicação do que o segundo. Aquilo que deixa muita gente insegura é que, muitas vezes, fazemos determinada coisa como passatempo e comparamo-nos com pessoas que a fazem como hobby.
Por exemplo, digamos que, quando estou no autocarro à espera de chegar a casa, gosto de anotar os pensamentos que me passam pela cabeça e torná-los um texto curto, simples e pouco trabalhado. O problema surge quando comparo o meu texto com o de alguém que estabeleceu as suas ideias, fez uma versão bruta do texto e, depois, foi trabalhando nele, fazendo alterações até achar que as ideias estavam expressas da forma desejada.

Quem faz isso dedica-se a um processo de criação e aperfeiçoamento que requer mais atenção e esforço. Isto já não é um passatempo, mas sim uma atividade que consome tempo e cuidado, com a finalidade de criar um produto de longa duração.
Um dos grandes problemas dos dias de hoje é que não sabemos viver o momento. Não há mal nenhum em fazer coisas “inúteis”, ou seja, que não nos vão servir para nada no futuro, desde que nos ajudem a apreciar o presente. O passatempo é algo que se faz no momento e para o momento, diferentemente do hobby, que engloba todo um processo feito com um resultado final em mente.
Também é importante ter em conta que não temos de ser bons nos nossos passatempos. Se desenhar é algo que me diverte quando estou aborrecida, posso fazê-lo “só porque sim”. Não tem de ficar bonito. «Aquilo que interessa não é o produto final, mas sim o ato de fazer». Se, de repente, decidisse estudar perspetiva e teoria das cores, o desenho deixaria de ser uma distração e passaria a ser uma tarefa árdua e meticulosa.
É aqui que muita gente fica frustrada e deixa de fazer aquilo de que gosta. Deixamos de encarar o passatempo como um momento de lazer e ficamos obcecados em ser os melhores. Por um lado, estamos subconscientemente à espera de suceder sem esforço e ficamos desiludidos quando isso não acontece. Por outro, damos demasiada importância e esforço a algo que era suposto ser leve, quase superficial, e acabamos por ficar cansados.

O passatempo tem como função ser um preenchimento dos tempos livres. Se o tornarmos uma tarefa, um hobby, então já não podemos dizer que temos tempo livre porque o ocupámos. O passatempo deve ser algo que possa ser interrompido sem causar grande desconforto, já o hobby deve ser uma ação com momentos dedicados exclusivamente à sua realização.
Quero ainda deixar claro que nada disto significa que uma pessoa não se deva esforçar para progredir naquilo que lhe dá gosto. O passatempo não é um hobby, mas pode facilmente transformar-se num. Se descobrimos que um dos nossos passatempos é algo com que realmente nos identificamos, é completamente válido querer fazê-lo com mais dedicação.
Sou a favor da ideia de que devemos dar sempre o nosso melhor e de que quem se esforça colhe frutos de boa qualidade. Mas obviamente isto não tem de se aplicar a absolutamente tudo: há momentos para nos dedicarmos à nossa evolução pessoal através de atividades que nos fazem pensar e desafiam os nossos limites, mas também há momentos apenas para relaxar e aproveitar o presente.
Fonte: Freepik
Artigo corrigido por: Diana Martins
AUTORIA
A Carla Vitório, vinda da Lourinhã, terminou o secundário sem saber o que queria fazer e acabou por cair de paraquedas no curso de Jornalismo da ESCS. Descobriu, através da disciplina de Língua e Expressão do Português, que gosta muito de gramática e de espalhar o uso do bom português, logo resolveu juntar-se ao departamento de Correção Linguística da ESCS Magazine. Apesar do seu humor sarcástico e um pouco seco, a Carla adora criar boas relações com os outros e dá o seu melhor para que ninguém se sinta julgado quando ela está por perto.

