Nouvelle Vague aos olhos de Agnès Varda
Agnès Varda foi uma das maiores figuras da Nouvelle Vague, um movimento cinematográfico francês revolucionário dos anos 50 a 60, que conta com a grande influência de Jean-Luc Godard e François Truffaut. Em conjunto com estes e outros artistas de renome, a cineasta foi pioneira destemovimento e, até hoje, o seu trabalho dentro e fora do cinema é reconhecido pelos amantes de arte. Agnès Varda tornou-se um ícone internacional e é muitas vezes descrita como “uma visionária ferozmente independente e inquietamente curiosa, cujo trabalho era simultaneamente pessoal e apaixonadamente comprometido com o mundo que a rodeava”.
Fonte: thegentlewoman.co.uk
Para entender um pouco do seu trabalho é importante conhecer alguns aspetos do movimento que ajudou a fundar. A Nouvelle Vague ganhou popularidade no final dos anos 50, em Paris. Teve como objetivo oferecer aos realizadores total controlo criativo sobre o seu trabalho, permitindo-lhes evitar narrativas exageradas para que as improvisadas e existenciais tomassem o seu lugar. Surgiu de uma rejeição direta dos filmes, na altura muito populares, da “Old Hollywood”, que enfatizavam narrativas fortes e de fácil perceção produzidas por estúdios enormes que controlam quase todo o processo criativo. Os realizadores deste movimento mudaram não só o cinema francês como a própria indústria cinematográfica ao abrir caminho para o cinema independente.
Estas produções têm como objetivo afastarem-se das narrativas dos filmes americanos, de forma a desafiar o espectador. Expressavam ideias complexas, como os pensamentos e emoções do autor, lidando com dificuldades e interesses intelectuais como o existencialismo e o absurdo da existência. Rejeitavam filmes baseados em argumentos e defendiam o improviso. Procuravam também romper com a forma tradicional das produções cinematográficas.
São então estas e outras técnicas que Agnès Varda utilizava na realização dos seus inúmeros filmes. Apesar disto, a artista não é apenas reconhecida pela sua cinematografia: também foi bastante reconhecida pelo seu extenso trabalho no âmbito da fotografia. Até hoje afirma que não sabe como a paixão pela fotografia evoluiu para a paixão pelo cinema, mas foi enquanto fotógrafa oficial do Théâtre National Populaire, que se encontra nesta vertente dos audiovisuais e do teatro.
É em 1944 que Agnès surge nas artes e neste seu vasto mundo. Em 1948, a convite de Jean Vilar, tornou-se fotógrafa não oficial do Festival d’Avignon, e foi nesse mesmo ano que começou a ganhar dinheiro com a fotografia. Em 1954, aos 25 anos, tendo visto pouco mais de 25 filmes na sua vida, decidiu fazer um. A partir desse momento, vai fazer diversos filmes sob o pretexto de que as suas estruturas vão ser sempre mais importantes do que a história que contam. É apenas em 1967 que vai para os Estados Unidos, devido ao sucesso do seu segundo marido, Jacques Demy (um realizador que, na altura, era também bastante reconhecido). Lá começou a ler e a estudar o trabalho de escritoras feministas, como Shulamith Firestone, Germaine Greer e Kate Millet, desenvolvendo um interesse especial pelo movimento. Esse interesse ganhou forma quando a artista voltou a Paris para participar no “Manifesto of the 343”, publicado em 1971, em que mulheres que tinham feito abortos, na altura ilegais, admitiam publicamente terem-nos feito.
O seu ativismo levou-a a examinar a representação das mulheres no ecrã ao mesmo tempo que tenta reformar esta noção. Para além de pioneira na Nouvelle Vague, fez parte de um movimento de cineastas à esquerda intitulado La Rive Gauche, com cineastas como Chris Marker, Alain Resnais, entre outros.
Dentro de todo o seu trabalho em ambos os movimentos a que pertenceu, os filmes que mais se destacam são a curta-metragem, L’Opéra-Mouffe (1958) e três longas-metragens, Cléo de 5 à 7 (1962), Le Bonheur (1965) e Les Créatures (1966).




Em todo o seu trabalho, Agnès manteve-se fiel à subjacente sensibilidade para o qual ela criou a palavra cinécriture (a mistura do “cinema” e da “escrita”), de forma a trazer liberdade e imediatez, características que considerava essenciais para escritores dedicados à produção cinematográfica.
Viveu de tal forma que parecia descuidada, mas fez os seus impulsos trabalharem. Foi ela própria uma personalidade, uma estrela tanto no privado como no público, devido à forma feroz e brilhante de falar: caprichosamente autodepreciativa, Agnès Varda era especialmente atenta às pessoas e às situações que encontrava. Estas são formas que delimitam singularmente a sua criatividade.
Assim, traçou um vocabulário único numa carreira abundante, que nunca parou de expandir a noção do que um filme podia ser. Apagou todos os limites entre narrativa e documentário, ao mesmo tempo que entrelaça retratos de amigos, família e até do seu mundo pessoal e interior, com uma consciência social sincronizada com a contracultura presente nos anos 60, onde estão presentes vários movimentos ativistas da época. Esta coleção vasta e compreensiva dos diversos assuntos sociais coloca a filmografia de Varda em contexto com o seu trabalho como fotógrafa e artista visual.
Todo o seu trabalho, seja em que área for, é um testemunho da sua visão radical, à sua imaginação ilimitada e ao seu espírito radiante próprio de um indivíduo verdadeiro para quem todos os atos de criação são expressões vitais do seu eu próprio.
Fonte da capa: Pinterest
Artigo corrigido por: Madalena Monteiro
AUTORIA
A Matilde, de 19 anos, sempre teve uma curiosidade imensa e uma vontade de saber um pouco acerca de tudo. Desde a teoria da relatividade de Einstein aos livros da Sally Rooney. Encontrou na Escs Magazine uma oportunidade para explorar, através da escrita, um novo interesse na astronomia e outras ciências, em conjunto com um dos seus tópicos de conversa favoritos: a literatura.
Passa uma grande parte do seu tempo no Booktube, onde descobre as novidades e alguns dos grandes clássicos que, infelizmente, ainda tem por ler.


