“Uma Aventura” na Escola Superior de Comunicação Social
Para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, a ESCS Magazine esteve à conversa com as autoras de Uma Aventura, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada: duas autoras que fomentam a sua paixão pela língua portuguesa ao levá-la aos mais novos através da literatura.
“Ler” e “seca” não deviam ser sinónimos
Sobre o consumo e hábitos de leitura dos jovens, é Isabel Alçada quem responde com uma perspetiva positiva, dizendo que “as pessoas são todas diferentes”. Quando questionada sobre as diferenças entre ler compulsivamente e ler mais pausadamente, a autora respondeu que são características que cada pessoa define para si mesma, já que existem gostos para ambos hábitos de leitura e concluiu que “é sempre literatura”. Acima de tudo, apreciou o facto de as pessoas continuarem a ler, por ser uma “atividade muitíssimo importante que desenvolve todos os sentidos”.
A partir deste ponto, Ana Maria Magalhães aproveitou para falar sobre a formação de leitores, dizendo que “a maioria tem que ser motivada pelos pais e, sobretudo, pelos professores”. Refere, no entanto, que não pode haver excesso de regras: “Cada um tem de ler como gosta, e aquilo de que gosta”. Isabel Alçada reforçou o trabalho dos pais e dos professores no incentivo do gosto pela leitura. Para além disso, declarou que esta promoção, feita através do ensino, “deve começar o mais cedo possível” – e deve acompanhar os jovens do jardim de infância, onde se leem histórias em voz alta, ao ensino secundário, onde se ensinam obras e se estudam autores clássicos.
Sobre o Plano Nacional de Leitura, Ana Maria Magalhães afirmou que “não deve ser uma coisa imposta centralmente”, uma vez que “a literatura é um campo da diversidade”. Mesmo que alguns autores sejam mais importantes do que outros, os alunos devem ter a possibilidade de “escolher aquilo que pode ser atraente daquele autor ou outro”. Complementa este pensamento ao dar o exemplo de Eça de Queirós.
“É muito melhor ler um conto de seis páginas do Eça do que ler o resumo d’ Os Maias. Se ler um conto, terá lido aquilo que ele escreveu”.
As duas autoras afirmam que o que se faz aos autores em Portugal é “transformá-los numa seca monumental”. Para ambas, o problema está na escola, que “não consegue ajudar os alunos a progredir, a gostar e a interessarem-se”, o que faz com que os alunos tenham dificuldade em compreender as obras e optem pelos resumos. “É o que nós já entendemos do mundo que nos faz compreender o que está escrito”, acrescentou Isabel Alçada. Captar o interesse dos alunos é, então, necessário para que comecem a pensar na forma como o autor conta as histórias e apreciem o seu estilo de escrita.
“Se os jovens não tiverem experiências que lhes dêem a possibilidade de interpretar a escrita de diferentes autores, não vão entender o que lhes é apresentado”.
Duas cabeças que pensam melhor do que uma
Para duas autoras que contam com mais de 100 livros publicados, seria de esperar que Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada tivessem problemas ou desafios no que diz respeito à criatividade. No entanto, afirmam não ser o caso, por serem duas e terem uma cumplicidade que as leva para um caminho de ideias para novas histórias. Têm os leitores sempre na mente: “Para quem estamos a escrever? Que idade tem? Qual é o nível de leitura que as pessoas desta idade conseguem ter?”. Estas são as questões que estão na base do trabalho da sua escrita, tanto na escolha dos temas, como no “ritmo das peripécias, na dimensão dos capítulos e na dimensão dos livros”.
Um dos pontos mais evidentes na dinâmica de trabalho de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada é a colaboração sem atritos. Quando as opiniões divergem, as duas autoras conversam, debatem os argumentos e, se uma ideia não agrada a ambas, é imediatamente descartada.
Em relação aos princípios morais que guiam a coleção Uma Aventura, não há dúvidas: o mal nunca vai ser retratado de forma sedutora. Ana Maria Magalhães recordou que, nos tempos em que lecionava na Escola Fernando Pessoa, a exibição de uma série sobre o Holocausto levou um aluno de onze anos a manifestar o desejo de ser um soldado da SS, fascinado pelo poder e pela estética dos atores. Este episódio moldou a construção dos vilões nas suas obras, que passaram a ser caracterizados com traços grotescos, nomes horrorosos e atitudes broncas para evitar a romantização da criminalidade.
Questionadas sobre o fascínio pelo público infanto-juvenil e a longevidade da coleção, recentemente galardoada com o prémio de Melhor Livro Infantil de 2025 da Bertrand, Ana Maria Magalhães partilhou que começou a inventar histórias muito cedo por ser a mais velha de cinco irmãos. Mais tarde, tornou-se professora depois de acompanhar o marido na Guerra Colonial na atual Maputo. Foi nessa faixa etária que encontrou a sua vocação comunicativa, partilhada por Isabel Alçada. O quotidiano familiar também inspirou a escrita para adolescentes: quando a filha de Ana Maria Magalhães sofreu uma lesão grave no joelho, que acabou com o sonho de seguir o desporto, o seu diário serviu de base para o livro O Diário Secreto de Camila.
A pesquisa de campo é outra regra de ouro para as autoras, que visitam sempre os locais onde ambientam as narrativas. Durante a conversa, relataram vários episódios que tiveram nos sítios que visitaram para construir uma narrativa mais coerente nos seus livros. Em Lisboa, para escrever parte de uma aventura que tinha como cenário a Torre de Belém, as duas autoras foram apanhadas pelo circuito interno de televisão a testar esconderijos dentro da lareira e atrás de colunas.
Admitem que a escrita exige certo rigor científico, como aconteceu no volume Uma Aventura Alarmante, que envolvia um episódio de epidemia bacteriana, validado constantemente por telefone com uma cientista.
Atentas às novas gerações, as autoras também adaptaram as narrativas à nova tecnologia; o telemóvel entrou no volume 34 e, hoje, com o apoio da neta de Ana Maria Magalhães, comunicam com os leitores pelo Instagram e TikTok para recolher sugestões de nomes para os bandidos.
A aventura que foi parar à televisão
A transição das famosas aventuras literárias para o audiovisual foi recebida com enorme entusiasmo pelas autoras, mas exigiu cautela.
Para que a adaptação televisiva conseguisse luz verde, impuseram três condições inegociáveis que garantissem a integridade da obra original: os atores escolhidos tinham de apresentar semelhanças físicas óbvias com as personagens dos livros, o uso de palavrões estava terminantemente proibido e a série tinha de refletir o ritmo acelerado e dinâmico das histórias, contrariando a tendência de algumas produções mais lentas da época.
As autoras acompanharam este processo de perto, assistindo a algumas filmagens e até participando num episódio gravado em Mafra. Foi lá que fizeram uma breve figuração numa carrinha de comida batizada de “O Comilanço“, uma brincadeira nascida de uma piada entre as duas que acabou por ficar imortalizada no ecrã. Manifestaram o orgulho no impacto da icónica série de televisão e o entusiasmo perante uma eventual nova adaptação com novas histórias e atores.
Quando questionadas sobre a sua metodologia de trabalho, a dupla desmistifica a ideia do escritor fechado no seu gabinete com horários rígidos. Com agendas frequentemente preenchidas por deslocações a bibliotecas e encontros online com escolas de todo o país, a escrita acontece nas aberturas do dia a dia. O verdadeiro segredo desta parceria inabalável, contudo, remonta ao tempo em que partilharam a sala de professores durante quatro anos. Além desta base prática, partilham o mesmo tecido de valores: vêm de famílias grandes, nutrem um profundo entendimento entre pares e partilham a mesma visão positiva do que deve ser transmitido aos mais novos.
Esse respeito pela infância reflete-se, sobretudo, na forma como lidam com temáticas mais pesadas na literatura infanto-juvenil. As autoras são perentórias ao recusar introduzir temas como a morte ou o luto apenas para cumprir uma quota pedagógica. Para elas, há uma diferença colossal entre usar um livro para ajudar uma criança a superar um problema real e atirar gratuitamente um drama existencial para o colo de jovens que procuram apenas aventura. Como ironizaram de forma brilhante durante a talk, não é preciso “partir o coração” a uma criança para lhe ensinar o Imperfeito do Conjuntivo.
E, se as autoras sabem perfeitamente o que não querem escrever, o seu público sabe exatamente o que quer ler. Depois de ouvirem críticas de alguns adultos que as acusavam de ter demasiados vilões nas histórias, cederam e escreveram Uma Aventura na Terra e no Mar, um livro totalmente desprovido de antagonistas. O resultado foi uma autêntica rebelião dos leitores. O ápice do protesto chegou através de uma carta inesquecível de uma menina de dez anos que resumiu o sentimento geral ao exigir “crimes condenáveis e pessoas castigáveis“. A mensagem foi recebida com sucesso e, desde esse dia, a dupla tomou a decisão definitiva de seguir apenas a bússola e os desejos dos seus leitores, ignorando as sugestões alheias.
Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada admitem gostar de todos os livros de Uma Aventura. Porém, cada uma tem o seu livro favorito, cuja história é baseada na vida pessoal de cada uma das autoras. Por exemplo, o de Ana Maria Magalhães é Uma Aventura nas Férias de Natal, que retrata as aventuras que viveu na quinta dos seus avós. Já o de Isabel Alçada é Uma Aventura no Bosque, porque é passado num sítio onde a autora passa férias desde pequena.
Concluem a talk a aconselhar futuros leitores. Ana Maria Magalhães, de forma muito simples, reuniu tudo o que é essencial um escritor fazer para conseguir ter sucesso com o que escreve:
“Para alguém ser bom autor tem que ler muito e livros variados. De vários autores portugueses e estrangeiros para conhecer vários estilos e deve também começar por fazer as suas experiências sem pensar que vai logo fazer uma obra de arte”.
Fonte da Capa: Número F
Artigo revisto por Aislan e Eva Guedes
AUTORIA
A Matilde, de 19 anos, sempre teve uma curiosidade imensa e uma vontade de saber um pouco acerca de tudo. Desde a teoria da relatividade de Einstein aos livros da Sally Rooney. Encontrou na Escs Magazine uma oportunidade para explorar, através da escrita, um novo interesse na astronomia e outras ciências, em conjunto com um dos seus tópicos de conversa favoritos: a literatura.
Passa uma grande parte do seu tempo no Booktube, onde descobre as novidades e alguns dos grandes clássicos que, infelizmente, ainda tem por ler.
A Luíza tem 19 anos e veio do Brasil. Atualmente, está no 1.º ano da licenciatura em Relações Públicas e Comunicação Empresarial na ESCS. Desde pequena, sempre foi fascinada pelo mundo da literatura, adora explorar diferentes estilos e continua completamente apaixonada por tudo o que envolve livros. Com esta oportunidade na ESCS Magazine, espera transformar essa paixão pela escrita em novas ideias e experiências criativas.







