Opinião

Há sempre um voo de regresso 

A verdade é que sim, há sempre um voo de regresso – resta saber se o vais querer apanhar ou não. Este é o meu último artigo nesta casa que tão bem me acolheu; ESCS Magazine, obrigado por me teres dado voz. E por ser o último, fazia todo o sentido que fosse este o mais importante que alguma vez escrevi. 

Adiei escrever este artigo por muito tempo. Talvez porque escrever significa fechar um ciclo, e eu talvez não o queira fechar, acho que quero viver nele para sempre. Mas chegou o momento, na verdade se o quero fazer tem mesmo de ser agora, dentro de dias já não faço mais parte desta editoria, não faço mais parte da ESCS Magazine, não faço mais parte da ESCS sequer. 

Este artigo é dedicado a todos os estudantes de Erasmus, estudantes que de alguma forma se desafiaram a eles mesmos, que saíram da sua zona de conforto, e que voltaram maiores do que partiram, e que enriqueceram de alguma maneira. Em especial e em particular àqueles que encontrei em Brno. 

Comecemos pelo início: tive medo. O tipo de medo que te faz ponderar não ir, que te sussurra que a tua ausência seria de certa forma um ato de egoísmo que talvez não valesse a pena praticar. E no entanto fui. Porque, na realidade, nunca será sobre egoísmo, mas sim sobre crescimento, sobre perceber que só se vive uma vez e que mudar será sempre na verdade um ato de altruísmo. Obriguei-me a ir, porque havia algo que me dizia que, por muito mal que corresse, eu ia sair de lá melhor do que entrei. E tinha razão. Tinha toda a razão. Foi um semestre, o primeiro do terceiro ano. Foram cinco meses. Os melhores cinco meses da minha vida. 

Fonte: Pexels

O maior conselho que posso dar a alguém é este: na dúvida, vai. Vai sem o conforto do conhecido. Arrisca, porque é precisamente aí que te encontras, numa realidade completamente distinta da tua, onde és obrigado a olhar para ti mesmo sem filtros, sem as máscaras que usamos em casa, na nossa rotina, sem as amarras invisíveis da sociedade, sem os papéis que desempenhamos para quem nos conhece de sempre. O Erasmus é uma das raras oportunidades da vida em que te pagam, literalmente, para viveres um sonho. Não há desculpas para não o viveres intensamente. 

Mas vou ser honesto: tens de ir com a mentalidade certa. Haverá momentos em que vais sentir que perdes coisas, momentos especiais, relações, contactos, a presença física de quem deixaste para trás. E a verdade é que vai ser sempre inevitável, e não há mal nenhum nisso. Para novas pessoas entrarem na nossa vida, outras tantas têm de sair para lhes dar lugar. E prometo-te, com toda a certeza que tenho, que as pessoas que vais encontrar lá fora são pessoas com mundo, com uma visão mais abrangente, pessoas que viveram mais, viram mais, e que terão sempre algo a ensinar-te. Se a distância física quebrar uma relação, seja ela de que tipo for, garanto-te que é porque essa ligação não era assim tão sólida. Nunca será sobre distância, mas sim sobre amor. Não tenhamos medo de perder quando há tanto mais a ganhar, quando há sempre um lar para onde voltar e um voo de regresso para apanhar. 

Eu fui para Brno, na República Checa, e recomendo este país com todo o meu coração: é o coração quentinho da Europa, quentinho não por temperatura, mas porque te aquece a alma, porque o carinho especial que tenho por este local jamais conseguirei pôr por palavras. Há ligações incríveis por todo o lado, é um país que pulsa e surpreende, e que me deu muito mais do que esperava. A verdade é que qualquer lugar será uma boa escolha, desde que vás. Desde que cresças, que te aventures, e que sejas feliz. O destino é quase acessório, porque na realidade o que faz mesmo o Erasmus são as pessoas. 

Fala-se muito nas viagens. Fiz muitas, conheci a Europa de uma ponta à outra, conheci culturas que nunca imaginei conhecer tão de perto aos 21 anos. Perdi-me por diversas ruas cujo nome nem sequer sabia pronunciar. Mas o que ninguém te conta é que a maior viagem que fazes é interior. É essa que fica. É essa que, quando regressas, te faz olhar para a tua própria vida com outros olhos, com mais generosidade, com mais coragem, com menos medo do desconhecido.

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E depois há as pessoas. Aqueles desconhecidos que se tornam família. Com quem partilhei tudo: quartos, casas, refeições, autocarros, comboios, ressacas emocionais e algumas físicas também, cruzeiros pelos mares Bálticos e uns quantos aviões. Pessoas que me provaram que amizade não é sobre tempo, e sim sobre intensidade. A volta? A volta é a maior ressaca emocional da vida. Não há nada que se compare. Mas isso daria outro artigo, quem sabe um dia… 

Se estás a ler isto e tens a oportunidade de sair da tua zona de conforto, fá-lo. Vai. Não esperes pelo momento certo, pelo destino ideal, pela pessoa certa para ir contigo. Vai. Descobre-te. Olha para ti mesmo numa realidade distinta da que conheces. Cresce. E volta maior, maior em conhecimento, maior em experiências. Mais rico, rico enquanto pessoa e enquanto ser humano. O Erasmus é algo raro, aproveita. 

Děkuji, ESCS Magazine. (Quer dizer obrigado em Checo) 

FIM. 

Fonte: Unsplash

Artigo corrigido por: Mariana Céu

AUTORIA

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Sonhador por natureza, curioso e sempre atento ao que o rodeia, o Samuel de 21 anos, finalista da licenciatura em Publicidade e Marketing, encontrou na editoria de Opinião o lugar ideal para dar asas às suas ideias, um espaço onde pode escrever sobre o que mais o intriga: o mundo em constante mudança. Para ele, opinar é mais do que escrever, é pensar alto. Gosta de refletir sobre a atualidade e de transformar pensamentos soltos em palavras que façam sentido de ser lidas. Vê na escrita uma forma de explorar o mundo e partilhar a sua visão com quem o lê.