Ciência

Qual a tradução de amor?

Num mundo que torna cada vez mais fácil a multiculturalidade e o contacto entre pessoas de diferentes nacionalidades, revela-se um aumento de casais com dupla cidadania, que, por vezes, nem falam a mesma língua materna. Apesar de terem encontrado uma língua comum, como é que estas pessoas encontraram o amor? Pode até parecer uma pergunta idiota, mas, se pensarmos bem, é na nossa língua materna que nos sentimos mais próximos do mundo e dos nossos próprios sentimentos. As palavras têm mais valor. Será que é possível amar alguém noutra língua ou é apenas uma ilusão?

Fonte: Vexels

A hipótese de Sapir-Whorf, também conhecida como “hipótese da relatividade linguística”, diz que a língua não é apenas uma ferramenta para expressar o que pensamos, mas algo que molda a maneira como o fazemos. Esta hipótese divide-se em duas formulações: a versão forte, que sugere que a língua determina a realidade, ou seja, só conseguimos pensar num conceito se tivermos uma palavra para o designar; e a versão fraca, que defende que a língua influencia e predispõe o pensamento do indivíduo na perceção da realidade. 

Focando-nos agora na segunda formulação, esta não impede que pensemos em termos para os quais não temos nome, mas diz que a língua torna certas formas de ver o mundo mais naturais que outras. Por exemplo, na língua russa, para identificar a cor azul podem ser utilizadas duas palavras, “goluboy” para tons de azul claro, e “siniy” para tons de azul escuro. O estudo Winawer, J., et al. (2007)- “Russian blues reveal effects of language on color discrimination” concluiu que falantes russos conseguem distinguir com maior facilidade tons de azul do que falantes de língua inglesa, pelo simples facto de separarem os tons de azul através de duas palavras. Para eles, estas expressões simbolizam cores tão distintas como o amarelo e o verde para nós. 

Fonte: Medium | Tom Moore

Também a tribo australiana Guugu Yimithirr mostra como a língua pode moldar a nossa perceção do mundo. Nesta língua aborígine australiana, não se utilizam termos como esquerda, direita, frente e trás, mas sim os pontos cardeais como norte, sul, este, oeste. No artigo “Language and Cognition: The Cognitive Consequences of Spatial Description in Guugu Yimithirr” explora-se a forma como isso afeta cognitivamente o sentido de orientação desta tribo em comparação ao povo holandês. Ao utilizar uma descrição “absoluta”, este povo indígena consegue identificar automaticamente as direções cardeais em qualquer espaço em que se encontre, algo que as comunidades europeias não conseguem fazer.  

Se a língua molda a maneira como visualizamos cores ou codificamos o espaço, como será que ela configura um conceito tão cultural como o amor?

Fonte: Vecteezy

O amor não é tão simples de definir e traduzir como os conceitos de “água” ou “fogo”. É um conceito tão vasto e complexo que nem o melhor dicionário o poderia definir a 100%. “Amor” é uma palavra que envolve diretamente a língua e a cultura onde é dita. Diversos estudos em psicolinguística sugerem que as emoções expressas numa segunda língua tendem a ser cognitivamente mais distanciadas, questionando o papel da linguagem na expressão da intensidade daquilo que sentimos. Ao contactar duas pessoas que falam idiomas distintos, o sentido daquilo que queremos expressar pode perder-se na tradução. Como por exemplo, a Martina e a Olivia são um casal, a Martina é espanhola e a Olivia inglesa. Quando a Martina começou a aprender a falar inglês, ficou chocada quando percebeu que, em inglês, o sentimento de amor “Love” era apenas definido numa palavra. Sendo ela uma falante de espanhol, para ela existem variados níveis de amor, não de forma hierárquica, mas várias maneiras diferentes de o expressar.. Se ela quisesse traduzir “Te quiero” diria “I love you”, se ela quisesse traduzir “me encantas” ou “te amo” diria também “I love you” e, para ela, não faz sentido estar limitada a estas três palavras. Já para a Olivia é tão natural como a água. 

Pedro está agora em erasmus na Dinamarca, e como entusiasta de português que é, quis ensinar aos seus colegas internacionais uma palavra impossível de ser traduzida e que só existe em português: “saudade”.

Saudade é, por definição, um sentimento que mistura melancolia, amor e desejo pela ausência de alguém, lugar ou de um momento especial. Quando Pedro acabou de explicar esta palavra aos seus colegas, eles ficaram indignados, porque parecia que só os portugueses poderiam sentir falta de alguém de quem gostam, tornando todos os outros falantes em seres de coração de gelo. Na verdade, eles têm razão: não é como se os outros colegas não conseguissem sentir ou perceber o que é “saudade”, mas os falantes de português conseguem identificar de forma instintiva este sentimento por terem um termo para ele (parecido aos tons de azul dos russos)

Fonte: Fandom

E se o amor for como o vocábulo de saudade? E se só os portugueses conseguirem identificar este sentimento espontaneamente, mas toda a gente o consegue sentir? Será que quando a  Olivia diz “I love you” e a Martina “te quiero” estão mesmo a falar da mesma coisa? 

Podemos concluir três possibilidades: ou o amor nestas situações é, em parte, uma ilusão. Não que a relação seja falsa, mas a versão de amor sentida por cada um é filtrada pela sua língua materna, podendo significar que se apaixonaram por versões diferentes de amor; ou os parceiros criam uma terceira língua, a sua “língua do amor”, feita de gestos, expressões e piadas internas que só fazem sentido entre os dois; ou talvez o amor exista antes da língua, não contrariando a hipótese de Sapir-Whorf, mas dizendo que aprendemos a amar antes de falarmos, a amar os nosso pais neste caso, e, posteriormente, utilizamos a língua para tentar ajudar a descrever e exteriorizar esse sentimento, agora, por outras pessoas. 

Fonte da capa: Colagem feita pela redatora
Artigo revisto por: Madalena Carrola

AUTORIA

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A Madalena é uma observadora nata e aluna do curso de Audiovisual e Multimédia da ESCS. Se a virem provavelmente estará a olhar para o teto ou a colocar questões sobre tudo e mais alguma coisa. Se ela fosse uma expressão seria “Queres que te faça um desenho?” Porque ela decididamente não entendeu o que lhe acabaram de dizer, e um desenho é tudo o que precisa (ela veio de artes coitada). É na editoria de ciências que algumas das suas mil questões irão ser respondidas com o objetivo de cativar os leitores escsianos.