Opinião

A estética da autenticidade no seio do TikTok

(Luzes baixas. O quarto desarrumado. O rapaz Y entra com o telemóvel na mão. Respira fundo. Carrega no “gravar”, mas imediatamente a seguir faz uma pausa. Olha para o público.)

Sabes… há dias em que isto pesa mais do que devia. Eu, aqui, a tentar gravar um vídeo para o TikTok, como se estivesse a entrar num palco invisível. Um palco gigante, cheio de luzes que ninguém vê, mas que sinto sempre acesas. E fico a pensar: quem é que devo ser hoje? O eu verdadeiro… ou o eu que funciona bem no feed?

(Dá uns passos, inquieto.)

O TikTok, por mais que tentemos fingir o contrário, é teatro. Desculpem. Não o consigo dizer de outra forma. Teatro com filtros, cortes, truques; Aquilo que consideramos “ser genuíno” nem sempre passa de um truque de bastidores. E eu, que só queria ser honesto, às vezes dou por mim a representar papeis, sem querer, que não escolhi.

(Pausa.)

Mas há algo que não posso negar e é isso que me deixa dividido. No meio deste espetáculo há um saber. Sim, um saber real. Aprendizagem. Ideias que aparecem do nada e ficam a ecoar. Já me apanhei, vezes sem conta, preso a vídeos sobre física quântica explicada com legos, sobre política internacional explicada por alguém da minha idade, sobre ansiedade analisada com uma metáfora tão simples. Há pessoas que ensinam mesmo, que têm a capacidade de transformar um feed caótico numa espécie de biblioteca improvisada.

(Senta-se na cama, quase em confidência.)

E é isso que me confunde: entre as danças ensaiadas e as piadas que se repetem até à exaustão, surge um vídeo que me faz pensar. Que me diz algo que talvez nenhum professor tenha dito daquela forma. Que abre uma porta para um mundo de ideias que eu nem sabia que podia querer explorar. Como é que o mesmo lugar, que me empurra para ser uma versão vendável, também me entrega conhecimento tão improvável?

(Pega no telemóvel. Faz de conta que grava. Apaga. Suspira.)

Depois vem o resto: esta sensação de que a minha atenção está constantemente a ser comida, engolida, reciclada. Que cada vídeo útil aparece seguido por cem outros que só me puxam mais disperso. E lá estou eu, a tentar aprender alguma coisa enquanto o algoritmo me atira confettis digitais à cara.

(Levanta-se com energia repentina.)

É como estar numa escola estranha: não há horários, não há salas, não há silêncio. Há caos, mas também há curiosidade. Há ruído, mas também há aquelas vozes que, sabe-se lá como, nos acertam na alma ou no cérebro. Às vezes, no meio do scroll, encontro mais conhecimento do que encontrei em semanas inteiras da vida real. Ou, pelo menos, parece.

E isso… mexe comigo. Porque prova que este espaço consegue ser superficial e profundo ao mesmo tempo; banal e transformador numa única respiração.

(Caminha lentamente para o público.)

E eu aqui fico: dividido. A querer ser inteiro e contraditório, mas a sentir que tenho de caber numa moldura estreita. E, ainda assim, a perceber que o TikTok pode ser mais do que entretenimento. Pode ser discussão, comunidade… por vezes até esperança.

(Senta-se no chão, com o telemóvel no colo.)

Tu também sentes isso? Esse conflito entre aparecer e aprender? Entre mostrar e descobrir? Entre tentar parecer natural e, no meio disso, dar por ti a absorver conteúdos que te puxam para fora de ti, que te obrigam a pensar?

(Levanta o telemóvel como se fosse um objeto sagrado e ridículo ao mesmo tempo.)

Talvez o mais honesto que podemos fazer seja admitir esta mistura: somos atores e espectadores, alunos e mestres, curiosos e distraídos. Somos tudo ao mesmo tempo. Consumimos saber, mas também o deixamos escorregar. Aprendemos, mas perdemo-nos. Montamos versões de nós próprios enquanto tentamos decifrar um mundo que muda mais depressa do que nós.

(Aproxima-se do centro. A luz incide no rosto.)

Fonte: Freepik

O TikTok é um espelho distorcido, sim. Mas, às vezes, nesse reflexo torto aparece uma ideia luminosa, uma explicação que nos abre a cabeça, uma frase que faz sentido num dia em que nada faz. E isso… é difícil de ignorar.

(Ergue o telemóvel. Não carrega no botão. Pausa.)

Agora imagina: estou prestes a gravar. Há silêncio. Nesse silêncio tento decidir quem vou ser. Não só para o algoritmo, mas para mim mesmo. E de repente… 

(Pausa.)

Percebo que aquilo a que chamamos “ser autêntico” talvez seja apenas isto: continuar a procurar. Continuar a pensar, a aprender, a questionar, mesmo dentro deste labirinto digital. 

(Desliga o telemóvel devagar. A luz apaga.)

No fim, o que fica não é o vídeo. É o que resistiu dentro de nós: as dúvidas, as descobertas, e aquele bocadinho de conhecimento que o caos não conseguiu engolir.

(Pausa. Sai.)

Fonte: Freepik

Artigo revisto por: Mariana Céu

AUTORIA

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Atualmente, colaborador da agência de comunicação e publicidade “VML”, na account da Microsoft, e responsável pelas pastas de «Apoios e Parcerias» e «Voluntariado» de uma entidade do terceiro setor - LABIT&E -, o Tiago frequenta o primeiro ano da licenciatura de Relações Públicas e Comunicação Empresarial. Formado em Artes do Espetáculo - Interpretação, pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, iniciou a sua atividade profissional, fundando e presidindo uma associação sem fins lucrativos - Associação Sócio-Cultural e Artística Sem Tábuas -, uma entidade que utilizava a cultura e arte como ferramentas de desenvolvimento em contextos de bairros sociais, hospitais e escolas. Após 8 anos desta experiência, resolveu integrar uma empresa de Recursos Humanos e, desta, voou para a Lisbon Cruise Port, a entidade que gere os terminais de cruzeiros de passageiros de Lisboa, onde coordenou a sua Comunicação.
Resolveu, depois de alguns anos no mercado laboral, ingressar na universidade para poder consolidar aprendizagens e experimentar: formas de fazer e aprender.