Opinião

A estética perigosa do esgotamento: quando o burnout se torna troféu 

Há uma imagem silenciosa que se tornou símbolo de sucesso contemporâneo: a pessoa exausta. Olhos cansados, agenda cheia, notificações constantes e a frase repetida quase como um lema: “tenho estado sem tempo para nada”. O que antes seria um sinal de alerta transformou-se, lentamente, num sinal de prestígio. Estar ocupado passou a significar ser importante. Estar esgotado passou a significar ser dedicado. 

Vivemos numa cultura que glorifica a produtividade contínua e romantiza o limite humano. O cansaço deixou de ser interpretado como necessidade de pausa e passou a ser exibido como prova de esforço. Não descansar tornou-se motivo de orgulho; dormir pouco é uma prova de ambição. Criou-se uma estética do burnout, uma narrativa em que a exaustão é apresentada não como problema, mas como medalha. O filósofo Byung‑Chul Han descreve a sociedade atual como uma era em que o indivíduo já não precisa de um opressor externo, porque se auto-explora voluntariamente. A pressão não vem apenas de chefes, prazos ou instituições. Vem de dentro. É a voz interior que repete que ainda não é suficiente, que ainda se pode fazer mais, que parar é falhar. Essa lógica cria um ciclo perigoso: quanto mais alguém se esforça até ao limite, mais sente que deve continuar.

Fonte: Pinterest

As redes sociais amplificam esse fenómeno. Fotografias de rotinas intensas, vídeos de “um dia produtivo”, listas intermináveis de metas e conquistas – tudo contribui para a construção de uma narrativa coletiva em que o valor pessoal parece depender exclusivamente do rendimento. Pouco se mostra o custo invisível: ansiedade, insónia, fadiga crónica, perda de motivação, isolamento emocional. O que não se publica não existe, e o sofrimento raramente é fotogénico. 

Romantizar o burnout é perigoso precisamente porque mascara a sua gravidade. O esgotamento não é sinal de força; é sinal de que algo falhou no equilíbrio entre exigência e limite. Quando a exaustão é celebrada, perde-se a capacidade de a reconhecer como problema. E aquilo que não é reconhecido dificilmente é tratado. Existe também uma dimensão social nesta romantização. Num mundo competitivo, admitir cansaço pode ser interpretado como fraqueza. Assim, muitos preferem mostrar que têm energia constante, mesmo quando o corpo pede pausa. Cria-se uma cultura de resistência artificial onde todos fingem aguentar e, por isso, ninguém se sente autorizado a parar.

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O paradoxo é evidente: nunca se falou tanto de saúde mental, e nunca se normalizou tanto o esgotamento. A linguagem do autocuidado tornou-se popular, mas frequentemente é usada como acessório, não como prática real. Fala-se de descanso enquanto se glorifica a sobrecarga. Defende-se equilíbrio enquanto se idolatra a hiperprodutividade. 

Talvez o primeiro passo para quebrar esse ciclo seja mudar a narrativa. Não é revolucionário trabalhar até cair; revolucionário é saber parar antes disso. Não é admirável ignorar limites; admirável é reconhecê-los. Num tempo que celebra o excesso, escolher a moderação pode ser o gesto mais radical. 

O burnout não é um estilo de vida. É um sinal de socorro. 

E sinais de socorro não se romantizam, escutam-se.

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Artigo corrigido por: Eva Guedes

AUTORIA

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Matilde é estudante do 3.º ano de Jornalismo e orgulhosamente Setubalense. Desde pequena, sempre adorou escrever e dar asas à criatividade (às vezes até demais, especialmente quando tinha de cumprir com um limite de palavras!). Apaixonada por viajar, tirar fotografias e ir às compras, já passou por quase todos os continentes. Criativa, dedicada e ambiciosa, dá sempre o seu melhor em tudo o que faz.