A luta pela liberdade religiosa
Portugal é um país com uma matriz religiosa pouco fragmentada. A liberdade de culto está constitucionalmente protegida, o que não acontece em todo o mundo. De acordo com os Censos 2021, somente 5,7% da população portuguesa pratica uma religião que não a católica. Nestes 5,7% estão representadas várias religiões protegidas pela Lei.
A religião tem o potencial para interligar comunidades e atuar como um símbolo de esperança, propósito e harmonia, mas representa, simultaneamente, um motivo de cisão e conflito em várias regiões do globo. O extremismo e o radicalismo religioso têm levado ao confronto armado e ao terrorismo nos mais diversos focos de tensão globais, espalhando caos, morte e destruição.
Segundo o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo 2025 da Fundação AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), dois terços da população mundial (5,4 mil milhões de pessoas) “estão expostos à discriminação ou perseguição”. Em 62 países identificados pela AIS, professar uma fé pode levar a “agressão, rapto, prisão e até morte”.
O terrorismo é uma força ameaçadora e multifacetada. Entre os grupos terroristas que professam a religião islâmica, por exemplo, existem diversas ramificações que originam grupos armados e perigosos, como o Hezbollah, o Hamas, os Houthis e a Al-Qaeda. Estas milícias violentam a democracia e atentam contra grupos, países e religiões “rivais”, causando mortos e deslocados. Os movimentos terroristas apresentam um poder cada vez mais evidente e são muitas vezes patrocinados por nações com interesses próprios, atuando como ferramentas de um Estado contra outro.
Os cristãos são “a comunidade religiosa mais perseguida do mundo”.
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A Nigéria constitui um caso paradigmático. O país encontra-se dividido entre o norte, predominantemente muçulmano, e o sul, maioritariamente cristão. A violência atinge o seu expoente máximo no estado de Plateau, onde os constantes ataques a aldeias se traduziram num foco de tensão. As disputas sobre terras são ainda uma agravante da já sangrenta disputa entre pastores muçulmanos Fulani e agricultores cristãos.
O relatório da AIS conclui ainda que na zona do Cabo Delgado, em Moçambique, a violência religiosa já causou mais de 5000 mortos e mais de um milhão de deslocados. Nesta região, as comunidades cristãs têm sofrido às mãos dos jihadistas, militantes filiados no autoproclamado Estado Islâmico, que continuam “a queimar igrejas e a matar civis”. Todavia foi em Moçambique, em 2022, que se assinou entre líderes cristãos e mussulmanos a Declaração Inter-religiosa de Pemba, focada em prevenir a instrumentalização da religião para fins militares e na promoção da paz, do diálogo, do consenso, da compreensão e do respeito. O nível da violência em Moçambique tem despertado a atenção do mundo religioso e não só. A comunidade cristã, bem como algumas Organizações Não Governamentais (ONG), trabalham para amenizar os estragos físicos e psicológicos da perseguição, prestando assistência às vítimas e contribuindo para um apaziguamento dos conflitos.
Apesar dos esforços das ONG`s, a comunidade cristã ainda sofre diariamente, sendo alvo de atrocidades constantes e atentados à dignidade e à vida dos fiéis.
Na Coreia do Norte, “provavelmente o pior país do mundo para a liberdade religiosa”, segundo a AIS, “pensa-se que 25% dos cristãos estejam em campos de detenção”.
Nas Maldivas, por lei, somente os muçulmanos podem ter cidadania no país. A importação de Bíblias, bem como qualquer evangelização não muçulmana, é proibida; na Mauritânia a renúncia ao islão é punida com pena de morte.
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A dura realidade que atormenta a igreja católica terá levado o Arcebispo Richard Gallagher a criticar a cegueira e inação da comunidade internacional no discurso que proferiu na 80ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em outubro de 2025. “Para prevenir conflitos e violência, a paz deve estar profundamente enraizada no coração de cada indivíduo, para que possa espalhar-se pelas famílias e pelas várias associações da sociedade, até envolver toda a comunidade política”, declarou o arcebispo.
Pouco depois do discurso de Richard Gallagher, em novembro de 2025, ocorreu a Red Week (Semana Vermelha), uma campanha organizada pela AIS a nível mundial para sensibilizar a população para o sofrimento dos cristãos perseguidos, detidos, agredidos e prejudicados por causa da sua fé. Durante essa semana, mais de 600 igrejas e monumentos foram iluminados de vermelho para simbolizar o sangue dos mártires cristãos.
Entre 17 e 18 de setembro de 2025 teve lugar em Astana, no Cazaquistão, o VIII Congresso de Líderes das Religiões Mundiais e Tradicionais, uma oportunidade para o diálogo inter-religioso e para a discussão sobre os problemas e os desafios que as comunidades religiosas enfrentam. Este Congresso reuniu mais de 100 delegações de 60 países e ficou marcada pela mensagem do Papa Leão XIV:
“O futuro que perspectivamos – um futuro de paz, fraternidade e solidariedade – exige o compromisso de todas as mãos e de todos os corações.”
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Artigo revisto por Madalena Carrola
AUTORIA
O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.



