Opinião

A masculinidade dos novos tempo: o que é ser homem?

O homem perigoso não é o homem masculino. O homem perigoso é aquele que acha que é normal sucumbir a todas as suas emoções, o homem efeminado

                                                                                                      – João Barbosa (“Numeiro”)

Como pôde a ideia de masculinidade evoluir neste sentido? 

Parece um efeito secundário sui generis da luta pela igualdade de género. Aparentemente, os movimentos sufragistas pela libertação da mulher, a luta pela emancipação e por direitos e oportunidades iguais criou homens revoltados, ressabiados e hostis para com o sexo feminino.

Incapazes de aprender com a revolução feminina e de compreender as suas justas reivindicações, estes jovens parecem sentir-se ameaçados.

Na internet, o surgimento de novos “gurus da masculinidade”, que apregoam a submissão do sexo feminino, é preocupante. Em primeiro lugar, porque a sua mensagem misógina e machista é nociva para sociedade e insultuosa para todas as mulheres, bem como para todos os homens que não se revejam nesta visão deturpada e perniciosa do mundo. E, em segundo lugar, porque os porta-vozes deste apelo à masculinidade tóxica e ao retorno a uma imagem retrógrada do homem encontram, nas redes sociais, palco, megafone e holofotes para disseminar estas ideias às quais as camadas mais jovens são especialmente permeáveis.

Não se trata apenas de Numeiro. Influenciados sobretudo por Andrew Tate, influencer acusado de tráfico humano, exploração sexual de mulheres, incluindo menores, e abusos físicos e verbais, são vários os jovens portugueses que enchem a internet de anti-feminismo, entre os quais, Tiago Paiva, Afonso Freitas e Fábio Teles.

A equação é simples: carros desportivos, obsessão com o corpo perfeito e ostentação de um estilo de vida luxuoso. Estes são alguns dos iscos que permitem a estes influenciadores agarrar grandes audiências, sobretudo rapazes, para os convencer de que a mulher é o inimigo.

Parte da mentalidade destes mestres da masculinidade consiste numa subversão do cavalheirismo. Defendem que o homem deve pagar a conta no final da refeição e proteger a sua companheira – não como uma demonstração de generosidade e carinho, mas como uma manifestação da sua posse da mulher e do seu poder sobre ela. Estes cabeças de cartaz para uma nova leva de machismo vão ainda mais longe, dizendo que a mulher não devia votar, conduzir com o seu parceiro no lugar do pendura ou sair à noite sozinha. 

Não deixa de ser engraçado que muitos dos defensores desta mudança de paradigma se declarem fervorosamente cristãos, enquanto apelam à adesão a um sistema praticado por extremistas islâmicos.

Fonte: Unsplash

A ascensão do discurso de ódio às mulheres no mundo digital pode significar uma materialização massificada desse ódio muito em breve (um terço das mulheres na União Europeia já foi vítima de violência). Convém lembrar que os jovens são cada vez mais e cada vez mais cedo hiper-expostos ao que acontece online e que o que veem e ouvem no telemóvel pode moldar a sua personalidade. Se não queremos uma geração que desfaça todas as conquistas até aqui alcançadas no campo da igualdade de género, temos de estar atentos ao discurso danoso dos “machos alfa” das redes sociais. Está ao nosso alcance evitar a “batalha dos sexos”.

Parte significativa do discurso de ódio dirigido ao sexo feminino tem origem numa comunidade online denominada Incel (celibatários involuntários), constituída por homens incapazes de encontrar uma parceira romântica ou sexual. Nela, expressam as suas frustrações no amor através do ódio, incitando a violência e a discriminação. Este é só um exemplo do perigo real que enfrentamos.

Fonte: Unsplash

Do outro lado da moeda, e provavelmente também na origem da revolta dos machos digitais, é verdade que há cada vez mais liberdade para o homem ser, comportar-se, falar e vestir-se como bem lhe apetecer. Muito graças aos esforços da comunidade LGBT, rompeu-se com estigmas e preconceitos e não só os membros da comunidade podem viver mais tranquilos. Todos os homens têm mais liberdade para demonstrar afeto, conversar sobre emoções ou revelar sentimentos, preocuparem-se com o seu estilo e com a sua imagem. Isso, para mim, é uma vitória. O “homem perigoso” a que Numeiro se refere, isto é, o “homem efeminado”, é uma conquista social que em nada prejudica os outros homens.

Fica a questão: o que é ser homem?

Ninguém é só um homem. Somos filhos, sobrinhos, netos, irmãos… pais. Para sabermos o que é ser homem temos de pensar no tipo de homem que queremos ser e no tipo de masculinidade que queremos ver refletida nos nossos filhos. No meu entender, para responder à pergunta temos de imaginar que ela nos é feita pela nossa filha. Eu ainda não sei tudo sobre ser homem, mas sei que tipo de Homem quero ser por ela.

Fonte: Pexels

Artigo revisto por: André Nunes

AUTORIA

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O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.