Ciência

A que sabe a Sinestesia?

Os números para ti têm cores? Quando as pessoas falam, vês legendas? Associas um sabor específico a cada pessoa? Então, talvez tenhas sinestesia.

A sinestesia é uma condição neurológica, que estima-se afetar entre 2 a 4% da população mundial, na qual os estímulos sensoriais se interligam no cérebro de forma distinta à das pessoas neurotípicas. Os estímulos sensoriais são as informações do ambiente que nos rodeia, como luzes, sons, texturas, cheiros e sabores, que são captados pelos cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar, olfato), de forma a permitir que o nosso cérebro interprete o mundo.

As informações recebidas pelo indivíduo, em vez de serem processadas apenas por um sentido, acabam por ativar outro sentido não relacionado, associando, por exemplo, uma cor a um som. Uma pessoa não sinestésica, quando ouve um som, utiliza apenas o sentido da audição para processar a informação, já uma pessoa com sinestesia recorre a outro sentido de forma simultânea, como a visão, e associa uma cor, involuntariamente, àquele som. 

Fonte: Pinterest

Os primeiros testemunhos desta condição remontam ao século XIX, sendo atribuídos a Georg Tobias Ludwig Sachs, que associava cores a letras, números, tons de escala musical e dias da semana. Hoje em dia, já se confirmou que existirem mais de 80 tipos de sinestesia, sendo os mais comuns: 

  • Grafema-cor: ver letras e números com cores
Fonte: Blog – Bug Catcher in Viridian Forest 
Fonte: Sophia Maxim | The Southerner 
  • Cromestia: sons, músicas e ruídos que provocam cores ou formas
Fonte: Wikipedia
  • Personificação de símbolos: são atribuídos aos números, letras e dias da semana personalidades próprias 

Um sinesteta pode ter apenas um tipo de sinestesia ou agrupar vários tipos, sendo o segundo caso mais comum.

Ainda não existe um consenso sobre as causas da sinestesia. Algumas teorias sugerem que ela pode resultar de uma maior conexão entre as regiões sensoriais do cérebro (que processam os diferentes estímulos).

Outra hipótese é que esta sobreposição sensorial ocorra devido à existência de outros neurónios, células do sistema nervoso responsáveis pela transmissão do impulso nervoso, que não existem em pessoas que não tenham esta condição, permitindo conectar os sentidos afetados.

Fonte: Romke Rouw | ResearchGate 

O caráter subjetivo da experiência sinestésica dificultou a aceitação e os estudos sobre esta condição pela comunidade científica e aumentou a sua correlação com a imaginação e a criatividade. Por isso, só em 1980 é que se iniciaram testes para verificar a veracidade desta condição, separando assim o estigma previamente existente de que estaria apenas ligada às artes. Apesar disso, esta ideia ainda permanece, principalmente devido ao número de artistas famosos com este diagnóstico, nomeadamente: 

  • Billie Eilish: a cantora e compositora americana, conhecida pelas canções “bad guy”, “Happier than ever” e “Wildflower”, possui vários tipos de sinestesia e utiliza-os para guiar o seu processo criativo, sendo que todas as suas canções e álbuns têm uma cor específica e sensações associadas à condição.
Fonte: cinamonslut | reddit  
  • Wassily Kandinsky: supõe-se que o pintor vanguardista do abstracionismo tinha cromestia (associação de sons a cores). O artista aplicava essa perceção nas suas obras, tentando transmitir essas melodias a quem observava a sua arte.

A cor é o teclado, os olhos são os martelos e a alma é o piano de muitas cordas. O artista é a mão que toca, pressionando uma tecla na outra, para provocar vibrações na alma.

Wassily Kandinsky, num possível testemunho da sua condição.
Fonte: Wikipedia
  • Marilyn Monroe: a atriz, modelo, comediante e cantora norte-americana, tornou-se uma figura icónica pela  personificação do símbolo sexual de Hollywood e representou ainda uma frente ativa da revolução sexual na indústria cinematográfica nas décadas de 1950 e 1960. O seu primeiro marido, numa conversa, relembrou uma memória que prova a presença da condição na artista. É descrito que, em muitas noites, Marilyn Monroe comia apenas ervilhas e cenouras porque gostava das cores dos sabores, um possível sinal de sinestesia gustativa visual, onde os indivíduos relacionam cores a sabores.
Fonte: marilynmonroe | reddit

Mas será que realmente isto está relacionado com a criatividade e as áreas artísticas? 

O artigo “Synesthesia in the arts: relations between science, art and technology”, de Loren P. Bergantini, revela que indivíduos sinestetas tendem a encontrar a sua ocupação em campos artísticos e, mesmo nas exceções, estas pessoas despendem mais tempo a consumir e a produzir arte do que outros indivíduos. Este artigo evidencia ainda que esta condição é favorável ao pensamento criativo, existindo uma maior facilidade em desenvolver ideias pela capacidade de associação divergente e maior habilidade de conectar ideias, conceitos ou informações que parecem não se assemelhar.

Mas, se a sinestesia é algo tão raro, porque a utilizamos tantas vezes como um conceito?

Certamente, ao estudar português, já te cruzaste com o recurso estilístico “sinestesia”, utilizado para conferir uma maior expressividade a um texto. Este recurso linguístico é caracterizado pelo cruzamento de sensações sensoriais – visão, paladar, olfato, tato e audição – de forma a enriquecer sensorialmente o conteúdo.

Isso significa que todos nós já experienciamos sinestesia? 

Sim, de certa forma. Apesar de ser uma condição neurológica rara, não impede que pessoas não sinestésicas utilizem associações sensoriais. A diferença está no facto de, nestes casos, a experiência não ser involuntária nem permanente. Por exemplo, alguém com ticker tape synesthesia (sinestesia das legendas), vê palavras escritas quando outra pessoa fala. Essa experiência não é escolhida, pois as legendas surgem automaticamente. Já uma pessoa neurotípica pode optar por imaginar palavras escritas enquanto ouve alguém falar, como num exercício mental, mas essa representação é voluntária.

Representação de um indivíduo com Ticker tape synesthesia
Fonte: Rosanick / Wikimedia Commons

Se quiseres saber mais sobre este tema, existem vários espaços onde é possível fazê-lo, tais como: o site The synesthesia Tree”, onde estão listados os tipos de sinestesia até agora existentes, as suas características e testemunhos; o sub-reddit synesthesia”, onde é possível colocar dúvidas ou fazer posts sobre a condição e o podcast “Let’s talk synesthesia”, da psicóloga e sinesteta Maike Pressing.

Fonte da capa: Getty images
Artigo revisto por Constança Paixão

AUTORIA

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A Madalena é uma observadora nata e aluna do curso de Audiovisual e Multimédia da ESCS. Se a virem provavelmente estará a olhar para o teto ou a colocar questões sobre tudo e mais alguma coisa. Se ela fosse uma expressão seria “Queres que te faça um desenho?” Porque ela decididamente não entendeu o que lhe acabaram de dizer, e um desenho é tudo o que precisa (ela veio de artes coitada). É na editoria de ciências que algumas das suas mil questões irão ser respondidas com o objetivo de cativar os leitores escsianos.