Ciência

As falhas da memória humana: porque é que o cérebro distorce o passado?

Recordar o passado da forma mais detalhada, como o primeiro dia de aulas, um aniversário de infância ou uma viagem de verão que marcou a tua vida, nem sempre é fácil. Talvez seja mais fácil visualizar cores, sentir “o ambiente” ou recordar algumas fotografias ou frases ditas naquela altura.

Temos tendência para confiar nestas imagens mentais que criamos automaticamente e que parecem realmente reais e fieis ao que aconteceu. No entanto, a neurociência demonstra que a memória humana não é, de todo, um registo exato do passado, mas sim uma recordação imperfeita, com falhas.

Quando dizemos “lembro-me perfeitamente”, assumimos que aquilo que estamos a recordar corresponde efetivamente à realidade. Contudo, a investigação científica tanto na psicologia como na neurociência mostra que esta confiança na memória é muitas vezes enganadora. A memória é fiável e extremamente influenciável por uma diversidade de fatores: externos, biológicos, emocionais e sociais. No dia a dia, é comum as pessoas recordarem o mesmo acontecimento de maneiras distintas, com total convicção de que aquilo que estão a recordar é realmente verdade. Estas diferenças levantam a questão central: porque é que a memória não corresponde, muitas vezes, à realidade exata?
A psicologia mostra que a nossa relação com o passado assenta numa ideia errada, isto é, a memória não funciona como uma “câmera que regista os momentos e que os guarda intactos”. O cérebro prefere narrativas coerentes, que façam sentido, mesmo que isso implique, involuntariamente, a distorção da realidade.

Do ponto de vista da ciência, a memória é um processo biológico dinâmico. Este processo envolve etapas fundamentais tais como: a codificação, o armazenamento e a recuperação da informação.
Na codificação, o cérebro transforma estímulos sensoriais em sinais neurais através da atividade neural, onde a atenção filtra os estímulos. No armazenamento, a informação é consolidada da memória a curto prazo para a de longo prazo, especialmente no sono. Já na recuperação, a fase mais frágil, estes códigos são trazidos de volta à consciência, sendo esse o momento onde a probabilidade de ocorrer erros é maior.

A ciência distingue vários tipos de memória, mas os dois mais relevantes são a memória episódica e a memória semântica. A memória episódica está associada a experiências a nível pessoal, como acontecimentos da infância ou momentos marcantes. Já a memória semântica refere-se ao conhecimento geral, como conceitos, factos e significados. Alguns estudos, tais como os Estudos da American Psychological Association, demonstram que a memória episódica é particularmente mais vulnerável a falhas, enquanto a memória semântica tende a manter-se estável ao longo do tempo.

Um dos maiores contributos da neurociência foi demonstrar que a memória é construtiva e não reprodutiva. O cérebro não guarda experiências totalmente completas, mas apenas fragmentos considerados relevantes, como as emoções, as imagens ou as ideias gerais. Quando recordamos um acontecimento, o cérebro reúne essas “peças” e tenta, assim, reconstruir o episódio. Se existirem lacunas, acaba por recorrer à imaginação e ao conhecimento prévio para as preencher. Como é referido num artigo da Nature Reviews Neuroscience (maio de 2016), o resultado é uma combinação de elementos reais com reconstruções, que sentimos como verdadeiras.

Este processo depende da interação entre várias áreas do cérebro. O hipocampo é essencial para a formação de novas memórias e para a organização da informação. O córtex pré-frontal ajuda a contextualizar as recordações no tempo e no espaço. A amígdala associa as emoções às memórias e aos factos, tornando certos acontecimentos mais marcantes. Quanto mais intensa for a emoção, mais forte tende a ser a recordação, embora isso não signifique que seja mais precisa.

Fonte: THE UNIVERSITY OF QUEENSLAND – “Where are memories stored in the brain?”

Existem falhas que ocorrem em milissegundos, como o fenómeno do “déjà vu”, que ilustra de forma clara que a memória pode sim falhar. A sensação de que um momento presente já foi vivido não é um pressentimento, mas sim um erro de processamento cerebral. Segundo a BBC Science Focus e a Clínica Cleveland, uma das explicações para este fenómeno sugere que ocorre um pequeno atraso na transmissão da informação sensorial, levando o cérebro a interpretar uma experiência nova como familiar, criando a ilusão de memória sem que exista uma recordação real associada.

Fonte: Francescoch | Getty Images

Durante muito tempo acreditou-se que as memórias, uma vez armazenadas, permaneciam estáveis, sem qualquer tipo de mudança. Contudo, estudos demonstram que, ao recordarmos uma memória, ela entra durante algum tempo num estado de instabilidade, conhecido como reconsolidação. Neste processo, novas informações, sugestões ou estados emocionais diferentes podem ser incorporados na memória original antes de ser novamente guardada. Assim, quanto mais vezes contamos uma história mais ela se afasta do que realmente aconteceu. Este fenómeno explica a facilidade com que se criam estas falsas memórias, onde as pessoas passam a acreditar em eventos que nunca aconteceram, que são simplesmente uma ilusão.

“[…] Memory works a little bit more like a Wikipédia page: You can go in there and change it, but so can other people.”

Elizabeth Loftus, psicóloga cognitiva especializada na memória humana.

As falsas memórias são uns dos fenómenos mais impressionantes estudados pela psicologia. A investigadora Elizabeth Loftus mostrou que é possível levar uma pessoa a acreditar que viveu acontecimentos que nunca ocorreram apenas através de sugestões subtis, e que o cérebro cria detalhes sensoriais para sustentar essas falsas recordações, que acabam por passar a ser vividas como verdadeiras.

A ciência, uma vez mais, mostra que embora as chamadas memórias fotográficas (flashbulb memories) sejam vividas com grande nitidez, os seus detalhes alteram-se significativamente ao longo do tempo. A emoção aumenta a convicção de que algo é real, mas não garante efetivamente a precisão do acontecimento.

À primeira vista, a precisão da memória pode parecer um defeito biológico. No entanto, trata-se de uma vantagem evolutiva. Se o cérebro registasse todos os detalhes insignificantes do dia a dia, ficaríamos sobrecarregados com muita informação, com conteúdo que não é relevante recordar e que não merece “ocupar espaço” no nosso cérebro. O nosso passado pode não ser totalmente fiel à realidade, mas é uma reconstrução que o nosso cérebro “seleciona”, tendo em conta todos os fatores, para recordarmos.

Fonte da capa: Shutterstock
Artigo revisto por Eva Guedes

AUTORIA

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A Marta é estudante do 1.º ano da licenciatura em Publicidade e Marketing e tem 17 anos. Sempre gostou de comunicar com as pessoas das mais variadas formas. É curiosa e de mente aberta a novas experiências e, acima de tudo, gosta de fazer a diferença! Apaixonada por desporto, musicais e história, valoriza tudo o que lhe permita ganhar novas perspetivas sobre a vida. A Magazine da ESCS surgiu como a oportunidade perfeita para explorar novas ideias, enfrentar desafios e deixar a sua marca.