“Close”, um poema filmado
Há filmes que não se esquecem. Não porque nos oferecem grandes reviravoltas ou efeitos arrebatadores, mas porque se instalam silenciosamente dentro de nós, onde as palavras falham e só resta sentir. Close, de Lukas Dhont, é um desses raros filmes. É uma obra que fala com a alma, que observa com uma ternura dolorosa aquilo que tantas vezes preferimos não ver: a fragilidade da amizade, o peso do olhar dos outros, a passagem violenta e inevitável entre a infância e a adolescência.
Desde o início, somos convidados a entrar no universo puro e luminoso da amizade entre Léo e Rémi. Correm pelos campos, dormem lado a lado, riem sem medo, partilham silêncios e cumplicidades que não pedem explicações. A câmara de Dhont acompanha-os de perto, quase como se respirasse com eles, captando o sopro inocente dessa ligação que parece invulnerável. Mas o que o filme revela – e é essa a sua brutalidade silenciosa – é que o mundo não aceita facilmente o que é puro. A infância, com a sua liberdade, é curta; o olhar social, que tudo define e julga, não perdoa o que escapa às suas normas.
A beleza de Close reside precisamente nesse contraste: entre a delicadeza e o peso, entre o amor e a perda, entre o dizer e o calar. O filme não precisa de grandes gestos para nos ferir. Basta um olhar desviado, uma pergunta insinuada, uma distância que se instala sem aviso. O que era natural torna-se suspeito. O que era amor transforma-se em dúvida. E é nesse abismo – entre o que somos e o que esperam que sejamos – que o filme nos mergulha.
A adolescência é um território de descoberta, mas também de medo. É o momento em que se aprende, muitas vezes com dor, que há limites impostos pelos outros, limites de comportamento, de expressão, de afeto. Confrontado com esse peso, Léo tenta adaptar-se e afasta-se de Rémi, como quem se tenta salvar de um julgamento que não compreende. Mas, ao fazê-lo, rompe algo dentro de si. E é nesse gesto, tão humano, tão cruel, tão real, que o filme atinge a sua força máxima. Porque todos, de alguma forma, já fomos Léo: já tememos ser vistos de uma maneira que não controlamos, já sacrificámos algo verdadeiro para caber num molde alheio.
Fonte: IMDB
Dhont filma essa dor com uma sensibilidade quase poética. Cada imagem é uma ferida aberta e, ao mesmo tempo, uma carícia. A luz, os silêncios, o modo como o campo de flores se repete como metáfora da memória e da culpa, tudo é pensado com uma precisão emocional que desarma. Não há moralismos, nem discursos didáticos. Há apenas humanidade: a beleza e o sofrimento entrelaçados. O realizador convida-nos a olhar para o que é invisível, para o que está por baixo dos gestos e das palavras. O verdadeiro drama não está no que acontece, mas no que se sente e não se diz.
Close é um retrato devastador da amizade e das feridas do crescimento, mas é também um filme sobre empatia e sobre a necessidade urgente de compreendermos os outros antes de os julgarmos, de escutarmos antes de falarmos. É um apelo à ternura num mundo que parece esquecer-se de que a ternura é uma forma de coragem. Léo e Rémi representam duas metades de um mesmo coração, e a distância entre eles é o espaço onde a inocência se perde e nasce o arrependimento.
Assistir a Close é, de certo modo, voltar a ser adolescente, sentir novamente aquele nó na garganta, aquela vontade de ser aceite, aquele medo de ser diferente. Mas é também perceber, já com os olhos de adulto, o quanto ter sido sensível era uma forma de força e não de fraqueza. O filme faz-nos chorar não apenas pela tragédia que contém, mas porque reconhecemos nela a nossa própria história, a nossa própria luta silenciosa entre ser quem somos e ser o que esperam de nós.
Fonte: IMDb
Há quem diga que Close é um filme sobre amizade. Eu diria que é, acima de tudo, um filme sobre amor em todas as suas formas: o amor entre amigos, o amor pela infância perdida, o amor que fica mesmo quando tudo se desfaz. É lindo, sim. É forte. É pesado. E é profundamente humano. Um daqueles filmes que não termina com os créditos, mas que continua dentro de nós, como uma melodia triste e bela que se recusa a desaparecer.Porque, no fim, Close fala do que é ser próximo e do que acontece quando deixamos de o ser. E lembra-nos, com uma doçura amarga, de que a maior coragem está em permanecer sensível num mundo que insiste em endurecer-nos.
Fonte da capa: Youtube
Artigo corrigido por: Eva Guedes
AUTORIA
Com 18 anos e vinda do Alentejo, a Marta está no segundo ano da licenciatura em Jornalismo na ESCS. Sempre de olhar curioso e mente inquieta, encontrou na ESCS Magazine um espaço onde pode explorar e partilhar o que mais a inspira. Começou como redatora nas secções de Cinema e Televisão e Música, e foi aí que descobriu o prazer de escrever sobre o que se vê e se ouve — e tudo o que isso pode provocar. Agora, como Editora de Artes Visuais e Performativas, continua a desafiar-se, procurando novas formas de olhar e comunicar o mundo artístico. Escrever é mais do que informar — é traduzir emoções.



