Como o envolvimento da IA afeta a nossa relação com os nossos projetos.
Eu poderia começar por apresentar o que é a Inteligência Artificial, de onde veio, e o que faz, mas penso que já temos um conhecimento sólido sobre aquilo de que se trata, ao ponto de ser o melhor amigo no nosso dia a dia (há quem até lhes dê nomes). Inteligência Artificial passou de ser algo visto como fictício para uma fonte de informação simples e rápida, servindo até como uma extensão da nossa capacidade de refletir e pensar.
Neste artigo pretendo abordar o tema da Inteligência Artificial a partir de um ponto de vista mais sentimental e humano. Não se trata, de todo, de uma abordagem moral ou ética, portanto o que se segue é apenas uma partilha de sensações e impressões com as quais os leitores podem acabar por se identificar.
Ao pesquisar na internet, encontramos inúmeros artigos/textos que noticiam os experimentos/estudos feitos em relação à IA e à conclusão a que se chegou. Partindo do exemplo da revista do Expresso, “o uso de IA generativa pode afetar o pensamento crítico, deteriorar faculdades cognitivas e levar à dependência”; declara-se que ao mesmo tempo que as ferramentas de IA podem “melhorar a eficiência, também podem reduzir o envolvimento crítico”. É dito ainda que este fenómeno “levanta preocupações sobre dependência a longo prazo” no sentido em que as pessoas, com o passar do tempo, perdem a capacidade de resolver questões de forma independente.

Fonte: Expresso
Estas questões são de enorme importância mas não são o foco deste artigo. O foco deste artigo é refletir sobre como a ferramenta de Inteligência Artificial ofusca a nossa essência nos trabalhos que realizamos.
Os alunos universitários dão muita utilização a esta ferramenta por oferecer justamente aquilo de que precisamos: rapidez e simplicidade. Minutos antes do teste, é muito mais prático tirar uma dúvida com o Chat GPT do que procurar num dos 200 slides que o professor disponibilizou. De igual modo, mesmo durante o estudo, na dúvida por onde começar ou quando queremos esclarecer um conceito/teoria optamos por esclarecer estas dúvidas com o Chat GPT ou com qualquer outra plataforma de IA que está ao nosso alcance. Desde estas situações mais “inocentes”, a utilização desta ferramenta escala para um nível já mais preocupante que induz ao levantamento de debates sobre ética e moralidade. Num artigo publicado pela ludomedia, Sara Cristina Mateus e Yakamury Lira sublinham que “quando as palavras-chave exigem interpretações contextuais mais sofisticadas, o seu desempenho torna-se progressivamente mais instável e sujeito a erros de categorização — mesmo após sucessivos ajustamentos nas prompts e critérios aplicados”.

Fonte: Forbes
Então a pergunta que eu deixo é: até que ponto vale a pena involuir a nossa criatividade e deixar um conjunto de códigos que aprende com base no que já foi criado evoluir por nós?
No ambiente académico, podemos refletir sobre como a Inteligência Artificial diminui a necessidade de os alunos se esforçarem para criar algo, o que enfraquece a relação entre os alunos e as suas criações: vídeos, apresentações, textos e etc… Quando acabamos a realização do nosso trabalho que foi feito 50% por nós e 50% pelo Chat, a sensação que passa é a de que falta a essência humana porque, apesar do perfeccionismo da IA, aquilo que que unifica cada criação é a essência que a mesma carrega.

Fonte: edutopia
A conexão com a nossa criação é algo que é valorizado tanto pelos outros, tanto por nós mesmos. Aquela aproximação e a sensação de que demos vida a algo completamente novo e único é inigualável, e as ferramentas de IA nem no seu palpite mais próximo conseguem transmitir esta sensação. É sobre criar afinidade e relações próximas com as nossas criações sem a impressão de que tem “marcas de sangue” ou algo que sabemos que não devia lá estar (ou pelo menos seria melhor se não se estivesse).
Sendo assim, o uso da Inteligência Artificial como companheiro/suporte durante o processo de uma criação nossa põe em questão a nossa relação como alunos e as nossas criações, o que nos faz sentir mais afastados da nossa própria criação. Com isto é de se pensar até que ponto vale a pena permitir o envolvimento das ferramentas de IA nos nossos trabalhos.
Imagem de destaque: MIT Technology Review
Artigo revisto por: Diogo Bértola
AUTORIA
Márcia tem 17 anos, estudante do 1º ano de Comunicação Empresarial e Relações Públicas e é uma faz tudo. Apaixonada por desporto, literatura, dança, música e atuação. Esta vive de experiências aleatórias. Introspecção é o seu segundo nome, mas não deixa nunca de olhar e interagir com os outros. ESCS Magazine acabou por ir de encontro com uma das suas paixões - escrever e dar visibilidade ao ambiente escolar.

