Ciência

De onde vem a nossa roupa? A ciência têxtil e o impacto dos microplásticos

Todas as manhãs vestimos uma camisola ou um par de calças sem pensar muito de onde vêm. Mas, por trás de cada peça de roupa, existe um processo científico e industrial bastante complexo.

Os materiais têxteis são essenciais no dia-a-dia do ser humano. Um simples casaco, um cachecol ou umas meias parecem objetos simples sem grande complexidade, mas na realidade são o resultado de transformações científicas e industriais altamente sofisticadas antes de chegarem às lojas. 

A ciência têxtil é o ramo da engenharia que estuda o conhecimento de matérias-primas e os processos de transformação que são utilizados na produção de têxteis. Ao analisar as fibras, os tecidos e o seu ciclo de vida, esta área da ciência encontra-se, neste momento, no centro de um debate ambiental urgente: a poluição por via dos microplásticos.

A humanidade depende, desde sempre, de fibras naturais, como a lã, o algodão e o linho. Mas, nos últimos tempos, a indústria da moda tornou-se cada vez mais dependente das fibras sintéticas. Materiais como o poliéster, o nylon ou o acrílico são hoje os mais predominantes na produção têxtil a nível mundial.
Estes tecidos, derivados de polímeros do petróleo, são transformados em filamentos extremamente finos que depois são tecidos ou tricotados. 

A vantagem destas matérias é a durabilidade e o baixo custo de produção. No entanto, essa durabilidade está também na origem do problema ambiental.
As fibras sintéticas sofrem desgaste e libertam partículas de plástico, mais conhecidas por microfibras. Por serem muito pequenas, geralmente com menos de cinco milímetros de dimensão, estas partículas são chamadas de microplásticos. 

Para perceber melhor este fenómeno, é necessário compreender o que está por trás da produção das fibras e como é que estas partículas se libertam. 

O método principal para as fibras sintéticas é a extrusão por fusão. Neste processo, um polímero fundido é forçado a passar através de pequenos orifícios, formando, então, filamentos contínuos muito finos. 
Durante esta etapa, o polímero (macromoléculas formadas pela repetição de unidades estruturais menores chamadas de monómeros) é esticado e arrefecido, dando origem a fibras que depois são transformadas em fios e tecidos.

Fibras de lã de poliéster fotografadas ao microscópio
Fonte: Northumbria University

Uma das consequências deste processo é o facto de que, por criar fibras imensamente finas, a estrutura acaba por ser muito mais propensa à libertação das tais micropartículas. 
Esta situação exige um preço elevado ao planeta, começando pelo consumo excessivo dos recursos hídricos. 

A indústria têxtil é uma das indústrias mais intensivas no consumo de água a nível global. Para produzir uma única t-shirt básica de algodão, são precisos aproximadamente 2700 litros de água, que é o equivalente ao consumo médio de água por pessoa durante dois anos e meio. 

Segundo relatórios da Ellen MacArthur Foundation, 93 mil milhões de metros cúbicos de água são gastos pela indústria têxtil. Além disso, são também utilizadas 43 milhões de toneladas de químicos por ano, principalmente nas fases de tingimento e enobrecimento, o que constitui  cerca de 20% da poluição industrial. 
Embora estes materiais tenham revolucionado a indústria do vestuário, a sua intensiva utilização trouxe consequências ambientais inesperadas. 

O impacto ambiental da ciência têxtil acompanha-nos desde o momento em que levamos a roupa até à nossa casa, mais precisamente, até à máquina de lavar a roupa. 
Durante um ciclo de lavagem ocorre o fenómeno de fragmentação, no qual pequenas fibras se soltam dos tecidos. 

Segundo o estudo da investigadora Imogen Napper, uma carga de 6kg de roupa sintética pode libertar sensivelmente cerca de 700 000 microfibras, que depois passam pelos filtros das máquinas, pelas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) e terminam o seu percurso nos rios e oceanos.

Uma vez largadas nestes ecossistemas, as microfibras deixam de ser apenas resíduos têxteis e passam a integrar a cadeia alimentar, podendo agir como vetores poluentes devido à sua capacidade de adsorção, isto é, à sua capacidade de atraírem poluentes tóxicos que ficam retidos na superfície, neste caso, colando-se ao exterior da fibra plástica. 

Ao serem ingeridas pelos animais marinhos, estas fibras com químicos e substâncias muito tóxicas iniciam, assim, um processo de bioacumulação que acaba por percorrer toda a cadeia alimentar até chegar ao ser humano. Este fenómeno demonstra que a poluição têxtil não é apenas uma ameaça para o ser humano e  também põe em causa a saúde de milhares de espécies animais.

Infográfico vetorial de microplásticos na cadeia alimentar. Diagrama do ciclo de vida dos resíduos plásticos. 
Fonte: dreamstime

O que no início era visto apenas como um problema ambiental, recentemente transformou-se num problema de saúde pública. 

Um estudo feito por Dick Vethaak, da Vrije Universiteit Amsterdam, analisou um grupo de pessoas que nas amostras de sangue detetaram três tipos de plástico diferentes. Metade das amostras revelou a presença de polímeros de  PET (poliéster).

Este estudo indica que as partículas resultantes da fragmentação do nosso vestuário têm o poder de chegar e circular no nosso sistema sanguíneo, podendo originar respostas inflamatórias nos tecidos humanos, embora os efeitos a longo prazo ainda estejam a ser investigados.

Perante a gravidade destes dados, a ciência têxtil encontra-se a fazer o possível para reprogramar o ciclo de vida do vestuário, de forma a  que, quando este for descartado no meio ambiente, o impacto ambiental seja menor. 

O foco atual da engenharia de materiais é o Eco-Design, cujo objetivo principal é desenhar e construir produtos cada vez mais sustentáveis. 

Algumas instituições como a CITEVE, em Portugal, já estão a desenvolver métodos para criar fios com maior torção e filamentos mais longos, o que permite resistir melhor ao atrito mecânico da lavagem e reduzir a fragmentação das fibras.

Ecodesign explained
Fonte: Root sustainability

A roupa que usamos diariamente é muito mais do que um simples objeto de consumo, é complexa e tem impactos visíveis e significativos a vários níveis. 

Compreender este ciclo torna-se essencial para refletir sobre a forma como produzimos, utilizamos e descartamos os têxteis. Este é o primeiro passo para a mudança. No futuro, a sustentabilidade da indústria da moda dependerá não apenas das novas tecnologias, mas também das escolhas de milhões de consumidores como nós.

Fonte da capa: Portugal Têxtil
Artigo revisto por: Constança Alves

AUTORIA

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A Marta é estudante do 1.º ano da licenciatura em Publicidade e Marketing e tem 17 anos. Sempre gostou de comunicar com as pessoas das mais variadas formas. É curiosa e de mente aberta a novas experiências e, acima de tudo, gosta de fazer a diferença! Apaixonada por desporto, musicais e história, valoriza tudo o que lhe permita ganhar novas perspetivas sobre a vida. A Magazine da ESCS surgiu como a oportunidade perfeita para explorar novas ideias, enfrentar desafios e deixar a sua marca.