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Desporto adaptado: o testemunho da jovem estrela do Basquetebol em cadeira de rodas 

Aos 19 anos de idade, Afonso Tavares é a jovem promessa do basquetebol em cadeira de rodas. Símbolo de talento e dedicação, o atleta tem vindo a alcançar feitos notáveis, tanto a nível nacional como internacional, com grandes conquistas dentro e fora de campo.

Nascido em 2006 e natural da Amadora, Afonso teve a perna esquerda amputada devido a um problema congénito. Anos depois, descobriu o Basquetebol em Cadeira de Rodas (BCR) e começou, aos 14 anos, a jogar no Grupo Desportivo de Deficientes de Alcoitão (GDDA).

O basquetebol adaptado joga-se em cadeira de rodas e, para além das regras base do desporto, inclui ainda um conjunto de regras específicas que têm em conta as deficiências de cada jogador. As cadeiras são próprias da modalidade e diferem entre si consoante o grau de deficiência de cada atleta. A cada jogador é atribuída uma pontuação correspondente ao nível funcional da sua condição. Quanto menos mobilidade tem um atleta, menor é a sua pontuação e, em campo, a soma das pontuações dos jogadores não pode exceder um determinado limite, garantindo um equilíbrio justo.

Afonso Tavares ganhou destaque não só como figura incontornável do GDD Alcoitão, mas também como jogador da Seleção A, posição que já lhe rendeu um lugar de honra entre os maiores jogadores do mundo.

No currículo conta com uma Supertaça e três Taças de Portugal. No final de julho deste ano alcançou, com a Seleção Nacional Sub-23, a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos Europeus da Juventude, que se realizaram em Istambul, e já em 2022 tinha participado na conquista do bronze.

Quais são as suas expectativas para 2026, dentro e fora de campo? Quais serão as maiores dificuldades e os maiores desafios? E como é que isso influencia os seus objetivos?

Começando pelas expectativas fora de campo, a nível académico quero entrar na faculdade. É aí que está o meu foco principal, tudo o resto acaba por ser algo mais secundário.

Agora em relação às expectativas dentro de campo… são bastante ambiciosas. Em 2026 pretendo ganhar todo o tipo de competições a nível nacional em que vou participar. Internacionalmente, com a minha equipa, desejamos conseguir a melhor classificação possível na qualificação da EuroCup. Em relação à seleção, o meu grande objetivo é fazer parte do leque de selecionados para o Europeu Sénior da Divisão B, em Zagreb. Tenho plena consciência de que vai ser complicado, porém não é impossível. Há vários jogadores com qualidade superior ou semelhante à minha, por isso vai ser uma questão de quem trabalha mais e de quem está melhor a nível psicológico, sendo que é uma condição que influencia, e muito, o nosso rendimento em qualquer área da nossa vida.

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/foto/rodas-cadeira-de-rodas-foco-seletivo-fechar-se-6763760/

Como começou a sua história no BCR?

Começou há cerca de cinco/seis anos, por pura sorte e coincidência, porque estava no aeroporto com o meu grupo de escoteiros à hora certa, que foi quando a seleção sénior ia fazer a campanha do Europeu na Bósnia e passaram por nós. O capitão da seleção e da minha equipa chegou-se ao pé de mim, apresentou a modalidade e lançou-me uma espécie de desafio, que era o de a experimentar. Lembro-me de que, após essa viagem com os escoteiros, passei o verão inteiro a chatear o meu pai para falar com a pessoa que tinha vindo falar comigo para ver quando é que eu podia experimentar e, não vou mentir, ao início não fui muito com a modalidade por estar a fugir muito da minha zona de conforto, mas com o tempo e a convivência com os membros da minha equipa, os treinos começaram a ser um refúgio da realidade, por assim dizer.

Quais foram os melhores momentos que o BCR lhe deu?

É uma pergunta interessante porque há vários. Cada jogo, cada estágio, cada treino acaba por ter aquela magia que cria esses momentos. Mas, assim como qualquer atleta, há sempre aquele top três de melhores momentos e, por incrível que pareça, em primeiro não está o meu maior resultado, mas sim a memória com maior valor sentimental na minha carreira, que foi o meu primeiro Europeu em 2022, na Finlândia: tinha 14 anos e uma vaga noção daquilo que era o jogo, foi o que me deu a mudança de chip, que é uma expressão que costumamos usar para a mentalidade que ganhámos a partir daquele momento.

Em segundo lugar, iria estar a mentir se dissesse que o Europeu de 2025, na Turquia, não teve assim tanto impacto em mim e que não iria estar neste top, porque foi um misto de sentimentos tão grande.

Conquistámos o segundo lugar na competição, algo que, aos olhos do staff, de outras seleções e dos espectadores, era praticamente impossível; éramos claramente a equipa mais fraca e que supostamente “só tinha ido passear”, mas surpreendemos todos ao ganhar pela primeira vez à Holanda, que teoricamente é o país com o melhor projeto de desenvolvimento sub-23, perdendo apenas contra uma Itália, com todos os jogadores a fazer vida do BCR e a viver exclusivamente para aqueles momentos. Mesmo assim, no fim da competição, a debater-me contra tantas “potências”, fui nomeado melhor jogador da competição e liderei com bastante discrepância entre os outros jogadores nos três principais aspetos estatísticos, que são pontos, assistências e ressaltos.

O terceiro, mas não menos importante, foi o jogo das meias-finais na Taça de Portugal, que infelizmente perdemos, mas não podia deixar de estar aqui pelo simples motivo de ter feito a melhor prestação que tinha feito até à data. Foi a minha “fonte” de motivação para conseguir o título de campeão nacional na época 2024/25, porque foi a primeira vez que fiquei com uma certa amargura por ter perdido tão próximo do objetivo e, nesse mesmo dia, jurei que não ia perder o título no fim da época e voltar a vivenciar aquele sentimento.

Fonte: Instagram – afonsot39

Como é que avalia o campeonato português em relação ao estrangeiro, por exemplo em termos de competitividade, investimento e preparação física?

Eu não consigo dar uma resposta 100% com experiência própria, mas pelo menos com 60% consigo, por ser internacional com a seleção. Dependendo do campeonato, Portugal tem um nível muito abaixo no que toca à competitividade, para não falar do número de equipas que temos e que Espanha tem, por exemplo. Enquanto Espanha consegue ter três divisões, Portugal consegue só ter uma e, mesmo assim, não é com muitas equipas. O facto de não termos muita visibilidade por ser basquetebol e ser adaptado já é algo bastante condicionante para o desenvolvimento das equipas e dos próprios atletas. A realidade é dura por saber que a seleção nacional vive muito da vontade que cada um tem em querer mais e de assumir esse compromisso, que faz com que nós próprios abdiquemos do nosso lazer e dos tempos livres a fazer outras coisas de que gostamos. Para estarmos ao mais alto nível, temos que dedicar muito tempo a treinar e descansar totalmente o corpo para ter uma recuperação rápida e boa, pois cada atleta que queira chegar a este patamar tem de fazer pelo menos treinos bidiários. Lá fora, cada atleta faz três treinos por dia.

Fonte: Instagram – afonsot39

Tem algum ritual pré ou pós-jogo?

Não tenho nada assim em específico. Funciono muito pelo ambiente que me rodeia. Se for um ambiente mais tenso, sou capaz de fazer uma piada ou outra para ver se deixo o clima mais leve, mas, quando acontece o contrário e sou eu que estou mais tenso, acabo por fazer uma rotina diferente para me concentrar, que passa por meter uma música nos fones e andar a fazer lançamentos o mais próximo do cesto para ganhar confiança e concentração.

De que modo considera que a prática desta modalidade contribui para o seu desenvolvimento pessoal?

Não digo a modalidade em específico, mas falo do desporto em si. Eu acredito e defendo que a prática de qualquer atividade desportiva ajuda-nos a ter mais autoestima, dá-nos uma certa autonomia e, a parte mais importante de todas, dá-nos a conhecer outras pessoas que se tornam amigos que levamos para a vida com a simples rotina de treino e jogo, e isso é algo que nos desenvolve enquanto pessoas.

Imagem de capa: Fonte: IStock Amanda Bowlin

Artigo redigido por: Inês Félix

AUTORIA

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O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.