Diário de um Celíaco
Prefácio
Ser celíaco é viver uma verdadeira relação amor-ódio com o glúten. Um amor tóxico: ele cheira bem, tem bom aspeto, toda a gente o come… mas o teu corpo odeia-o. Assim, obrigados a respeitar as vontades do nosso intestino, alternamos entre pão com textura de bolo, cuja ingestão demora cerca de cinco a sete dias úteis, e a típica bolacha Maria, que se parte, esfarela e desintegra após a primeira dentada. Todas as refeições são uma aventura.
Primeiro capítulo – O Diagnóstico: quando o corpo grita “chega”!
A doença celíaca é uma doença autoimune. Isto é, o nosso intestino delgado nasce com um carácter dramático e, à mínima presença do seu inimigo mortal, o glúten – uma proteína presente no trigo, na cevada e no centeio – aciona os alarmes de emergência e ataca todas as vilosidades responsáveis pela absorção de nutrientes.
Um dos métodos de diagnóstico é a análise de sangue e, consoante os resultados, a biópsia intestinal. Estas análises determinam os níveis de imunoglobulina A e avaliam se o anticorpo antitransglutaminase (Ac AT) é positivo, o que indica a presença da doença. Resultado: má absorção de nutrientes (como ferro, ácido fólico, cálcio e vitaminas lipossolúveis), dores de barriga, cansaço, mal-estar… E, por vezes, uma vida inteira de “o que é que se passa comigo?”, até alguém finalmente descobrir a causa. Contudo, a superfície do intestino delgado e a sua função são restabelecidas quando a pessoa deixa de comer alimentos que contêm glúten.
Quando um celíaco ingere glúten não há indulgência: não é “só um bocadinho”. Mesmo migalhas podem provocar inflamação, diarreia, prisão de ventre, enxaquecas, vómitos e um humor que faz qualquer pessoa parecer uma versão zombie de si própria. As proteínas do glúten são ricas em prolinas e glutaminas, que são mal digeridas pelo intestino, sendo a gliadina a principal componente tóxica para celíacos. Posteriormente, caso não respeitemos as preferências do nosso “mestre”, a absorção de todos os alimentos – incluindo as bolachas de arroz isentas de glúten e com sabor a esferovite – é comprometida. Este fenómeno pode acarretar problemas mais graves, como cancros intestinais, complicações neurológicas, infertilidade, osteoporose e desnutrição grave.
Segundo capítulo – O Fenómeno do Tupperware
Depois do diagnóstico, começa a fase do tupperware lifestyle.
Ser celíaco é andar sempre equipado: mochila, marmita, snacks, plano B e, às vezes, plano C. Porque nunca se sabe.
Eis algumas das situações mais típicas:
- Jantares de aniversário
Toda a gente a comer pizza. Menos tu, que trazes a tua quinoa com frango, cuidadosamente protegida num tupperware que parece uma relíquia sagrada.
Pergunta inevitável do grupo:
– “Mas tens a certeza de que não podes comer só um bocadinho?”
Tu, farto de ouvir as mesmas perguntas, continuas a respirar fundo como fazes desde 2008. - Escola/Faculdade
As pessoas a comerem croissants ao teu lado como se nada fosse. Tu ficas ali, a sorrir de forma passivo-agressiva, a roer uma bolacha sem glúten cujo pacote custa 6€. - Casas de amigos
Levar comida para casa dos outros já é automático. Há quem leve vinho; tu levas a tua própria refeição completa, sobremesa incluída. Porque a confiança é bonita, mas a contaminação cruzada existe.
Esta doença é mais frequente nas mulheres e resulta da interação de fatores genéticos, imunológicos e ambientais. Na Europa, a sua prevalência varia entre 0,2 a 1,2%. Consoante a presença de sintomas, de anticorpos específicos e do estudo genético, a doença celíaca pode ser classificada como clássica, atípica, silenciosa, latente ou potencial.
Terceiro capítulo – A pergunta da vida: “Nunca comeste isto?!”
O celíaco vive rodeado de espanto gastronómico.
- “Nunca comeste bolo de bolacha?!”
Não, João. A bolacha é literalmente o meu inimigo mortal. - “Nunca provaste cerveja a sério?”
Não, Paulo. A minha versão é artesanal, orgânica, feita com lágrimas de unicórnio e custa o equivalente a uma renda parcial. - “Nunca comeste croissant de padaria?”
– “Nunca comi.”
– “Ó pá, que pena! É tão bom!”
Obrigado, isso ajuda imenso.
A verdade é que o celíaco possui uma espécie de museu gastronómico mental, cheio de pratos que conhece apenas por fotografias.
Quarto capítulo – Aventuras de Sobrevivência no Mundo Real
1. O Supermercado labiríntico
A secção sem glúten é sempre pequena, escondida entre comida para bebés e comida vegan, e misteriosamente, tudo custa o dobro.
Tu já sabes: se custa menos de 3€, é porque não é para ti.
2. Restaurantes – O campo social minado
Tu escolhes cuidadosamente um restaurante. Chegas lá:
– “Têm opções sem glúten?”
– “Temos salada.”
– “E…?”
– “Também temos outra salada.”
Maravilhoso.
E há sempre o empregado que responde com confiança de uma estrela Michelin:
– “Sim, isto não tem glúten, não tem leite.”
3. O pesadelo da contaminação cruzada
Uma migalha.
Uma.
Migalha.
E, de repente, o teu organismo passa de modo zen para modo apocalipse.
É como viver numa série policial: tens de analisar superfícies, utensílios, tostadeiras, colheres suspeitas… é CSI sem glúten.
Quinto capítulo – Pequenas vitórias celíacas
Apesar de tudo, há alegrias. Encontrar um sítio com pão sem glúten que não tenha um sabor duvidoso é equivalente a descobrir um tesouro perdido. Ver alguém trazer uma sobremesa feita especialmente para ti é, honestamente, mais emocionante do que receber um Ferrari.
E ainda conhecer outro celíaco e conversar como dois veteranos de guerra:
– “Também passaste pelo tupperware da humilhação?”
– “Todos os dias”.
Epílogo – A vida continua
Ser celíaco dá trabalho, dá despesas e dá histórias dignas de um stand-up comedy. Mas também ensina disciplina, autocuidado e uma capacidade extraordinária de encontrar alternativas criativas para tudo.
Existem evidências de que mesmo pequenas quantidades de glúten podem não provocar sintomas imediatos, mas continuam a danificar a mucosa intestinal, aumentando o risco de cancro do tubo digestivo, doenças autoimunes, alterações do metabolismo ósseo, problemas de fertilidade, além de alterações neurológicas e psiquiátricas. Por estas razões é importante seguir a dieta.
Felizmente, o intestino possui uma elevada capacidade de regeneração, portanto, se a dieta for seguida, é possível normalizar a mucosa intestinal.
Para um celíaco, uma simples saída, jantar ou convívio exige normalmente mais planeamento do que uma expedição à Antártica. Contudo, a paciência, a resiliência e a organização que se adquire através deste fenómeno é algo inconquistável por meros mortais que não possuam esta “distinção”.
Fonte da capa: Calo
Artigo revisto por Leonor Almeida
AUTORIA
Há 18 anos a alimentar a sua fome de aprender, Joana Santos inicia o seu percurso na ESCS no curso de Jornalismo. Desde pequena com enorme entusiasmo nas áreas de Literatura e Ciências, consegue perder-se durante horas num livro sem dar pelo tempo a passar. Curiosa e aventureira, está sempre pronta para descobrir o que o mundo tem para oferecer. Na ESCS Magazine, encontrou o espaço ideal para pôr em prática aquilo que mais a entusiasma no jornalismo: a escrita.



