Entre câmaras e cortes: João Bonneville no Dia do Cinema
No Dia Mundial do Cinema, celebrado a 5 de novembro, a ESCS Magazine ouviu João Bonneville, o ator que marcou uma geração. Esta data celebra a arte, os criadores e o papel da cultura, e João Bonneville partilhou a sua visão sobre a profissão, os bastidores e a evolução neste setor. Embora muitos o continuem a reconhecer como o Sebastião dos Morangos com Açúcar, o seu percurso estende-se além dessa primeira experiência televisiva.
O primeiro grande desafio no ecrã
O ator João Bonneville ficou conhecido como Sebastião em Morangos com Açúcar, e, mais tarde, integrou produções como I Love It, Massa Fresca, Cacau, entre outras. Iniciou o seu percurso artístico na Escola Profissional de Teatro de Cascais, após um longo processo de seleção. A apresentação dos primeiros exercícios e ensaios acabou por contrariar a resistência inicial da família e marcou o início de um trajeto onde a prática profissional rapidamente se sobrepôs à formação académica, a meio do segundo ano recebeu o convite para fazer parte dos Morangos com Açúcar.
O processo de seleção, recorda, foi mais marcante do que o primeiro dia de gravações. Quando finalmente assumiu o papel de Sebastião, a personagem que descreve como “o primeiro amor”, percebeu que teria de se desconstruir por completo. Observou crianças com autismo e hiperatividade para criar um registo físico e emocional distante da sua própria forma de estar. Com o tempo, bastava “apertar os sapatos do Sebastião” para encarar a personagem. Considera essa a experiência que o obrigou a conhecer-se melhor e que continua a marcar a forma como é reconhecido pelo público.
Brasil: outro ritmo, outra técnica, outra indústria
Mais tarde, Bonneville estudou televisão e cinema no Rio de Janeiro. A passagem pelo Brasil confrontou-o com métodos de ensino distintos dos portugueses, mais centrados no corpo e na construção técnica da emoção, permitindo-lhe alcançar estados emocionais através do corpo e não da memória. A sua vivência numa comunidade brasileira deu-lhe ainda contacto com uma cultura mais aberta e inclusiva. No regresso a Portugal gravou “I Love It”, projeto que encara como uma homenagem ao que aprendeu no Brasil.
O ator destaca ainda diferenças estruturais entre os dois mercados. Em Portugal, afirma que se grava demasiado depressa e com recursos limitados. Defende que o problema não é apenas orçamental, mas também de tempo e do desenvolvimento de argumentos.
Fonte: Número F
Os desafios da instabilidade na carreira
Depois de uma década de trabalho consecutivo na televisão, o ator enfrentou um período sem convites. Sem contrato de exclusividade, como a realidade da maioria dos atores, deixou de receber assim que as gravações terminaram. A ausência de estabilidade financeira e profissional obrigou-o a repensar prioridades e a reforçar a resiliência. Paralelamente, procurou trabalho noutra área e entrou para a restauração, onde reconheceu que também aí se exigem competências próximas da representação, sobretudo na comunicação e na relação com o público.
É por isso que defende a inclusão de aulas de teatro no ensino obrigatório, não para formar atores, mas para desenvolver competências de comunicação, postura e dicção, aspetos que considera essenciais em qualquer profissão.
Resistir para criar
Hoje, João Bonneville gere o seu próprio negócio e mantém-se ligado à representação, embora reconheça que esta é uma profissão marcada pela instabilidade, onde a resistência pesa tanto quanto a motivação. Por isso, defende ser essencial manter outras competências e aprender continuamente: “Quanto mais tivermos, melhores artistas somos”, afirma o ator.
O seu percurso revela uma realidade frequentemente deixada fora de cena – o cinema e a televisão constroem-se com paixão, resistência e adaptação.
Fonte: Número F
No Dia do Cinema, fica a mensagem de que resistir faz parte do caminho criativo e João Bonneville, que já foi protagonista, aprendiz, empregado de mesa e empreendedor, continua a provar que a criação artística é, acima de tudo, persistência.
Fonte da capa: Número F
Artigo revisto por: Carlota Lourinho
AUTORIA
Estudante do 2.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial, Marta divide o seu tempo entre livros, maratonas de séries e sessões de cinema. Apaixonada por romances de todas as épocas e fã assumida das temporadas antigas de Morangos com Açúcar, também não resiste a um bom filme de terror. Agora como editora de Cinema e Televisão, está pronta para ouvir e partilhar as melhores séries e filmes de sempre.
A Mafalda tem 19 anos e está agora no 2º ano da licenciatura em Jornalismo. Os mundos da música e da televisão sempre estiveram muito presentes na sua vida, por serem uns dos seus maiores interesses, que acabaram por se tornar paixões. encontrou na ESCS Magazine o sítio ideal para escrever sobre aquilo de que mais gosta e espera poder inspirar alguém com a sua escrita.




