Literatura

Escrito por elas: cinco livros de autoras portuguesas

A literatura portuguesa tem diversos nomes femininos de destaque, como Sophia de Mello Breyner Andresen e Natália Correia. No entanto, aliada ao aumento da procura de livros por parte dos jovens, vemos nascer uma nova geração de escritoras portuguesas que escrevem com um olhar mais apelativo para estas faixas etárias e inspiram novos leitores.  

Há muitas mulheres a escrever em Portugal e há muitas a escrever bem, o que dificultou a tarefa de escolher apenas uma amostra a dar a conhecer neste artigo. Mas feito o exercício, cheguei a cinco escritoras que têm conquistado o público português nos últimos tempos. Embora de géneros literários variados, todos estes livros têm um toque de garra, sensibilidade e uma liberdade cada vez mais assumida. 

Susana Amaro Velho, Bairro das Cruzes

Comecemos por um bairro que não existe no mapa, mas que podia ser o bairro de cada um de nós. Susana leva-nos pela vida de personagens com qualidades e defeitos, em pleno Estado Novo, entre o campo e a cidade.

Numa narrativa que percorre 60 anos, a autora relata a história de Luísa, bondosa e dedicada, e Rosa, implacável e brutal; duas primas cujas vidas se misturam com a lenda do local onde nasceram: “porque em todas as famílias, para que depois vivam contentes, morrem precocemente três parentes”

Fonte da Imagem: Infinito Particular

A relação entre as duas amigas desde a infância é uma corda bamba de aproximações e afastamentos, marcada por acontecimentos trágicos que envolvem amigos e familiares. Mais do que um retrato do Estado Novo, é um retrato dos fardos (as “cruzes”) que somos obrigados a carregar.

M.G. Ferrey, Aquorea – Inspira 

Depois mergulhamos. Literalmente. Aquorea é para os amantes de fantasia (com um toque de romance), onde sentimos que estamos a viver numa realidade sobrenatural, debaixo do mar.

Depois de se afogar no dia do funeral do avô, Arabela acorda em Aquorea, uma comunidade escondida no fundo do mar, onde surpreendentemente encontra o seu avô. Neste mundo novo, conhece Kai, um rapaz de comportamento imprevisível que a atrai e inquieta.

A adaptação de Arabela a esta sociedade é interrompida quando os seus habitantes começam a morrer. Ela descobre que a sua chegada não foi acidental e que terá um papel crucial no destino de Aquorea, levando-a a investigar os misteriosos acontecimentos que ameaçam este mundo subaquático.

Fonte da Imagem: Wook

Filipa Amorim, A Corrente

Se Aquorea nos leva para dentro, A Corrente agarra-nos e puxa-nos para fora, ou melhor, para dentro do que dói. Num thriller que aborda temas como o trauma e a memória, a história foca-se no desaparecimento de Francisco, o elo do seu grupo de amigos, que, depois da tragédia, se desfaz.

Nove anos depois, o passado ressurge quando o corpo de Francisco é encontrado numa cova vazia no cemitério local. O regresso dos amigos, forçado pela investigação policial, traz à tona as mentiras e mágoas que tentaram enterrar. Segue-se não só a busca pelo assassino, mas também uma prova à amizade que os unia e às feridas que o tempo não conseguiu fechar. 

Fonte da Imagem: Penguin Livros

Filipa Fonseca Silva, E se Eu Morrer Amanhã?

Uma escrita leve e cómica que esquece os tabus e fala da sexualidade na terceira idade de uma forma hilariante, ao mesmo tempo que conta a história de Helena, uma personagem caricata.

Aos 79 anos, a vida da viúva Helena é abalada por um incêndio na sua sala que a obriga a mudar-se para casa da filha. Perante a desconfiança da família sobre a sua sanidade, ela resolve revelar um segredo: mantém uma vida sexual extremamente ativa.

Através das suas confissões, conhecemos as aventuras amorosas que Helena viveu em segredo após décadas de um casamento infeliz. É um romance que desmonta com humor os preconceitos sobre o desejo e a autonomia das mulheres idosas, mostrando que a descoberta da felicidade não tem idade.

Fonte da Imagem: Wook

Rita da Nova, Quando os Rios se Cruzam

Por fim, voamos até Turim, numa história sobre como as escolhas que fazemos deixam marcas para sempre.

O Erasmus de Leonor em Itália prometia ser uma fuga à mãe controladora e uma oportunidade para se reinventar, mas a liberdade trouxe consigo descobertas sombrias: facetas de si mesma que não reconhecia e atitudes cujas consequências a perseguiram por uma década.

Anos depois, ao confessar esses eventos a uma estranha, Leonor finalmente enfrenta o passado. Rita da Nova constrói um retrato sobre identidade e arrependimento, questionando até que ponto podemos escapar das versões de nós mesmos.

Fonte da Imagem: Editorial Presença

Seja através de fantasia, mistério ou humor, a literatura portuguesa contemporânea é rica em autoras que inovam cada vez mais e nos trazem histórias arrebatadoras. 

Num vasto leque nacional, façamos com que estes cinco nomes sejam o ponto de partida para explorar muitas mais histórias que demonstram a força de vontade, emoção, ousadia e diversidade das nossas escritoras!

Imagem de Capa: Maria Rita Silva

Revisto por Madalena Monteiro

AUTORIA

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A Maria Rita tem 18 anos e vem do Bombarral, terra que quase ninguém sabe onde fica. Uma das suas maiores paixões é a leitura: é nos livros que sente que pode escapar à realidade e viver em diversos mundos diferentes. Aliada à leitura vem a escrita, pois escrever é a sua forma favorita de se expressar. É devido a este gosto pela comunicação e por ter descoberto o bichinho da rádio em criança que está no segundo ano em Jornalismo. Na ESCS Magazine quer não só falar de algo de que gosta, como também divertir-se e explorar mais a sua criatividade.