Artes Visuais e Performativas

A imagem que mente: fotografia e inteligência artificial

AUTORIA

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Jéssica Medeiros é natural dos Açores e tem 17 anos. Frequenta o curso de Audiovisual e Multimedia na ESCS, tendo anteriormente concluído o curso de Artes Visuais no ensino secundário. Desde cedo demonstrou um grande interesse por diversas formas de expressão artística e visual, explorando áreas como fotografia, vídeo, design e edição — com especial apreço por tudo o que se relaciona com as artes. É uma pessoa criativa, curiosa e aberta a novas experiências, revelando uma constante vontade de aprender e de investigar temas que despertem a sua atenção. Encarando a arte e o audiovisual como meios de comunicação de ideias, emoções e histórias, valoriza a experimentação e a busca por novas perspetivas. Acredita que cada projeto representa uma oportunidade de crescimento, descoberta e partilha do seu olhar sobre o mundo. Embora ainda não tenha experiência na área editorial nem na escrita de artigos, demonstra grande motivação e interesse em aprender e desenvolver novas competências nesse campo.

A fotografia sempre carregou consigo a aura de verdade. Durante décadas, acreditámos que a câmera era uma espécie de testemunha imparcial, capaz de congelar o mundo tal como ele é. Uma fotografia era uma prova, uma memória, um registo. No entanto, à medida que a tecnologia avançou, essa relação direta entre imagem e realidade começou a desfazer-se. Primeiro com a manipulação digital, depois com a edição facilitada através dos telemóveis, e agora com a inteligência artificial generativa, que rompe definitivamente o pacto entre aquilo em que podemos acreditar.

Hoje, qualquer pessoa consegue criar imagens fotorrealistas de rostos inexistentes ou de acontecimentos que nunca ocorreram. A fotografia, que antes dependia da presença física de algo diante da lente, tornou-se independente do real. Hoje já não é necessário que um evento aconteça para que haja imagens. A imagem deixou de ser evidência e passou a ser possibilidade. E essa mudança altera radicalmente a forma como nos relacionamos com o visual.

Fonte: Blog Saninternet

No campo artístico, esta transformação abre novas fronteiras criativas. A inteligência artificial torna-se uma ferramenta para imaginar corpos impossíveis, cenários alternativos e narrativas visuais que desafiam a lógica. Muitos artistas veem na IA uma oportunidade de expandir a prática fotográfica para além do visível, transformando-a num espaço de experimentação conceptual. A fotografia deixa de ser apenas captura para tornar-se construção.

Fora do universo artístico, esta liberdade pode tornar-se perigosa, dada a facilidade com que se produzem deep fakes, a manipulação de figuras públicas e a criação de conteúdos visualmente credíveis que podem influenciar debates políticos ou distorcer factos, colocando em causa a confiança coletiva sobre a imagem. Se qualquer fotografia pode ser falsa, e se qualquer falsificação pode ser verdadeira, o que resta do valor documental da imagem? A promessa de objetividade da fotografia dissolve-se perante uma tecnologia que torna a mentira visual indistinguível da verdade.

Fonte: Pin.it

Perante isto, o espectador contemporâneo precisa de um novo olhar: não basta apenas ver, é preciso saber interpretar. A literacia visual  torna-se essencial: compreender o contexto da imagem, questionar a sua origem, suspeitar do excesso de perfeição, reconhecer que toda a imagem, mesmo a fotografia, é sempre uma construção parcial da realidade. A inteligência artificial não inventa a mentira na fotografia, apenas a torna mais evidente e acessível.

O futuro da imagem dependerá, em grande parte, da transparência. Saber como uma imagem foi produzida, com que intenção e por quem, será cada vez mais relevante do que a imagem em si, a tecnologia pode expandir a criatividade, mas também exige responsabilidade ética. Entre a invenção poética e a manipulação perigosa existe uma linha frágil, constantemente atravessada por interesses políticos, económicos e mediáticos.

Paradoxalmente, esta crise da verdade fotográfica pode ser uma oportunidade para repensar o papel da imagem. Talvez seja precisamente agora, quando a fotografia deixa de ser tomada como espelho do real, que possamos compreender melhor o seu poder. A imagem que mente também revela as nossas expectativas de verdade, a nossa vulnerabilidade diante do visual, e sobretudo a forma como construímos significado através daquilo que vemos.

No fim, talvez não se trate de saber se a imagem mente ou não, mas sim de entender que sempre mentiu um pouco. A inteligência artificial apenas tornou essa mentira mais sofisticada e evidente. E é nesse espaço entre ilusão e revelação que a fotografia contemporânea se reinventa.

Aquilo que uma vez foi usado para dizer a verdade, hoje não passa além da mentira e da dúvida.

Revisto por Carlota Lourinho

Fonte da capa: Pin.it