Gronelândia: uma ilha entre a diplomacia e o conflito
Atualmente, a Gronelândia enfrenta uma complexa crise diplomática com metástases que afetam todo o Ocidente. Esta disputa territorial pode mudar o modo de encarar a política externa e alterar o paradigma das relações internacionais, originando um mundo pautado pelo degelo das alianças ocidentais. Perante esta conjuntura, na qual a competição ameaça substituir a cooperação, americanos e europeus terão de decidir até que ponto estão dispostos a ceder ou a resistir. Mas porque é que a Gronelândia se tornou o centro das atenções internacionais?
A Gronelândia é uma região autónoma do Reino da Dinamarca e a maior ilha do mundo. O território tem 56 600 habitantes e 2 166 086 km quadrados, sendo que 81% da sua superfície está coberta por gelo. O seu governo é autónomo e conta com um parlamento próprio, constituído por 31 deputados e liderado por Jens-Frederik Nielsen, embora o chefe de Estado da Gronelândia seja o rei Frederico X da Dinamarca. A ilha integra a NATO desde 1949 como parte da Dinamarca, mas já não pertence à União Europeia desde 1985.
O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, já anunciou e reiterou inúmeras vezes a “necessidade” de controlar a Gronelândia. O seu interesse, alega, deve-se à importância estratégica do território, nomeadamente no que toca à proteção antimíssil. De acordo com Trump, a Dinamarca não tem capacidade de assegurar a segurança da ilha perante as ameaçantes Rússia e China, pelo que o território devia ser tomado pelos Estados Unidos.
Fonte: Unslpash
Ao longo da História, os americanos já haviam manifestado a vontade de comprar a Gronelândia, ou alargar o seu poder e influência à ilha ártica, dada a sua posição geográfica e consequente importância na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria. Desde 1951 que um acordo entre a Dinamarca e os EUA permite aos americanos estabelecer e operar bases militares em solo gronelandês – a base de Pituffik, particularmente, apresenta grande valor ao nível da defesa e vigilância do território.
No entanto, a questão da Gronelândia não se deve simplesmente à segurança.
O solo gronelandês é muito rico em recursos minerais. Nele estão presentes 25 dos 34 minerais da lista oficial de matérias-primas essenciais definida por Bruxelas. A extração de terras raras, zinco, chumbo, prata, germânio e gálio pode ser uma empreitada altamente rentável e lucrativa, muito apelativa para Trump.
Apesar de já ter dado a entender que os direitos de exploração mineira estão a ser debatidos, as declarações de Trump focam-se no estabelecimento de uma “Cúpula Dourada”, isto é, um escudo militarizado e altamente tecnológico de várias camadas no ar, no mar e até no espaço, que visa proteger os EUA de ameaças bélicas.
Para a execução de um plano desta envergadura, a base de Pituffik é uma peça “vital”, segundo Trump. A localização da base num deserto polar, uma zona de baixa humidade atmosférica, faz com que seja possível estabelecer a comunicação necessária entre toda a “constelação de satélites” implicados na Cúpula Dourada.
À resistência oferecida pela Europa às suas pretensões expansionistas, Trump respondeu com as já habituais tarifas, impondo sobretaxas alfandegárias, mais um indício de que o presidente americano não descansará até obter o controlo da região.
Perante a chantagem americana, os órgãos europeus traçaram uma linha vermelha. A primeira-ministra dinamarquesa garantiu que a Gronelândia não está à venda e António Costa, Presidente do Conselho Europeu, declarou “apoio e solidariedade totais com o reino da Dinamarca e com a Gronelândia”.
O ex-primeiro ministro português fala numa “Europa de princípios, uma Europa de proteção e uma Europa de prosperidade” e enfatiza que a UE “está pronta para se defender […] contra qualquer forma de coerção” e tem “o poder e os instrumentos para o fazer”.
Ursula von der Leyen promete ainda um “pacote substancial de investimento” no Ártico e apela à “unidade” europeia.
Fonte: Unslpash
Entretanto, o presidente norte-americano chegou a acordo com a NATO e recuou nas ameaças de tarifas, deixando os líderes europeus otimistas quanto à possível resolução diplomática da questão da Gronelândia. Não obstante, ainda há graves preocupações em relação aos planos americanos e ao respeito pela soberania e integridade do Reino da Dinamarca. Tem sido feito um esforço conjunto no sentido de reforçar a defesa e a segurança no Ártico, liderado pela Dinamarca em contexto da NATO. Esta operação, Arctic Endurance, engloba um conjunto de medidas como o envio de navios de guerra, a modernização do aeroporto gronelandês, a constituição de uma nova unidade especializada sob o Comando de Operações Especiais e a construção de um novo cabo submarino entre a Dinamarca e a Gronelândia, entre outras.
Foram ainda enviadas tropas para o terreno, um substancial reforço militar que inclui Peter Harling Boysen, Chefe do Exército Real Dinamarquês.
A anexação da Gronelândia pelos Estados Unidos seria um evento disruptivo que exigiria uma série de compromissos e decisões por parte da política externa mundial. O período conturbado prolonga-se entre avanços e recuos, e ainda é incerto se haverá uma solução pacífica. Este momento político promete ficar marcado na História e ainda não é claro se as instituições europeias e as alianças fundamentais da conjuntura internacional sairão mais unidas ou mais divididas.
Fonte da capa: Unsplash
Corrigido por Eva Guedes e Mariana Ranha
AUTORIA
O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.


