Hamina e Outros Contos: um retrato de Moçambique

HDiretamente de Moçambique chega-nos a obra de José Craveirinha, Hamina e Outros Contos. O escritor troca a habitual poesia, pela qual se deu a conhecer, pela prosa e embala o leitor numa viagem pelo seu país natal. Cada conto se debruça sobre a história de uma personagem ou conjunto de personagens, cidadãos comuns com uma vida simples.

Sabe-se que a pintura de género surgiu nos Países Baixos e na Flandres, no século XVII, e que a fotografia documental deu os primeiros passos na França do século XIX. Não podemos afirmar que a literatura realista tenha surgido pelas mãos de João Craveirinha em Moçambique, mas podemos afirmar que o autor a segue com fidelidade.

Em Hamina e Outros Contos, contempla-se a condescendência nua e crua da ordem natural da vida: o pequeno que fica órfão porque a mãe foi engolida pelas ondas do mar a apanhar peixe, as mulheres que são maltratadas numa sociedade patriarcal, o homem que morreu por querer fumar um cigarro enquanto trabalhava no topo de um poste de eletricidade, entre outras peripécias.

Note-se que não é a narrativa ou a anedota que sustentam a obra. A essência deste livro jaz nas mensagens subliminares adjacentes à escrita grave e severa de João Craveirinha. O homem morreu pelo capricho de querer fumar um cigarro durante o trabalho ou o trabalho do homem era tão inseguro que podia desabar por um imprevisto tão pequeno quanto fumar um cigarro? Craveirinha não é explícito nas suas respostas, mas deixa algumas pistas ao leitor. Na verdade, Craveirinha tem mais jeito para fazer perguntas e criar desacatos.

Retirado do site: https://www.goodreads.com/book/show/17874133-hamina-e-outros-contos -GoodReads

Créditos: Editora Caminho

Mas se, por um lado, a linguagem deste livro é dura, por outro, é picante, melosa e quente. A jornada guiada por João Craveirinha causa um desassossego envolvente. A componente sensorial tem muita força quando é suficientemente descritiva: não com demasiados adjetivos, mas com aqueles que melhor encaixam na fração narrativa. E não é de estranhar que a escrita, recheada de gíria de Moçambique, seja tão áspera quanto solar, já que a leitura assenta na viagem pelo país.

É em Hamina e Outros Contos que um punhado de histórias nos retrata realidades remotas, mas tão prosaicas e corriqueiras que se torna urgente que estejamos elucidados sobre elas, precisamente porque o hábito é que o insólito se sobreponha ao singelo, quando o singelo é muitas vezes insólito.

Artigo corrigido por Lurdes Pereira

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Retirado do site: https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/autores/jose-craveirinha/288/pagina/1

créditos: Ciberdúvidas – ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa

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