Illegitimi non carborundum


The Handmaid’s Tale – uma série demasiado boa para os dias de hoje. Não é de admirar que não tenha a projeção merecida, tal como não espanta se nunca tiveres ouvido falar desta. Provavelmente, para ti, o título deste artigo é chinês. Nada temas: estiveste quase lá. É uma espécie de latim para “Don’t let the bastards grind you down”. Queres entender esta referência? Vê a série. Vai por mim: não te irás arrepender.

É densa, acredita. Não é, de todo, aquilo que queres ver quando chegas a casa estafado do trabalho ou com a cabeça a mil. É complexa, mas por isso mesmo vale a pena. Não tem um enredo superficial e muito menos tem personagens comuns. Tal série não merecia passar despercebida: é algo nunca antes visto. De génio. Neste caso, de Margaret Atwood. Esta senhora escreveu, em 1985, o livro que inspirou a criação da série.

O primeiro episódio foi para o ar em 2017. Por isso mesmo, não contes com uma série extensa. Melhor assim, porque não te toma tanto tempo e consegues devorá-la num ápice. Até hoje, lançou duas temporadas: a primeira tem dez episódios; a segunda tem treze. Não te deixes enganar: acontece tanta coisa nestes 23 episódios…

The Handmaid’s Tale passa-se num futuro alternativo caótico, em que existe um grave problema de fertilidade. Por isso mesmo, as mulheres que ainda possuem a “dádiva de Deus” são raptadas e enclausuradas em casa das famílias de elite, ricas e religiosas (neste caso, fanáticas). Assim, cada família tem uma destas aias: não só realizam o serviço de mulher-a-dias, como o de “fazedoras de bebés”. Sim, leste bem. Algumas famílias adotam cães e, quiçá, gatos. Nesta série, quem tem dinheiro adota uma aia. Num ambiente de Guerra Civil, os EUA têm as ruas apinhadas de militares, que, para além de controlarem os passos de toda a gente, certificam-se de que nenhuma aia foge à sua posição. Durante a sua estadia na mansão que lhes foi designada, as aias veem a sua liberdade confiscada. Não podem sair à rua sem estarem acompanhadas por outra aia; não podem ler ou ter qualquer outro prazer cultural; não podem ter posses.  

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O nome de cada uma começa por “Of”. Por exemplo: Ofsteven, Ofdaniel, Ofglen – do Steven; do Daniel; do Glen. São propriedade dos seus senhores. Oprimidas e forçadas a levar uma vida baseada numa referência da Bíblia, estas mulheres tentam não deixar que os imbecis as deitem abaixo. Com uma imensa força de caráter, lutam para contrariar este destino que lhes foi imposto.

O primeiro episódio da primeira temporada tem por nome “Offred”. Já o primeiro episódio da segunda temporada está intitulado de “June”. Sim, elas têm nomes, tal como tu. Tal como eu. Tu e eu vivemos num tempo de liberdade, sendo que as atrocidades presentes nesta série são inconcebíveis para qualquer um de nós. Este programa remete para a ideia de girl power. Enfatiza bastante a garra deste conjunto de Mulheres, cujas vidas são ceifadas caso pisem o risco. O problema é que o risco as contorna.

Estas escravas tinham vidas. Tinham família, empregos, um quotidiano dito normal. Isto até verem os seus filhos arrancados dos seus braços e levados para longe e até terem sido enviadas para uma escola de correção, que lhes mostrou o futuro que as aguardava. Aquilo a que são submetidas leva-nos a questionar como é que resistem, não preferindo optar pelo suicídio como escapatória a este pesadelo. Mas depois lembramo-nos de que, no mundo não dominado por estes loucos, estão as suas famílias à sua espera. Tudo o que fazem visa libertarem-se das circunstâncias em que estão, para poderem voltar ao que foram obrigadas a deixar para trás.

A série pertence à categoria “drama”, tendo já o título de “Melhor Série Dramática”, atribuído pelos Emmy Primetime e pelos Golden Globes. A atriz principal, Elisabeth Moss, foi bastante premiada pela sua performance. Na minha opinião, merece todos os prémios que ganhou até hoje (e mais ainda).

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Sei que muita gente chega a um ponto em que recorre aos amigos: “Olha lá, diz-me aí uma série bacana para ver!”. Tens aqui a tua resposta! Esta é uma série “a sério”. Não é de rir à gargalhada, nem de chorar baba e ranho. Não serve para desanuviar. Serve para ficares deslumbrado com os diálogos fantásticos, com o cenário cuidado e com uma história de deixar qualquer um boquiaberto. É forte pelo impacto que causa no espetador; por te fazer pensar em coisas que nunca te passariam pela cabeça; por te abrir os olhos para um mundo alternativo – que esperemos nunca passe da fantasia.

Vê pelos teus próprios olhos o que andas a perder: https://www.youtube.com/watch?v=TSSyU2uEusQ

Espero ter suscitado a tua curiosidade. Praise be.


Artigo corrigido por: Andreia Jesus

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