“It’s money though isn’t it, the substance that makes the world real”: as classes sociais em Normal People
Normal People, o segundo livro publicado da autora Sally Rooney, conta a história de Marianne e Connell, duas personagens de realidades muito diferentes. Cresceram numa pequena cidade rural na Irlanda e essa é a única coisa que têm em comum.

Criaram uma conexão que vai muito para além do físico, o que torna a história mais intensa por navegar nas complexidades do primeiro amor e o que carrega consigo. Desde relações familiares complicadas, diferenças acentuadas entre estilos de vida e problemas de comunicação entre as personagens, este é um dos livros que melhor representa a realidade.
“Normal People: Sally Rooney” (Livro). Fonte da imagem: Amazon
É uma obra que utiliza dinâmicas negativas, como a falta de comunicação, para mostrar como a desigualdade de classes pode ditar e sobrepor-se na vida, nas escolhas e nas atitudes das personagens.
É inegável que a diferença entre as origens de Marianne e Connell cria um certo desequilíbrio na sua relação amorosa. Quando se encontram sozinhos pela primeira vez, Connell vai buscar a mãe à casa de Marianne, onde ela trabalha como empregada doméstica. É difícil para Connell ignorar esta divergência entre estilos de vida, uma vez que a ela se soma o facto de a sua família ser sustentada pela família de Marianne. Ainda assim, os dois envolvem-se numa relação secreta, perfeita em privado, mas incompatível e desconhecida para os que os rodeiam.
É quando saem da pequena cidade de Sligo para irem para a universidade que a dinâmica do seu comportamento pessoal muda e que as desigualdades de classe se tornam mais claras.
Enquanto Marianne prospera neste novo ambiente, Connell encontra-se perdido e isolado. Marianne muda-se para um apartamento de família e encontra finalmente uma oportunidade de fazer com que a sua voz seja ouvida e compreendida, ultrapassando tudo o que sofreu com o seu irmão abusivo e os longos anos de bullying (adversidades que mostram que alguém de uma classe mais alta não se encontra isento de dificuldades, apesar das vantagens que a condição social oferece). Já Connell passou a vida toda a acreditar que as suas opiniões e crenças não tinham importância, algo que influencia a sua autoconfiança. A incapacidade de se relacionar com outros alunos de inteligência igual ou inferior à sua torna-o uma pessoa muito solitária. Apesar disto, é através de Marianne que frequenta festas e reuniões, mas sempre com a incapacidade de formar qualquer tipo de relações. Isto porque as diferenças entre ele e os outros cria uma grande barreira.
Esta dificuldade em criar laços sociais está relacionada com uma das situações mais comuns na sociedade: as pessoas com menos oportunidades financeiras não são encorajadas a ir para a faculdade, devido à falta de apoio e expectativas. Embora Connell não julgue Marianne pela riqueza, não deixa de notar a maneira como ela considera os seus privilégios completamente naturais, e isso leva-os a evitar discussões acerca das suas condições financeiras. A falta de consciência de Marianne em relação aos seus privilégios é clara, como quando se candidata a uma bolsa de estudos de que não precisa apenas para mostrar prestígio e superioridade. Connell recebe essa mesma bolsa, que faz com que consiga usufruir de todos os benefícios da universidade da melhor forma possível.
Para além disto, existem outros comportamentos de Marianne que Connell tenta sempre ignorar, pois para ele é mais importante ganhar o respeito de pessoas como ela do que o dinheiro. Connell sabe que Marianne o respeita e admira, e isso fá-lo sentir-se especial – especialmente quando descobre que ela o elogia diante de estudantes ricos com pais bem sucedidos e influentes na sociedade. Ainda assim, é inevitável sentir um certo rancor: enquanto Connell tem de passar por dificuldades para se adaptar ao seu novo mundo, as pessoas à sua volta (como Marianne) vivem numa realidade em que as oportunidades surgem sem qualquer esforço.
Desta forma torna-se evidente o quanto o dinheiro e as desigualdades sociais podem, de facto, afetar as dinâmicas da relação e tornar as coisas mais complicadas para ambos.
Imagem de Capa: NIT
Artigo revisto por Eva Guedes
AUTORIA
A Matilde, de 19 anos, sempre teve uma curiosidade imensa e uma vontade de saber um pouco acerca de tudo. Desde a teoria da relatividade de Einstein aos livros da Sally Rooney. Encontrou na Escs Magazine uma oportunidade para explorar, através da escrita, um novo interesse na astronomia e outras ciências, em conjunto com um dos seus tópicos de conversa favoritos: a literatura.
Passa uma grande parte do seu tempo no Booktube, onde descobre as novidades e alguns dos grandes clássicos que, infelizmente, ainda tem por ler.

