Quando o Amor beija o Poder
AUTORIA
Vinda de Cascais, a Teresa entra na escs com 17 anos. Está no curso de Audiovisual e Multimedia no primeiro ano. Sempre gostou muito de escrever e de falar sobre tudo o que lhe vem à cabeça, veio para a Magazine com o objetivo de partilhar um bocadinho disso com todos e expandir os seus conhecimentos sobre a área da redação. Escrever é um movimento de autoconhecimento, uma expressão de si mesma, acredita que se aprende muito quando se escreve, não só sobre os diferentes tópicos mas também sobre a pessoa em si. Na área da redação, cada um tem o seu toque especial e é isso que torna a escrita tão interessante.
“O beijo”, de Gustav Klimt, foi uma das obras mais icónicas do século XX e ganhou destaque pela representação amorosa que retrata.
A imagem representativa de um momento de carinho e intimidade entre um casal, juntamente com o fundo dourado na tela, captam o nosso olhar através de uma sugestão de eternidade e sacralização da paixão.
É uma obra que deixa muito em que pensar: a harmonia aparente fez com que este quadro se tornasse um dos mais reconhecidos do pintor, no entanto, após uma observação atenta e cuidada, sente-se uma tensão subtil escondida por detrás da sua estética refinada.
Esta sensação deve-se à posição das figuras e às suas diferentes posturas, apontando para uma mulher vulnerável e para um homem dominante e entregando questões sobre o poder e o controlo. Será esta representação uma celebração pura do amor profundo, ou o espelho de uma relação hierárquica?

Fonte: SAPO
Sem dúvida que o foco desta obra se trata do abraço calorento que ambos partilham, sendo este um símbolo de intimidade, entrega e união que nos transmite ternura e conexão emocional: uma entrega mútua. As diferentes formas geométricas presentes em cada um, num olhar mais profundo, podem simbolizar a complementaridade do casal, a fusão dos seus elementos. A utilização da “folha dourada” também não escapa: remete-nos para ícones religiosos que ajudam nesta personificação do amor. O casal aparenta estar suspenso e fora do tempo, os dois isolados e conectados – podendo, aqui, ser feita uma correlação com o amor eterno.
Todos estes aspetos evidenciam a serenidade que a obra transmite: uma imagem da cumplicidade partilhada pelos dois.
Contudo, não se podem ignorar os aspetos mais negativos que aqui encontramos: a postura dos dois é o fator que mais nos entrega o lado menos positivo da obra.
O homem encontra-se de pé e é, visualmente, o ponto dominante da composição, enquanto que a mulher está de joelhos e mais encolhida: isto pode sugerir uma submissão feminina. Os olhos da mulher estão fechados e o rosto é pouco expressivo, contrastando com o forte beijo que lhe é oferecido pela figura masculina, que pode ser vista como intensa e/ou possessiva, dando ênfase a esta submissividade e falta de controlo por parte da Mulher.

Fonte: Babbel
A visão profunda destas características obriga também a analisar a perda de identidade individual de cada um, retratada pela fusão do casal vestido de amarelo num só bloco dourado, cores que podem ser consideradas iguais.
O potencial deste quadro está na sua ambiguidade. Uma obra como esta pode ser simultaneamente romântica e inquietante. “O Beijo”, é uma obra que não é violenta, mas a verdade é que também não é cem por cento inocente: dá espaço para a interpretação de cada um e o debate de ideias – é isto que a torna tão fascinante, para além da sua magnífica composição.
O amor costuma ser visto como entrega, intimidade e confiança entre pessoas, no entanto, na maioria dos casos, envolve também dinâmicas de poder: quem decide, quem influencia, quem sugere e quem se impõe. Espera-se que qualquer relação humana seja igualitária e complementar, mas nem todos os casos são assim Até que ponto o afeto é genuíno? Até que ponto está ligado à posse e controlo?
O amor está longe de ser apenas belo e puro, pode sempre coexistir com desigualdades e conflitos de posse. O amor e o poder caminham lado a lado e nem sempre conseguimos distinguir onde termina um e começa o outro. Mesmo na intimidade, o coração pode carregar a sombra do controlo.
Artigo revisto por Mariana Ranha
Fonte da capa: Media Lounge

