Opinião

O drama das prendas conjuntas

A amizade não se mede pelo valor da prenda, mas às vezes pesa no MBWay.

Há uns anos, organizar uma prenda de aniversário era simples: cada um comprava o que achava adequado e oferecia ao amigo. O resultado era uma combinação de roupa que muitas vezes não cabia, canecas com frases “inspiradoras” e velas aromáticas que, sejamos sinceros, acabavam esquecidas no fundo de uma gaveta. Mas, de repente, surgiu uma tendência que se espalhou rapidamente – as prendas conjuntas.

Hoje em dia, basta alguém criar um grupo para organizar um jantar de aniversário que cinco minutos depois já há outro: o da prenda. O conceito é ótimo em teoria: juntar várias pessoas para oferecer algo realmente especial e útil ao aniversariante. Afinal, é melhor uma prenda boa do que dez que vão ser trocadas. O problema é que, como tudo na vida, o drama acaba inevitavelmente por surgir. 

Há quem adore o espírito coletivo e ache mais simples dar uma prenda em conjunto, mas também há quem veja o “grupo da prenda” como o início de uma pequena tragédia social. De repente, quando estamos a tentar escolher o que oferecer, temos pessoas a fugir ao pagamento como se fossem impostos, outras que reclamam de ter de pagar três euros, e aquelas que simplesmente saem do grupo em silêncio, o famoso “ghosting”. E, claro, há sempre quem defenda que “prefere dar algo mais pessoal”, o que normalmente significa uma planta que morre em dois dias.

Fonte: Pinterest

Mas, como em todas as histórias, existem dois lados. Há sempre quem se irrite com os que não colaboram, mas também há quem se veja aflito com certas prendas conjuntas que exigem contribuições cada vez mais elevadas. Muitas das vezes as festas são jantares em restaurantes “conceituados”, ou seja, pouco baratos, e se a isso se soma uma prenda que exija dez euros cada, a quantidade de pessoas a querer contribuir tende a diminuir. O resultado? Um novo drama. Tudo isto apenas para celebrar o aniversário de alguém que só vemos duas vezes por ano. De repente, o gesto coletivo perde o encanto e ganha um toque de pressão social.

O fenómeno das prendas conjuntas diz muito sobre a forma como vivemos as nossas relações e o consumo. Por um lado, revela uma vontade genuína de oferecer algo significativo, mas por outro, mostra como a amizade pode ser contaminada por expectativas, desigualdades económicas e até por uma certa competitividade (“quem contribuir mais mostra que gosta mais”).

A ironia é que o que deveria aproximar as pessoas acaba, muitas vezes, por afastá-las.
Quando a prenda passa a ser um teste de lealdade, esquece-se o verdadeiro sentido de oferecer, pois, no fundo, dar é um gesto de afeto e não de contabilidade. A amizade revela-se mais na presença do que no valor que se paga.

Ainda assim, há algo de bonito neste costume moderno. Há um certo charme em ver dez pessoas coordenarem horários, ideias e orçamentos só para fazer alguém feliz. E, no fundo, talvez seja esse o verdadeiro presente, o esforço conjunto, mesmo que venha com uma dose de drama.

Fonte: Pinterest

Artigo Revisto por: Carla Vitório

AUTORIA

+ artigos

Matilde é estudante do 3.º ano de Jornalismo e orgulhosamente Setubalense. Desde pequena, sempre adorou escrever e dar asas à criatividade (às vezes até demais, especialmente quando tinha de cumprir com um limite de palavras!). Apaixonada por viajar, tirar fotografias e ir às compras, já passou por quase todos os continentes. Criativa, dedicada e ambiciosa, dá sempre o seu melhor em tudo o que faz.