O fenómeno dos livros de autoajuda
Nas prateleiras das livrarias há sempre uma secção que promete mudar a vida do leitor em cinco ou dez passos. São bestsellers e estão nas casas de milhões de pessoas, mesmo nas de aquelas que não têm o hábito de ler. Apesar de existirem há vários anos, os livros de autoajuda só têm vindo a aumentar as suas vendas na última década.
O crescimento deste género reflete uma sociedade cada vez mais ansiosa e desesperada por soluções rápidas para aquilo que lhes falta, seja felicidade, rotina ou melhores relacionamentos. O aumento exponencial das vendas é um sintoma claro da busca por significado num mundo em que não se consegue encontrar respostas para tudo.
Títulos como Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, Deixa Estar, de Mel Robbins ou até O Poder do Hábito, de Charles Duhigg, vendem milhões de cópias por partilharem a mensagem fundamental de que a mudança começa no leitor. Este sente que, ao seguir o passo a passo do sugerido, está a fazer exatamente aquilo que deve para se aproximar da pessoa que almeja ser.



Em períodos de incerteza, a procura destes livros dispara. Na época da COVID-19, por exemplo, houve um aumento acentuado de vendas, o que refletiu a preocupação das pessoas com a gestão do seu bem-estar emocional e mental.
Mesmo assim, há quem critique este género pela simplificação excessiva de problemas complexos. Vários autores abordam temas como a depressão, o trauma ou a desigualdade económica como falhas de uma mentalidade fraca ou defeituosa, o que pode representar perigo para pessoas emocionalmente vulneráveis.
Outra consequência é a “positividade tóxica” que pode resultar da leitura deste género, pois a culpa do insucesso passa a ser do leitor por não manifestar o suficiente ou não ter adotado os hábitos certos. Ao culpabilizar o indivíduo, a autoajuda pode aumentar a vergonha e a culpa por não atingir os resultados prometidos. Mais grave ainda é o facto de alguns leitores trocarem o apoio de um psicólogo ou terapia por estas obras, depositando esperança nas promessas que, muitas vezes, não se concretizam.
A verdade é que não é certo nem errado ler estes livros. Podem ser utilizados como ponto de partida, sobretudo se tiverem como base dados de áreas como a psicologia ou a ciência do hábito. No entanto, é importante lembrar que a autoajuda é apenas uma ferramenta e não um medicamento. Pode ser utilizada para motivar e iniciar uma reflexão sobre o que se deseja, mas não pode substituir o apoio de um profissional de saúde mental.
O poder dos livros de autoajuda reside naquilo que se faz depois de fechar o livro. Podem dar um empurrãozinho inicial, mas o caminho que se segue tem de ser o leitor a traçá-lo.
Imagem de Capa: Caras
Artigo revisto por Eva Guedes
AUTORIA
A Sofia é estudante do 2ºano de Publicidade e Marketing. Não se lembra de um tempo em que não gostasse de ler e escrever, e é nas palavras escritas que encontra a melhor forma de se expressar. Estar com as pessoas de quem gosta é a sua forma favorita de passar o tempo, seja uma tarde no café ou a fazerem uma atividade que encontraram nas redes sociais. O desporto e a música têm também um lugar especial no seu coração. Encontrou na Magazine o sítio perfeito para explorar a sua criatividade e escrever sobre algo pelo que é apaixonada.

