O “santo casamenteiro” que muda vidas
Os casamentos de Santo António são uma iniciativa emblemática da cidade de Lisboa. Criadas em 1958 com o propósito de apoiar os casais com maiores dificuldades financeiras, estas cerimónias ganharam relevância social e transformaram-se numa tradição popular que perdura até hoje.
Programa das cerimónias de Santo António (1973)
Fonte: Maria Quadrada
Nascido em Lisboa com o nome de Fernando de Bulhões, Santo António tornou-se o padroeiro da capital portuguesa e uma das figuras mais queridas pelo público.
Pela sua devoção a causas amorosas, ficou conhecido como o “santo casamenteiro” e amplamente associado a histórias e crenças ligadas à realização de casamentos e ao apoio a mulheres que, por impossibilidades económicas, não conseguiam contrair matrimónio. Realizaram-se diversas festividades em honra desta figura religiosa, entre elas destacam-se os casamentos de Santo de António, que se tornaram uma tradição simbólica das festas lisboetas. Fernando de Bulhões faleceu a 13 de junho de 1231 com quarenta anos.
A fama de os casamentos serem dispendiosos é justificada. O seu elevado custo é a razão pela qual muitos casais acabam por não prosseguir com as celebrações. É tendo este cenário em consideração que os casamentos de Santo António surgem como apoio social que torna possível a sua concretização. A 1ª edição deste evento, realizada a 13 de junho de 1958, foi uma iniciativa do Diário Popular que ambicionava oferecer a casais com menos recursos financeiros a possibilidade de se casarem. Apesar da grande adesão por parte do público, o projeto acabou por ser interrompido por falta de patrocínios, e só depois retomado em 1997.
No decurso dos anos, esta tradição sofreu modificações e foi-se adaptando à evolução e exigências da sociedade.
Esta iniciativa, que antes se dava pelo de nome de Noivas de Santo António, é desde 2019 exclusivamente organizada pela Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC). Esta entidade conta com o apoio de uma vasta rede de parceiros que partilha responsabilidades, desde a seleção de alianças, vestidos de noiva, bouquets e sapatos, até à organização das noites de núpcias, despedidas de solteiros, decoração e catering. Todas as despesas são integralmente cobertas por estas parcerias. O Copo D’Água, que antes se realizava em Montes Claros, toma atualmente lugar na Estufa Fria, no Parque Eduardo VII, e conta com uma lista máxima de 20 convidados por casal, regra que também se aplica na cerimónia. A data de realização dos casamentos mudou de dia 13 de junho, dia de Santo António, para dia 12 desse mesmo mês e passou a incluir a participação dos casais de Santo António nas marchas populares, que se realizam nessa noite. Outra mudança desta iniciativa foi a redução do número de casais selecionados para 16, o que foi uma alteração significativa tendo em consideração que houve edições anteriores que contaram com a participação de 60 casais.
Este projeto providencia casamentos religiosos na Sé de Lisboa e casamentos civis nos Paços do Concelho, e em 2001 organizou pela primeira vez um casamento mulçumano na Mesquita Central de Lisboa. Para participar neste evento é necessário cumprir determinados requisitos. Pelo menos um dos noivos deve comprovar residência permanente no município de Lisboa, e ambos devem reunir as condições legais para contrair matrimónio civil ou católico, sem impedimentos previstos na lei ou no Direito Canónico. A seleção dos casais é composta por duas fases, uma verificação documental e uma entrevista presencial, na qual são avaliados fatores como a relação com a cidade de Lisboa, a ligação à tradição de Santo António, a cumplicidade do casal, as aspirações familiares, a capacidade comunicativa e a condição económica. Em caso de elevada procura, é dada prioridade a casais em que nenhum dos noivos tenha sido casado anteriormente.
Ao longo das décadas, os casamentos de Santo António transformaram-se numa tradição que concilia património cultural, ação social e identidade urbana. Apesar das mutações a que esta iniciativa foi sujeita, o seu propósito original prevalece. Trata-se de uma celebração simbólica que marca a vida de muitos casais. Em Lisboa, o legado do “santo casamenteiro” continua a escrever novas histórias.
De modo a compreender esta iniciativa, a ESCS Magazine entrevistou Maria Luísa Carvalho, de 75 anos, uma das noivas de Santo António da edição de 1973.
Os casamentos de Santo António não são um acontecimento recente, a sua origem remonta a 1958. Como é que tomou conhecimento desta tradição?
O meu marido na altura trabalhava na papelaria Fernandes, onde atendia muitos clientes, e um deles pertencia ao Diário Popular e perguntou-lhe se pensava em casar. Ele respondeu: “sim, mas por enquanto a verba que temos ainda não dá”. Depois disso, o cliente disse-lhe para não se preocupar e, passados uns dias, o senhor voltou com os papeis para nos inscrevermos nos casamentos de Santo António.

Cartão de identificação do casal
Fonte: Maria Quadrada
A RTP Memória documentou as cerimónias de Santo António de 1973, o ano em que se casou. Um dos momentos capturados nessas gravações é a ida até à Sé de Lisboa. Como foi o percurso até ao local?
Vieram buscar-me de manhã a casa de Volkswagen, foi o veículo que tinham disponibilizado para os noivos. Fui no carro com a Rosalina, a minha madrinha de casamento, e daí levaram-nos até ao Parque Eduardo VII. Ao chegarmos ao local todas as noivas desceram o Parque a pé. Depois voltámos a entrar nos Volkswagens e fomos em cortejo até à Sé de Lisboa.

Fonte: Maria Quadrada
Qual foi a sensação de sair da Sé de Lisboa e de se deparar com tantas pessoas? Sentiu o peso simbólico de estar a representar uma tradição pública e coletiva?
Honestamente, não pensei muito nisso na altura. Mas havia muita gente fora da igreja com curiosidade para ver como aquilo era.
Atualmente o número de casamentos de Santo António é limitado a 16, mas na altura em que se casou esta regra ainda não se aplicava. Lembra-se de quantos casais participaram em 1973?
Não tenho a certeza, mas acho que eram cerca de 60. Eu e o meu marido éramos o casal número 48.
Manteve contacto com outros casais que também participaram nessa edição dos casamentos?
Tivemos um convívio depois do copo de água em Montes Claros, mas não mantive o contacto com nenhum deles depois de casar.
Nota diferença entre os casamentos do seu tempo e os atuais?
Antigamente havia mais restrições. Hoje em dia até as grávidas e os divorciados se casam.
Considera que esta é uma tradição que deveria continuar a ser estimada? Se sim, porquê?
Sim, porque as pessoas são auxiliadas. Dão oportunidades àqueles que não conseguem casar, mas que gostavam de o fazer.
Acredita que os casamentos de Santo António serão uma tradição que ficará eternizada na história da cidade?
Isso fica de certeza. É uma data com grande peso simbólico e histórico.
As gravações históricas dos casamentos de Santo António de 1973 podem ser consultadas nos Arquivos da RTP (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/casamentos-de-santo-antonio-4/ ).
Imagem de capa: Hemeroteca Digital – Capa do Diário Popular no dia 13 de junho de 1958
Artigo corrigido por: Eva Guedes e Mariana Ranha
AUTORIA
Apaixonada pelas artes, a Maria nunca recusa a ida a um bom concerto ou exposição. Sempre entusiasmada por conhecer novas culturas e lugares, ambiciona viajar pelo mundo. Frequenta o 2º ano da licenciatura em Jornalismo e, embora não tenha sido a sua primeira opção, está a descobrir uma paixão que não sabia existir. Acredita que as melhores histórias habitam lugares escondidos e é isso que a motiva a continuar.


