Opinião

Passatempos: do lazer à obsessão

Todos nós temos ou já tivemos algum passatempo. O passatempo vai desde o livrinho de palavras cruzadas até aos rabiscos num caderno de bolso, e é uma atividade que serve, como o próprio nome indica, para ajudar a passar o tempo livre. No entanto, muitas vezes acabamos por nos esquecer disso e levamos essas atividades demasiado a sério. 

O passatempo é diferente do hobby, na medida em que o primeiro exige menos dedicação do que o segundo. Aquilo que deixa muita gente insegura é que, muitas vezes, fazemos determinada coisa como passatempo e comparamo-nos com pessoas que a fazem como hobby

Por exemplo, digamos que, quando estou no autocarro à espera de chegar a casa, gosto de anotar os pensamentos que me passam pela cabeça e torná-los um texto curto, simples e pouco trabalhado. O problema surge quando comparo o meu texto com o de alguém que estabeleceu as suas ideias, fez uma versão bruta do texto e, depois, foi trabalhando nele, fazendo alterações até achar que as ideias estavam expressas da forma desejada.

Fonte: Freepik

Quem faz isso dedica-se a um processo de criação e aperfeiçoamento que requer mais atenção e esforço. Isto já não é um passatempo, mas sim uma atividade que consome tempo e cuidado, com a finalidade de criar um produto de longa duração. 

Um dos grandes problemas dos dias de hoje é que não sabemos viver o momento. Não há mal nenhum em fazer coisas “inúteis”, ou seja, que não nos vão servir para nada no futuro, desde que nos ajudem a apreciar o presente. O passatempo é algo que se faz no momento e para o momento, diferentemente do hobby, que engloba todo um processo feito com um resultado final em mente. 

Também é importante ter em conta que não temos de ser bons nos nossos passatempos. Se desenhar é algo que me diverte quando estou aborrecida, posso fazê-lo “só porque sim”. Não tem de ficar bonito. «Aquilo que interessa não é o produto final, mas sim o ato de fazer». Se, de repente, decidisse estudar perspetiva e teoria das cores, o desenho deixaria de ser uma distração e passaria a ser uma tarefa árdua e meticulosa.  

É aqui que muita gente fica frustrada e deixa de fazer aquilo de que gosta. Deixamos de encarar o passatempo como um momento de lazer e ficamos obcecados em ser os melhores. Por um lado, estamos subconscientemente à espera de suceder sem esforço e ficamos desiludidos quando isso não acontece. Por outro, damos demasiada importância e esforço a algo que era suposto ser leve, quase superficial, e acabamos por ficar cansados. 

Fonte: Freepik

O passatempo tem como função ser um preenchimento dos tempos livres. Se o tornarmos uma tarefa, um hobby, então já não podemos dizer que temos tempo livre porque o ocupámos. O passatempo deve ser algo que possa ser interrompido sem causar grande desconforto, já o hobby deve ser uma ação com momentos dedicados exclusivamente à sua realização. 

Quero ainda deixar claro que nada disto significa que uma pessoa não se deva esforçar para progredir naquilo que lhe dá gosto. O passatempo não é um hobby, mas pode facilmente transformar-se num. Se descobrimos que um dos nossos passatempos é algo com que realmente nos identificamos, é completamente válido querer fazê-lo com mais dedicação. 

Sou a favor da ideia de que devemos dar sempre o nosso melhor e de que quem se esforça colhe frutos de boa qualidade. Mas obviamente isto não tem de se aplicar a absolutamente tudo: há momentos para nos dedicarmos à nossa evolução pessoal através de atividades que nos fazem pensar e desafiam os nossos limites, mas também há momentos apenas para relaxar e aproveitar o presente.

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Artigo corrigido por: Diana Martins

AUTORIA

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A Carla Vitório, vinda da Lourinhã, terminou o secundário sem saber o que queria fazer e acabou por cair de paraquedas no curso de Jornalismo da ESCS. Descobriu, através da disciplina de Língua e Expressão do Português, que gosta muito de gramática e de espalhar o uso do bom português, logo resolveu juntar-se ao departamento de Correção Linguística da ESCS Magazine. Apesar do seu humor sarcástico e um pouco seco, a Carla adora criar boas relações com os outros e dá o seu melhor para que ninguém se sinta julgado quando ela está por perto.