Religião: a irresponsabilidade epistémica de viver na fé
De facto, é inegável: desde que a espécie humana tomou consciência de si própria, questiona o motivo do aparente destaque que possui em relação ao resto da natureza: uma origem que, por mero acaso, não pode ter sido. Teve início em algum lugar, e para determinado destino se deve dirigir… certo?
Alegadamente. Surgiu então a religião, como resultado da natural necessidade de explicação que a capacidade de abstração oferece ao homem. Percebemos a reflexão interna que conseguimos induzir através da análise do mundo externo, e da mesma maneira que reconhecemos padrões de intencionalidade presentes na ação humana, também tendemos a atribuir direção e propósito aos fenómenos naturais, ainda que estes operem numa escala incomensurável.
Compreende-se essa origem. Durante séculos, julgávamos que a única explicação possível para tais acontecimentos era a existência de uma divindade cuja natureza era sobrenatural, ainda que dotada de vontades parecidas às nossas. Como se fosse um ser humano superior, transcendente, mas percetível – uma fonte de conforto e de orientação moral que conferia sentido à existência dos seres humanos naturais, mortais e terrestres.

Nos dias de hoje, esse conforto, esse sentido que é proporcionado pela ideia de que um ser superior possivelmente guie a nossa vida, tem efeitos reais e psicologicamente poderosos; contudo, não é necessariamente verdadeiro do ponto de vista epistemológico. Muitas dessas crenças são infundadas e guiadas pela fé. Basear a moral e o sentido da vida em crenças que não resistem ao escrutínio racional é, no mínimo, epistemicamente arriscado e tende a empobrecer o potencial da razão humana.
É particularmente preocupante o facto de tanta gente basear a sua vivência em tais crenças infundadas, simplesmente pelo conforto que abraça e apazigua a mente – verdadeiramente, tirando-lhe espírito inquiridor. Algo é como é porque “Deus quis que fosse”, sem admitir a hipótese de ser uma mera eventualidade ainda sem explicação. É aterrorizante não existir resposta, mas inventar uma não deve ser solução, pois uma resposta fictícia é, para todos os efeitos práticos, tão inútil quanto a ausência de resposta e, apesar disso, o seu impacto é real: real na vida humana e real na vivência referida.
Por exemplo, acreditar que, quando daqui partirmos, iremos encontrar uma dimensão diferente onde tudo de bom acontece é acreditar num lugar infinitamente melhor do que a Terra alguma vez será. Por consequência, conclui-se que a vida atual é tão infinitamente insignificante como o lugar onde se vive: para esses, não importa ter a vontade humanista de querer preservar a integridade do bem-estar geral, nem construir uma sociedade justa aqui e agora. Para esses nada disso importa, já que, depois da morte, seguiremos para onde realmente interessa. Cuidar da Terra e dos seus habitantes deixa de ser prioritário, porque passamos a encarar esta realidade como apenas uma entre outras possíveis e não como a única realidade existente.

No entanto, essa consequência não é a pior que da religião provém.
Vejamos: se uma crença é infundada, sem evidência, apenas baseada na fé, critério nenhum a sustenta. Isto significa, então, que toda a crença está ao mesmo nível epistemológico, e que nenhuma tem mais fundamento do que outra: discussões teológicas sobre a “verdade” são inúteis, dado que não existem bases racionais para prosseguir com argumentação válida. E se a nenhum consenso se chega – já que se acredita que todo o conhecimento proveniente da sua divindade é inquestionavelmente correto – discute-se com vendas nos olhos, mãos nos ouvidos e armas na boca. O caos reina. Justifica-se a alienação religiosa dogmática, sendo impossível chegar a acordo sobre qual delas é verdadeira (muitas são mutuamente exclusivas), tendo de se recorrer à barbaridade, às ficções ou ao apelo emocional. A divisão causada é notável, de escala inchada e de difícil reconciliação. O carácter dogmático de certas expressões religiosas priva as mentes mais sofisticadas da liberdade lógica que naturalmente anseiam: as crenças de cada indivíduo impactam de forma direta o resultado da sua ação, e ninguém devia ser obrigado a viver num mundo baseado numa ficção injustificável: as convicções espelham-se na política, no trabalho, nas palavras e nas relações. A irresponsabilidade intelectual abre portas à crença noutras absurdidades igualmente extraordinárias, sem necessitar de evidências correspondentes.
Enquanto a fé ocupar o lugar da razão, a humanidade continuará suspensa entre o consolo da ilusão e o medo da verdade. A verdadeira realização humana não está em acreditar, mas em compreender.
Fonte da capa: Pixabay
Artigo revisto por: Leonor Almeida
AUTORIA
O António, de 18 anos, é um rapaz especialmente curioso, com interesse na envolvência da sociedade. Adora filosofia, e de pensar sobre aquelas camadas da existência que aparentam ser invisíveis à percepção. Pratica, no Substack, a articulação de postulações reflexivas, que representam a intriga inevitável do pensamento inquietante. Vibra com hip-hop melódico, e encontra na escrita e na criatividade uma forma de se expressar e crescer. Também procura aplicar o pensamento crítico no seu quotidiano, em busca da veracidade nas suas convicções. Parte desse quotidiano passa, portanto, por aziar no Fifa.

