Stamping: pisar e evitar ser pisado
No passado dia 7 de Novembro, assisti em Torres Vedras a mais um espetáculo da Permorfact: uma escola que fornece um curso intensivo de dança contemporânea com fim a formar bailarinos e intérpretes num curto período de dois anos.
Como parte do seu programa anual, a Performact abre as portas a inúmeros coreógrafos conceituados a nível internacional. Estes têm apenas três semanas para criar uma peça coreográfica ou orientar os alunos na interpretação de uma já existente (repertório). No fim do processo de criação, os alunos bailarinos provenientes de diferentes partes do mundo apresentam o seu trabalho ao público em formato de espetáculo.

Fonte: Maria Borges
Stamping é o nome da peça de repertório a que assisti. A sua performance, realizada pelos alunos de primeiro ano da Performact, consiste no excerto final da peça: What the Body Does Not Remember, da afamada companhia Belga: Ultima Vez.
Durante os ensaios, os bailarinos foram orientados porEduardo Torroja, coreógrafo e bailarino de origem espanhola. Para além de ser um dos fundadores de Ultima Vez, Eduardo Torroja fez parte do elenco original da peça, estreada em 1987, em Nova Iorque.
De momento, exerce o cargo de Diretor de ensaios da companhia.
Apesar de originalmente ser categorizado enquanto Teatro Físico, What the Body Does Not Remember foi, no seu debute, um espetáculo revolucionário no mundo da dança. Vinte e cinco anos depois, em 2013, voltou aos palcos através de uma digressão mundial.

Fonte: Maria Borges
Assistir ao Stamping foi uma surpresa agradável, diferente de todos os espetáculos de dança a que já assisti. O estilo é contemporâneo, mas nada tem a ver com o contemporâneo “padrão” a que estamos habituados. Um dos fatores que mais diferencia esta criação é o papel quase irrelevante da música, isto porque os bailarinos dançam maioritariamente ao ritmo de pisadelas, provocadas por si próprios. De forma muito breve, posso descrever o excerto coreográfico como sendo uma sequência complexa e extremamente bem ensaiada que tem como base as ações de pisar e evitar ser pisado. É, na sua maioria, composto por duetos, onde um dos bailarinos tem a função de pisar (stamping) e o outro a de evitar (avoid). Por norma, um está de pé e o outro deitado no chão. Estes papeis são executados com extrema precisão, caso contrário o bailarino deitado corre o risco de realmente ser pisado.
Estes movimentos detentores de agressividade captaram de imediato a atenção dos espectadores, que temiam que alguém levasse acidentalmente com um pé. Este foi um dos muitos motivos que fizeram com que fosse difícil desviar o olhar da apresentação, aplaudida no seu desfecho por todo o público. De pé, os espectadores mostraram-se surpreendidos por aquilo que tinham acabado de ver e aliviados por ninguém ter saído magoado. Outro aspeto que considero relevante salientar é a cumplicidade dos alunos na execução deste repertório, especialmente nos momentos que exigem uma grande proximidade dos seus corpos. É importante referir que estes se conhecem, na sua grande maioria, há menos de um mês e, por isso, a transmissão de tal sentimento revela um grande grau de profissionalismo.
A devoção na interpretação de Stamping demonstrada pelos bailarinos intérpretes juntamente com a peculiaridade do excerto em si despertou em mim interesse em assistir a What the Body Does Not Remember por completo. Para além disso, sei que sempre que tiver oportunidade voltarei à Performact para presenciar mais criações. Inclusive, aconselho qualquer pessoa interessada pelo mundo da dança ou pelo das artes performativas em geral que um dia vá a Torres Vedras testemunhar um dos variados espetáculos desta escola. É de realçar que são abertos ao público e na sua grande maioria gratuitos.
Revisto por: Carla Vitório
Fonte da capa: Maria Borges
AUTORIA
A Maria tem 18 anos, vem da Malveira, uma vila desinteressante, que fica a dez minutos de Mafra, é vegetariana há três anos, e considera-se alguém com uma grande consciência ambiental. Entrou agora na licenciatura em Jornalismo e achou por bem juntar-se à ESCS Magazine como forma de tornar o seu percurso académico mais interessante. Sempre gostou de escrever, mas nunca o fez fora do contexto escolar, por isso, espera que a sua adesão a este núcleo a faça evoluir e acima de tudo aprender coisas novas.

