Cinema e Televisão

Tiago Castro: Muito para além do Crómio

No Dia Mundial do Cinema, a ESCS Magazine voltou a conversar com quem dá vida às histórias que o público acompanha no ecrã. Desta vez, o convidado foi Tiago Castro, conhecido pela personagem Crómio de Morangos com Açúcar, mas cujo percurso vai muito além dessa personagem, passando pela televisão, por dobragens e projetos autorais.

Aprender a representar é, primeiro, aprender a sentir

Tiago Castro descobriu cedo a representação, quando aos 15 anos entrou para uma escola profissional de teatro. Desde então, a interpretação tornou-se para si uma forma de empatia: “É pôr-mo-nos nos sapatos dos outros”, afirma. Crescer como ator e como ser humano tornou-se um processo inseparável. A intensidade com que se entregava às personagens foi o primeiro desafio: aprender a substituir o excesso pela subtileza.

Com o tempo, o ator apercebeu-se de que o trabalho emocional não se limita ao palco ou ao ecrã. É um exercício contínuo de observação do mundo e de escuta ativa. Tiago sublinha que a verdade interpretativa nasce, muitas vezes, dos pequenos gestos, daqueles que raramente são notados, mas que revelam quem somos. Foi essa atenção ao detalhe que lhe permitiu amadurecer como intérprete e encontrar uma voz própria dentro da profissão.

A televisão trouxe-lhe visibilidade com a personagem Crómio. O ator olha para esse período como um ponto de partida. Foi uma figura improvável que marcou uma geração e que se tornou parte da juventude portuguesa. O ritmo das gravações deu-lhe uma noção clara do que significa conhecer uma personagem “ao ponto de reagir sem pensar”, algo que tenta levar para o restante trabalho artístico.

Fonte: Número F

Entre câmaras, voz e escrita

Além da televisão, construiu também trabalho no cinema, sobretudo através da dobragem. Foi a voz de Cody em Dia de Surf, filme nomeado aos Óscares. A experiência marcou-o através da responsabilidade de criar uma personagem apenas com a voz, elemento que define ritmo, humor e caráter, servindo de base à construção do próprio filme.

Em paralelo, desenvolveu espetáculos próprios, como Daqui de Baixo e Agora no Outro Lugar. Estes projectos aproximaram-no de uma prática mais autoral e fizeram-no confrontar-se com interpretações que o obrigaram a ir mais fundo, com histórias de perda, mudança e fragilidade.

Essa dimensão autoral deu-lhe uma liberdade diferente daquela que encontrou na televisão e na dobragem. Ao escrever e interpretar as suas próprias peças, encontrou um espaço de experiências que lhe permitiu testar limites, questionar convenções e trabalhar a partir de memórias e inquietações pessoais. Esta autonomia criativa reforçou a sua convicção de que o ator é também um artesão de histórias, alguém que constrói, molda e reinventa formas de comunicar emoção.

O que falta ao cinema português

No contexto do Dia Mundial do Cinema, o ator defende que o cinema português precisa de se aproximar mais da realidade nacional. Para ele, as obras ganham força quando assumem a identidade local, como aconteceu com Rabo de Peixe, cuja autenticidade encontrou um público dentro e fora do país. Afirma que é necessário retratar temas, ambientes e linguagens que o público reconheça, não como estereótipo, mas como identidade.

Três filmes que o inspiram

No final da entrevista, Tiago Castro deixou três recomendações cinematográficas que considera referências pela forma como interligam emoção, estrutura narrativa e impacto: Dancer in the Dark, Interstellar e Regresso ao Futuro.

No Dia Mundial do Cinema, fica a ideia de que não vemos apenas interpretações: Vemos e sentimos histórias.

Fonte: Número F

Fonte da capa: Número F

Artigo revisto por: Carla Vitório

AUTORIA

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Estudante do 2.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial, Marta divide o seu tempo entre livros, maratonas de séries e sessões de cinema. Apaixonada por romances de todas as épocas e fã assumida das temporadas antigas de Morangos com Açúcar, também não resiste a um bom filme de terror. Agora como editora de Cinema e Televisão, está pronta para ouvir e partilhar as melhores séries e filmes de sempre.

Com 18 anos e vinda do Alentejo, a Marta está no segundo ano da licenciatura em Jornalismo na ESCS. Sempre de olhar curioso e mente inquieta, encontrou na ESCS Magazine um espaço onde pode explorar e partilhar o que mais a inspira. Começou como redatora nas secções de Cinema e Televisão e Música, e foi aí que descobriu o prazer de escrever sobre o que se vê e se ouve — e tudo o que isso pode provocar. Agora, como Editora de Artes Visuais e Performativas, continua a desafiar-se, procurando novas formas de olhar e comunicar o mundo artístico. Escrever é mais do que informar — é traduzir emoções.