Um país na roda do desenvolvimento, mas ainda não respeita a bicicleta
Nos últimos seis anos, houve inúmeros acidentes entre carros e bicicletas, alguns dos quais resultaram em vítimas mortais, em que o carro atropelou o ciclista.
Tem-se observado, com frequência, uma convivência difícil entre condutores e utilizadores de bicicleta nas estradas portuguesas. Constata-se este problema pelo facto de, nos últimos seis anos, terem morrido no mínimo 111 pessoas atropeladas enquanto circulavam em bicicletas. Facto este que não contabiliza todas colisões e atropelamentos ocorridos.
Fala-se muito em desenvolvimento sustentável e ações para reduzir a pegada carbónica, tais como a atividade Sobre Rodas, do Desporto Escolar, apoiada pelo Governo, que incentiva a mobilidade sustentável através da bicicleta. Apesar das iniciativas existentes, a utilização da bicicleta continua a enfrentar desafios relacionados com a falta de infraestruturas adequadas e de hábitos consolidados de mobilidade ciclável em Portugal.
Em Portugal, é frequente verificar que alguns condutores consideram que as bicicletas não deveriam circular na estrada, expressando, por vezes, essa opinião de forma negativa perante os ciclistas. No entanto, historicamente, o velocípede – designação original do veículo de duas rodas – foi um dos primeiros meios de transporte a utilizar a via pública. Além disso, a própria designação “bicicleta de estrada” reflete a sua adequação a este tipo de circulação.
Existem também ciclovias em Portugal. No entanto, muitas delas não reúnem as condições necessárias para a prática de ciclismo. Para além de serem em número reduzido, as vias pedaláveis em Portugal têm, muitas vezes, buracos, partes fraturadas e separadores de estrada inadequados. Estes separadores são frequentemente colocados de modo a não afetar a estrada, reduzindo o espaço disponível para a ciclovia. Importa ainda referir que a velocidade máxima de circulação é 20 km/h em vias que também são utilizadas por peões. Em Portugal existem cerca de 3.600 km de vias pedaláveis; já nos Países Baixos, existem cerca 153.000 km. Estes valores englobam vias separadas e partilhadas com a estrada.Portugal teve e tem grandes ciclistas, como Joaquim Agostinho (primeiro português a fazer pódio na Volta a Espanha e na Volta a França), João Almeida (primeiro português a alcançar o pódio na Volta a Itália e a conquistar as três principais voltas de uma semana do UCIWorld Tour numa só temporada), Rui Costa (primeiro português a envergar a camisola do arco-íris de campeão do mundo), Iúri Leitão (primeiro português a sagrar-se bicampeão europeu de Omnium, em pista), António Morgado (primeiro ciclista a tornar-se bicampeão da Clássica da Figueira da Foz, prova integrada no UCI Pro Tour), entre muitos outros talentos do ciclismo nacional.

Joaquim Agostinho e João Almeida, respetivamente
Fontes: Comité Olímpico Português e Museu do Ciclismo Joaquim Agostinho
Todas estas figuras do ciclismo nacional e internacional não alcançaram estes títulos a treinar no passeio ou no parque, com velocidades a rondar os 50 km/h, mas sim na estrada. Muitos deles já foram também atropelados, aconteceu com João António, da Aviludo Louletano, que foi atropelado e deixado à sua sorte.
Também Diogo Bicho, ciclista de 17 anos, foi atropelado juntamente com um colega de equipa durante um treino, em janeiro de 2025. Tomás Frade, o colega, agora com 18 anos, ficou em coma durante duas semanas, fraturou sete costelas e o úmero e sofreu um traumatismo craniano, tendo conseguido sobreviver. Já a história do jovem Diogo foi diferente. Não voltou a acordar, acabando por falecer aos 17 anos de idade.
Fonte: Cascais24Horas
É importante recordar que cada ciclista representa uma pessoa, com a mesma dignidade e direito à segurança que qualquer outro utilizador da via pública, independentemente do meio de transporte que utiliza. Diogo, além de praticante de ciclismo, era também estudante, colega, amigo e familiar – elementos que sublinham o impacto humano de cada vida perdida na estrada.
Para muitos ciclistas, a utilização da estrada não é apenas uma exigência prática para treinar, mas também uma forma de bem-estar e realização pessoal. Tal como outras pessoas se dedicam a diferentes atividades desportivas, culturais ou recreativas, o ciclismo constitui uma expressão legítima de lazer e esforço físico.
Como qualquer cidadão, ciclistas e cicloturistas têm o direito de usufruir da via pública em condições de segurança, sem colocar em risco a sua integridade física.
Fonte da capa: O Jogo
Artigo revisto por Carlota Lourinho
AUTORIA
O André tem 18 anos, está no primeiro ano da licenciatura de jornalismo, vive na Amadora, concelho que não é tão mau como muita gente julga. É um jovem curioso e passa grande parte do tempo a pensar no seu futuro e como gostaria de o viver, parecendo por vezes um bocado distraído, mas acreditem que está sempre atento ao que o rodeia. Gosta muito de se manter informado, atualizado, de interagir com outras pessoas e de ouvir as suas histórias. É um apaixonado pelo desporto em todas as suas vertentes, praticando natação desde os cinco anos e triatlo desde há três anos. Ele é sobretudo fanático por ciclismo e louco por bicicletas.


