Molly’s Game, um “orgasmo mental”

“Molly’s Game”, que estreou em Portugal no final do mês de Dezembro, é um drama criminal baseado em factos reais. O filme foi realizado por Aaaron Sorkin e retrata na perfeição a essência do mesmo. Sorkin é conhecido pelas suas adaptações de histórias verídicas em dramas extremamente ricos.

O filme acompanha Molly Bloom, uma esquiadora Olímpica e excelente aluna que, após uma juventude regrada, porém atribulada, acaba por passar uma década da sua vida adulta a organizar alguns dos jogos de poker mais exclusivos do mundo. Entre os seus jogadores encontravam-se estrelas de Hollywood, estrelas desportivas, titãs do mundo dos negócios e a máfia russa. Molly vê-se agora em tribunal, na cadeira de acusada, contra os Estados Unidos da América.

O ritmo alucinante que inicia o filme permite que, desde os primeiros minutos de “Molly’s Game”, mergulhemos na história como se estivéssemos de facto a vivê-la. Isto tudo sem ainda termos efetivamente conhecido a personagem principal, Molly.

Numa alternância entre o ritmo que quase parece demasiado lento e o seu contrário, que quase parece demasiado rápido, a ação desenrola-se num equilíbrio perfeito. Cada vez que pensamos que o ritmo está lento e há demasiado tempo, eis que o enredo parece que ouve os nossos pensamentos e decide acelerar inteligentemente.

Não é preciso ser um às para rapidamente perceber que este é um filme que necessita de toda a nossa atenção. Desde subtis piadas que se desenrolam ao longo do filme, a problemas mais graves que apenas no final são apresentados diretamente e sem artimanhas, qualquer breve distração pode fazer com que percamos um detalhe que nos será útil no futuro. Esta organização roça a perfeição. Toda a construção foi pensada até ao mais ínfimo detalhe. Cada emoção provocada em nós parece ter sido premeditada.

Jessica Chastain foi a escolha perfeita para o papel de Molly. A atriz continua a provar que não é só mais uma cara bonita e que, apesar da sua entrada tardia no mundo da 7.ª arte, veio para ficar. Conseguiu uma vez mais superar-se. Chastain consegue dar vida à escrita de Sorkin na perfeição. Dá ao público uma personagem feminina forte que, apesar disso, carrega consigo um grande leque de emoções.

Mas não é só disto que se faz um bom filme, e Sorkin sabe disso. O principal foco de todo o enredo será a relação entre Molly e o seu advogado, Charlie Jaffey (interpretado por Idris Elba). A dinâmica entre os dois é um completo espetáculo de talento.

Para os adoradores da série “Boston Legal”, poder-se-á dizer que temos em mãos mais um Alan Shore. Para os que neste momento estão a abanar a cabeça de forma confusa, isto significa que Idris Elba conseguiu parar-me o coração com uma fala merecedora de um Oscar. O seu momento de destaque é, sem dúvida alguma, na cena na qual defende Molly com tudo o que tem.

A forma como se desenrola o conflito entre Molly e o seu pai (interpretado por Kevin Costner) deixou-me desconfortável inicialmente. A cena final teve um desenrolar um pouco forçado. No entanto, isto não impediu que uma pequena lágrima me escorresse cara abaixo com o sentimental discurso do aparentemente arrogante e frio pai.

Apesar de não ser o melhor filme que já vi, “Molly’s Game” consegue estar bastante acima da média. De uma forma estranha, mas não má, manteve-me num estado de quase perfeita satisfação. Como se, a cada cena, se gerasse um ténue “orgasmo mental” (ASMR) que nunca se diluiu durante todo o filme.

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