Verão Danado: Por detrás de um filme, há sempre uma equipa

Verão Danado é o filme português do realizador Pedro Cabeleira, que arrecadou uma menção especial na categoria Cineasti del Presenti  (premeia as primeiras obras) no Festival de Locarno por esta longa-metragem.

Caso queiras saber a nossa opinião sobre o filme, está disponível no seguinte link:

http://escsmagazine.escs.ipl.pt/verao-danado-o-rosto-diz-tudo/

A ESCS Magazine teve a oportunidade de falar com o realizador Pedro Cabeleira, a diretora de fotografia Leonor Teles e as atrizes Lia Carvalho (Maria) e Ana Valentim (Tânia).

 

Rafael Correia (RC): Qual foi o momento mais marcante da rodagem e produção do filme?

Lia Carvalho (LC) – O momento mais marcante para mim foi a gravação da cena do beijo na cozinha, que não se vê. Não ficou. Foi cortada.

Ana Valentim (AV) –  Todas as duas cenas de festa: estar ali e tentar perceber se aquilo era realidade ou ficção; ter que estar mesmo muito concentrada; de repente, como estás num grupo de amigos, não chamar pelo seu nome mas pelo da sua personagem. Foi uma experiência muito interessante: conciliar as duas coisas; muita gente; a câmara em cima de ti…. Tens perceção de muita coisa.

Pedro Cabeleira (PC) – Eu não tenho um momento mais marcante que o outro. Foi uma grande massa para mim. Foi sempre uma espécie de estado de transe durante aqueles 7 meses. Mas houve um momento de que eu me lembro bem: estávamos a gravar o plano da Diana Narciso, o plano em que ela está com uma luz vermelha e imensas pessoas atrás. Eu lembro-me  de estar a ver isso pelo visor e acho que até estava a olhar para a Leonor (Teles), e estava a pensar – Ok. Está-se bem! . Foi um momento em específico de que me lembro que , de certa maneira, deixou-me um bocado tranquilo em relação a quase tudo. Aquilo foi uma coisa non-stop.

Diana Narciso

Leonor Teles (LT)  – Eu acho que partilho um bocado do sentimento do Pedro. Acho que foi tudo uma massa que não dá para uma pessoa… Sempre que estou a ver o filme , lembro-me sempre do que filmámos antes, depois e do que aconteceu nos intermédios. Mas se tivesse de destacar, destacava dois momentos: o jantar na casa da Clara, porque foram noites super fixes e também, lá está, devido ao encontro entre a Maria e o Chico; e depois,  para mim foi a cena mais hardcore de filmar até hoje, foi a festa na cave da casa. Foi uma triparia total. Não sabíamos metade do que íamos fazer. Só o Pedro é que sabia o que se ia passar, na cabeça dele, e depois era tudo ao sabor do vento. E aconteceu tudo. Foi a festa mais louca em que já estive. E não se pode esquecer que foi uma festa (gravada) em 4 noites.

PC – 4 noites. Festa Cigana. Não esquecer que aquilo era uma festa ficcionada.

LT –  Naquele momento em que tens o (João ) Robalo e o Luís (Magalhães) a reproduzirem uns sons para a malta entrar em transe: eu estava – O que é que está a acontecer aqui? Anda lá filmar com a câmara – e depois toda a gente a comer-se em cima da máquina de lavar. Está toda a gente maluca!

PC – Está tudo danado!

RC: Falando em “danado”, porquê o nome “ Verão Danado”, Pedro?

RC: Ana, sendo este um dos seus primeiros papéis no meio audiovisual, este projeto de algum modo ajudou-a a melhorar como atriz?

AV – Foi a minha primeira experiência em cinema e tirei muitas coisas dela . Principalmente , lembro-me perfeitamente de, no primeiro ensaio, estar a projetar demasiado. Estava a projetar e estava a ter noção disso. Claro que tu começas a perceber como as coisas funcionam. Estava muito habituada ao teatro: à maneira como se fala; aos gestos. Tudo era muito maior e tens que reduzir. Nesse sentido aprendi bastante. Retirei muitas coisas do filme depois para a minha vida e para as outras experiências na televisão e cinema. Foi a minha primeira experiência de todas e tive pessoas que me ensinaram.

RC: Já tinha intenção de enveredar por esta área ou sempre esteve focada somente no teatro?

AV – Eu desde os 14 anos que faço parte, mais ou menos, deste meio. Comecei a tirar um 10º ano relacionado com Artes do Espetáculo. Desde miúda, não sabia mas fazia coisas em casa e diziam: “Decide-te”. Como profissional, comecei com 16 anos e fazia muito teatro. Pensava no cinema, mas começas a ter noção que não depende de ti. Tens de trabalhar para isso e fazer por isso . Não foi uma coisa momentânea. Quando fui convidada para fazer este filme já estava na faculdade, já tinha feito outros projetos profissionais em teatro, claro. Depois as coisas crescem. É como um trabalho e é aquilo que quero fazer e todos os dias luto por uma oportunidade e trabalho para isso.

RC: Lia, apesar do pouco tempo em que a sua personagem apareceu, ela foi marcante. Porque é que acha que tal aconteceu?

LC – Acho que isso tem mesmo a ver com o guião. Acho que a personagem marca porque  de todas as pessoas que o Chico conhece é diferente. São todas diferentes. Eu acho que esta… Posso passar esta pergunta a outra pessoa?  Porque somos todos espetadores. Para mim, é difícil responder essa pergunta porque sou espetadora da minha personagem. Isso é um bocado complicado. Essa era uma pergunta mais fácil para o Pedro Marujo responder. Alguém me quer ajudar?

Lia Carvalho

PC – Pode ter um bocado a ver com a personagem da Maria ser um bocado o espaço de pertença dele, onde ele quer pertencer. O resto ele pensa que quer pertencer ali mas no fundo não quer. Mas a Maria é mesmo o que ele queria.

 

RC: O ideal?

PC – Sim. E o filme é um bocado sobre isso. Aquele momento dele e dela a ouvirem Variações é o sítio onde ele quer estar. O filme todo baseia-se na procura do reencontro desse sítio, que nunca vai conseguir reencontrar. Acho que tem a ver um bocado com isso. Também um bocado a ver com a Lia que faz um papel incrível ali. Acho que essas coisas também contam. Se fosse outra pessoa, se calhar não tinha esse poder e essa magia. Mas a Lia entrou mesmo bem na cena. E notou-se essa coisa de que ela está um bocado fora daqueles meios e daquele universo. Apesar de ser uma personagem bué reservada, é qualquer coisa que tu queres ter. Essas coisas não é só o guião. Também tem a ver com a magia dos olhares dela, com aquela presença que está só ali mas diz tudo. Grande parte disso é da Lia. O filme é um bocado construído para que aquilo seja onde ele quer estar. Eu sei que o filme parece não ter uma história mas o filme é um bocado essa história. Aquele momento é muito importante. Apesar de ser apenas vinte minutos / meia hora é super importante porque o filme é um bocado sobre isso. É a forma como o filme está construído e também pela magia da Lia.

RC: Leonor, quais foram os desafios que sentiu ao tentar transpor a visão do Pedro para a forma como o ambiente iria ser retratado?

LT  – Os desafios foram sobretudo questões técnicas, falta de meios, pouca produção e  fazer o melhor possível com o que tínhamos. Não tínhamos as condições ideais mas também aquilo que eu e o Pedro assumimos logo de início é que para este filme…. sendo um filme como este era, sendo rough, também não era preciso que fosse tudo perfeito, pelas regras, tudo tecnicamente impecável , não. Então assumimos logo de início que esse era o nosso objetivo… que a imagem estivesse de acordo com a vontade do filme e com o próprio estilo do filme. O resto foi um pouco jogo de cintura . Pedir material aqui e depois ali. Ir buscar a um sítio e devolver a outro e tudo um bocado boa vontade e espírito de equipa e entreajuda.

RC: Como é que se sentiram ao ver o filme, tanto tempo depois de finalizada a rodagem, Ana, Lia e Leonor?

AV – Nós filmamos isto em 2014. O Pedro foi nos pondo a par das coisas. Mas ver o produto final foi sobretudo assustador. Foi ótimo porque, de repente, estás ali e vês aqueles meses de trabalho, vês aquelas pessoas, a oportunidade que tiveram, o trabalho delas. O filme em si foi… Eu lembro-me de sair da antestreia do Verão Danado a tremer. Eu estava em êxtase. Super feliz. Foi a adrenalina. Foi incrível.

LC – Para mim foi uma surpresa. É sempre uma surpresa. Porque, apesar de tu saberes o que é que filmaste e, ainda por cima por passar tanto tempo, há muitas coisas que não te lembras que aconteceram, és surpreendido com essas coisas que já não te recordas…com essas memórias. Portanto é uma surpresa. Uma agradável surpresa. Porque existem más.

LT – No meu caso, fui acompanhando parte do projeto. Vi algumas montagens antes da montagem final. Acompanhei a correção de cor. Mas claro que é sempre uma surpresa quando vemos o filme pronto, numa sala gigante. No caso da estreia em Locarno foi um Verão Danado autêntico. Estava um calor do caraças. Senti-me mesmo feliz. Porra. Tivemos aqui 3 anos a trabalhar numa cena que o Pedro deu tudo de si e as pessoas acreditaram nele. Estava mesmo contente. Conseguimos! O meu sentimento foi: Conseguimos. Não foi impossível. Não foi uma maluqueira só por ser. Tinha todo o sentido para que aquilo acontecesse e aconteceu num sítio espectacular. Locarno foi o melhor sítio para este filme. Foi super fixe. O filme foi muito bem recebido e nós ficamos todos felizes e contentes.

LC –  Deixa-me só acrescentar uma coisa. Este filme é a prova de que “depressa e bem não há quem”. As coisas precisam de tempo porque se queres fazer as coisas bem tens que ter calma e ter paciência.

RC: Após um desafio desta magnitude, envolvendo mais de 150 atores, 43 dias de rodagem espalhados por 7 meses e mais de 400 dias de pós-produção, do que é que sente saudades no projeto, Pedro?

PC – De tudo. Sinto saudades de filmar outra vez e do processo de criação … de estares ali com uma família a criar. De repente há um filho: o filme que é um filho abstrato e está toda a gente a puxar por ele. Isso é altamente. Eu sinto sempre saudades de tudo. Não se vai voltar a repetir. Vai repetir de outra forma noutros projetos, mas agora adorava voltar a filmar. Ficas num transe . O teu corpo transforma-se , transfigura-se. A forma como tu sentes as coisas… A forma como tu começas a pensar na lógica das coisas…. Não é a mesma coisa que estar aqui no café. Entras ali num estado de adrenalina . É melhor que qualquer coisa que possas pensar nesta vida. É muito mais fixe a parte de fazer do que a de estar a receber os comentários sobre o que tu fizeste. É disso que tenho mais saudades neste momento. É de voltar a estar a fazer.

LC – Eu também tenho saudades. Eu também quero responder.

AV – Eu também.

LT – Nós temos todos.

LC – Eu tenho porque ainda por cima são projetos tão raros, que são realmente bons e em que tens espaço para criar. São tão raros que quando acontecem… Fogo. Queres mais e é claro que ficas com saudades. (Saudades) de uma coisa assim . Não é especificamente disto mas é de uma coisa assim.

LT – Tenho saudades da rodagem… de voltar a filmar.

RC: Se só pudessem definir o filme numa só palavra, o que diriam?

LC – Uma só mesmo? Só?

RC: É que se fossem duas dava o nome do filme.

LT – Eu vou dizer adrenalina.

AV: Tsch…

LC – Isso é uma palavra.

AV – Eu só consigo dizer Tsch…Mas vou continuar a pensar.

LC – Para de olhar para mim, Leonor.

LT – Eu estou a olhar para o título em cima.

LC – Pessoas.

AV – Juventude.

PC – Transe. Não sei.

AV – Esgotante.

PC – Porra.

LT – Porra é uma boa palavra.

RC: Pedro, às vezes não percebemos o que os atores dizem. Foi intencional? O que queria transmitir com isso?

PC – Há partes em que é suposto. (…) Nas festas tinhas que optar por um de dois caminhos: ou tinhas leitura no que diziam mas depois não engolias muito bem aquilo (…) A música a baixar de repente ou então as vozes sobreporem demasiado era uma coisa que não era natural e que não ia de encontro ao que estava a trabalhar no filme. Uma decisão que acabámos por tomar na mistura foi de que nas cenas das festas, tu estás a ouvir sons e há algumas coisas que vais retirando. Também porque os diálogos trabalham numa ideia de repetição. (…) como eles estão tão bem a representar as coisas através dos rostos, dos olhares, dos gestos, etc., as coisas estavam lá e não era preciso haver uma ideia de retórica. O filme não vai muito com a ideia de retórica. Mesmo quando há diálogos, são diálogos que não têm a ver propriamente com uma moral, com a narrativa do filme. O filme não é sobre a retórica, sobre o poder da palavra. O filme é sobre o poder de energias não, evidentemente, no sentido esotérico da coisa, mas tem um bocado a ver com a ideia de alma, com essa presença não tanto do que é que eles dizem mas do que pensam. Isso para mim não passava pelo diálogo. Nas festas é propositado. (…)  Quando tu estás numa festa, no teu ponto de vista sobre um acontecimento, não é nunca um ponto de vista auditivo sobre o que eles estão a dizer. É muito mais um ponto de vista visual. (…) Como é que estão a falar e não o que é que eles estão a dizer.

LC – Mas isso foi também um bocado da edição. A sensação que eu tenho agora é que o filme tinha muito mais diálogo do que se transformou no final.

PC – O filme tinha muitas cenas com diálogo mas depois na montagem percebeu-se que… (…) a essência estava noutras coisas e não tanto na palavra. A palavra não tinha muita força aqui. Era um bocado isso. Havia o diálogo da cozinha de que a Lia estava há  bocado a falar que foi cortado porque era uma coisa que te tentava meter mais sob uma espécie de tempo ou uma espécie de conflito do interior da personagem que tinha a ver com projeções de futuro e etc.

Foto dos bastidores da festa na cave

Isso acabou por ser cortado. Lá está! Não era o filme. Não era sobre isso. Era sobre este estado de espírito e o estado de espírito é mais… queria optar por descrevê-lo pela cena física e visual do que tanto pela cena oral. (…) A verdade é que, quando comecei a filmar, comecei a filmar cenas mais dialogadas e à medida que ia avançando, ia filmando cenas mais como as cenas das discotecas que é como também o percurso que o filme faz. Na discoteca também estão a falar mas maior parte das coisas que eles estão a dizer (…) era  improvisação pura e dura. A maior parte das conversas não tinha grande interesse. (…)  Depois na montagem , apercebemo-nos que os conflitos internos estavam a passar muito mais pela forma como eles se estavam a expressar e não tanto pela palavra. Mas depois corres o risco de que há muita gente que diz que o filme não tem psicologia. Para mim tem. Mas passa de outra maneira. Não há uma psicologia imediata.

LC – Eu acho que é como em tudo na arte. Quer tu queiras quer não eu acho que na arte, tu identificas-te ou não por mais que não queiras. Normalmente , se não  identificas algo como uma coisa  biográfica tua, crias logo um distanciamento e isso é normal. Às vezes também nos dá prazer a estranheza de alguma coisa que nós não conhecemos mas normalmente o que acontece é que, quando nós não conhecemos, não aderimos. Eu acho que a falta de psicologia ou não, que depois as pessoas veem ou não no filme, tem a ver um bocado com isso . É uma falta de identificação pessoal. Isso é perfeitamente normal. É por isso que nós nunca vamos agradar a todos. É impossível. Não vale a pena. E digo-te mais: quando as pessoas gostam todas da mesma coisa é estranho. É muito estranho. É muito esquisito.

RC: O que é que acham que falta ao cinema português para apelar mais ao público?

AV: Não sei se é o cinema português se é o público. Não podemos pôr tudo no mesmo saco. Nem sei se é em relação ao cinema se é ao público. Acho que tem a ver muito com o que a Lia disse há pouco: se identificam-se ou não. Não sei se tem mesmo a ver com o cinema ou se tem a ver com o público, se com a publicidade das coisas, se com o interesse pelas coisas. Depois se vão ver ou não é a opinião delas. Não sei se tem a ver com o cinema português em si. Lá está! Há surpresas boas e há surpresas más. Mas acho que tem a ver muito com, provavelmente, o país, com as suas preferências e com aquilo que foi sempre mais publicitado. Acho que o cinema comercial ou americano parece que é a cultura portuguesa, sem querer. Na minha opinião acho que não é o que faz falta ao cinema português. Isso depois cabe a cada um responder a sua opinião sobre isso mas geralmente falando tem mais a ver com isso.

LC: Das várias coisas que acho que faz falta ao cinema português e ao público também, como a Ana diz, eu queria só dar um exemplo. Queria partilhar convosco uma coisa muito concreta que é: tenho um amigo meu que é a pessoa que eu conheço que vê mais cinema e ele aqui há duas semanas foi ao Monumental para aí umas quatro vezes seguidas, 4 dias seguidos e de todos os filmes que ele foi ver, nunca viu o trailer do Verão Danado. Para mim isto é grave. É gravíssimo. Isso é uma das muitas formas básicas com que tu atrais público, é passares o trailer. Uma coisa tão simples quanto isso. E não passares na cadeia de cinemas em que o filme está a passar, acho estranhíssimo e é grave.

AV – É impressionante eu acho….Talvez eu esteja muito mal informada. Não sei. O pouco investimento que há de nós para nós e isso também é um problema.

LT : Essa pergunta vai ser sempre complicada. Há 3 fatores a ter em conta. Um deles é um bocado a ideia geral de que o cinema é só entretenimento. Eu vejo isso na minha própria casa, quando estou a tentar impingir outro tipo de filmes aos meus irmãos e eles estão : “Ahh. Não quero nada disso.” É sempre uma luta muito grande para isso. Acho que isso parte sobretudo também da educação e para algo que não existe nas escolas que é a educação do público para, não só para o cinema, mas para qualquer tipo de arte. Porque aquilo que tens em português é irrisório e ridículo. ( …) Enquanto aqui só há as matemáticas e as ciências… Não estou a dizer que não é importante. Eu vim de ciências. Mas atenção, nem sequer tirei artes. Enquanto não houver uma predisposição das pessoas para a cultura e a arte , que são tão fundamentais quanto as ciências e a matemática, as pessoas nunca vão dar importância ao cinema.
Há outra coisa que eu acho que é o preconceito que existe contra o cinema português, que é chato. Mesmo com essa coisa do “É chato” e do “Não se passa nada”, as pessoas mais novas, como é o caso do Pedro e de outros casos, fazem outras coisas assim (que eu, pelo menos, não considero chatas e gosto bastante), ficam logo queimadas porque existe este preconceito de que tudo o que é cinema português é chato e aborrecido. Os mais novos acabam por não ter nenhuma oportunidade junto do público.
Depois claro está é a publicidade que não existe. Enquanto não tiveres um filme português a abrir telejornais ou a fechá-los, como os americanos conseguem, como é que tu convences as pessoas a irem ao cinema? Ou seja, o tempo gasto que existe para um filme estrangeiro é sempre muito superior a um português e depois existe outro caso que é as pessoas normalmente aderem a coisas que são telenovelas num ecrã grande. Tens o caso do Pátio das Cantigas. Nada contra mas…

Eu acho que também não há propriamente um investimento na produção e distribuição dos filmes e tens filmes que entram na NOS que estão em 15/20 salas no país inteiro e depois tens filmes que estão duas semanas em 2 salas no país inteiro. É impossível competir contra isto.

PC – É uma questão muito complexa. Não tem a ver com os filmes serem portugueses ou não. Os filmes portugueses são supostamente apelativos: O Pátio das Cantigas; agora O Fim da Inocência.

LT – Mas O Fim da Inocência fez muito espetadores. Foi o filme mais visto do ano. PCO Pátio das Cantigas fez 600 mil. Tem a ver, primeiro, com uma questão de paladar. Estás habituado a ir um café e bebes o café daquele sítio e de repente esse café fecha e vais ao café do lado, e o café do lado não sabe tão bem independentemente se é pior ou melhor. Tem um bocado a ver: as pessoas estão habituadas a uns determinados hábitos de consumo e o que eu acho é que é difícil atribuir culpas a quem quer que seja mas é o que eu senti agora com este processo. Eu senti que o maior problema não está efetivamente no público. Esta um bocado a ver com o preconceito dos canais de distribuição e de exibição e de haver um monopólio de um canal de distribuição, quando toca ao cinema, que não é arrojado, super conservador, que tem poucas ideias e que condiciona imenso a exibição dos filmes.
O país já é pequeno. Faz-me confusão que … Multiplex deveriam ter uma quota de filmes diferentes. O que acontece é que os canais de exibição estão a apelar aos gostos comuns e toda a gente tem os seus gostos comuns e os específicos. O que eu sinto é que as pessoas não podem consumir os seus gostos específicos e não podem sequer perceber que gostos específicos é que é que têm e aprimorá-los, pelo menos quando toca ao cinema , porque não existe essa oferta. Eu acho que não só tem a ver um bocado com a mentalidade das pessoas. Tem que haver uma estrutura maior que consiga ombrear com este monopólio, que dê oportunidade às pessoas de explorarem os seus gostos específicos. O mesmo se passa com a televisão. A televisão cá é altamente conservadora, atrasada, pouco inovadora, pouco arriscada. Nós temos gente cheia de talento cá, no que toca ao audiovisual e cinema, pessoas com ideias que estão constantemente a serem castradas pelas janelas de exibição. Depois, nós próprios somos vistos como marginais. O filme é exibido e posto como uma coisa marginal. A partir do momento em que és visto como marginal pelas pessoas fora da tua área, é difícil depois o público também criar empatia com isso. Não há promoção ao meu filme. Também não há estruturas que consigam pensar uma estratégia para promover bem o meu filme porque depois não tens janelas de exibição para o fazerem.

Foto dos bastidores

LT – Não é bem assim. Eles têm. Tens um caso, foi o São Jorge. Mas foi o único.

PC – Primeiro o São Jorge é um filme muito mais comercial.

LT – Eles não querem. A NOS não quer. Se eles quisessem pegavam no filme dele e punham-no em 15 salas. Não sei quais eram as contrapartidas. Mas eles é que não queriam. Para eles não interessam.

PC São Jorge, quer queiras quer não, é sempre uma coisa mais comercial e é…

LT – Eu não concordo nada com isso do comercial e do.. Tu queres que o filme seja comercial ou não? Não queres que as pessoas vejam?

PC– Claro. Mas os filmes de autor… Mas este tipo de filmes, se isto fosse uma coisa saudável, deverias de esperar entre 20 mil e 50 mil espetadores e o que acontece é que tu esperas entre mil e 5 mil. Isso é efetivamente o problema. Tens casos excecionais como é o São Jorge que consegue 40 mil, mas à parte disso … São Jorge apesar de tudo foi distribuído pela NOS.

LT – Toda a parte de divulgação foi incrível. Muitos posters. A divulgação foi… Mas foi uma vez sem exemplo.

PC – Devia de haver mais a aposta que fizeram no São Jorge noutros filmes . Eu sei que o meu filme não é uma coisa que vá apelar a muita gente . Mas se estivesse em mais salas e com outra promoção… Não ia fazer 600 mil como o Pátio das Cantigas, isso é certo. Mas conseguir 30 mil e 40 mil a ver. É claro que dessas pessoas  nem toda a gente iria gostar dele. Mas pelo menos 10 mil a 15 mil pessoas iam sentir qualquer coisa com aquilo e iam se calhar gostar.
Estamos num país com 10 milhões de habitantes e não acredito que em 10 milhões de habitantes não houvessem 40 mil pessoas que não quisessem ver este filme. O mesmo passa-se com outros filmes. É muito complexo tu conseguires lutar contra isto. Acho que não é a mentalidade do público. É a mentalidade de quem tem o poder porque o público não tem o poder. Quem tem o poder são as pessoas que estão a gerir isso. Eu acho que o problema do cinema cá advém do problema da televisão, que é o que faz com que as pessoas só queiram ver telenovelas passadas para o  grande ecrã. A televisão deveria ser muito mais arrojada. O que eles têm a perder? Só existem quatro canais generalistas. Deviam ser muito mais inovadores. A partir daí, as pessoas também conseguiriam consumir outro tipos de filmes. Ligas os três canais e está a passar a mesma coisa às 9, 10 da noite. Parece que toda a gente tem medo. Ninguém tem amor a criar.

 

Todas as fotos e imagens foram providenciadas pela produção do filme.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *