Grande Entrevista e Reportagem

25 de Novembro: Cinquenta anos de memórias vivas e debates inconclusivos

Os 50 anos do 25 de Novembro de 1975 criaram grandes debates em Portugal, opondo forças políticas quanto à real importância desta data e à forma como deve ser comemorada. Alguns defendem que deve ser equiparada ao 25 de Abril. Outros consideram que tal equivalência seria uma afronta ao dia que instaurou a liberdade no país. 

A Fundação Calouste Gulbenkian organizou o Seminário “25 de Novembro, 50 anos depois”, que aconteceu entre os dias 24 e 25 desse mês. O encontro contou com a participação de alguns dos protagonistas diretos destes acontecimentos, bem como de investigadores e estudantes académicos que têm vindo a estudá-los.

Isto é História, mas muito atual!

Depois do 25 de Abril, Portugal viveu um período de grande instabilidade política. No contexto do PREC (Processo Revolucionário em Curso) surgiram vários confrontos entre forças políticas e militares, que não chegavam a consenso quanto ao modelo político que deveria governar o país. Este clima de conflito culminou no chamado Verão Quente de 1975, que aumentou a tensão entre a extrema-esquerda e as forças mais moderadas e conservadoras.

O 25 de Novembro resultou deste clima de inquietação nacional. Paraquedistas com ligações à extrema-esquerda ocuparam quatro bases da Força Aérea e o Comando Operacional em Monsanto. Os Comandos, a Marinha e o Grupo dos Nove, liderados por Melo Antunes, tiveram um papel decisivo a evitar uma guerra civil e a consolidar o caminho para uma democracia pluralista e representativa.

Com os 50 anos do 25 de Novembro, a disputa sobre aquilo que esta data deve representar no país levantou grandes debates. Partidos de direita, como o CHEGA, o CDS, o PSD e a IL, defendem que o 25 Novembro é a verdadeira garantia da liberdade e que salvou o país de um regime autoritário de esquerda, considerando, por isso, que a sua importância e comemoração devem ser equiparadas às do 25 de Abril. Em contrapartida, o PCP, o BE, o Livre e o PS opõem-se às pretensões dos partidos de direita, alegando que estes estão a desvalorizar o 25 de Abril e, em casos mais extremos, a usar esta data para promover os seus partidos e desvalorizar os da esquerda democrática.

Fonte: Érica Gregório

Cicatrizes que nunca desaparecem

Na terceira sessão do dia 25 de novembro, na Gulbenkian, o painel composto por Helena Roseta, Nuno Santos Silva, Mário Tomé e José Sanches Osório, com moderação de Nuno Ribeiro, apresentou diferentes perspetivas sobre os acontecimentos. Pessoas reais que viveram o período de repressão, autoritarismo e injustiça que foi o Estado Novo e que, hoje, parecem ter uma palavra a dizer sobre o Dia da Liberdade e sobre a data comemorativa (o 25 de Novembro).

Se houve algo que marcou a sessão foi o confronto direto de visões sobre o papel do povo e dos militares na História. Mário Tomé manteve o seu tom crítico, afirmando que “«o povo unido jamais será vencido» é a maior aldrabice que existe”, e defendendo que, na realidade, são sempre minorias organizadas – a que chamou elites – que determinam o rumo dos acontecimentos. Reafirmou que o 25 de Novembro foi protagonizado por “militares moderados, mas socialistas” e deixou ainda um aviso para o presente: ”as leis devem ser alteradas conforme a sociedade evolui”. A sua intervenção, marcada por referências históricas e memórias pessoais, como o facto de ter estado preso na mesma cela que Silva Pais, antigo diretor da PIDE, gerou desconforto e reações visíveis na plateia.

Em contraste, Helena Roseta respondeu diretamente a Mário Tomé em defesa das massas populares. “O povo não é uniforme e não é ordinário (…) o povo é extraordinário, damos lições de solidariedade, de fraternidade, como eu nunca vi”, afirmou, recebendo fortes aplausos da audiência. Assumindo que esteve ao lado do Documento dos Nove, mesmo sem concordar com todos os seus pontos, sublinhou que sempre procurou estar “do lado mais fraco”. Cinquenta anos depois, mostrou-se grata por poder participar num debate livre. 

“O que estamos a viver no mundo e em Portugal, de uma maneira muito óbvia, é um processo de desconstrução da democracia”, afirmou a ex-deputada, alertando para o papel crucial da Inteligência Artificial e de ferramentas de comunicação nesta desconstrução. Entre recordações pessoais, apartes do público e trocas de argumentos mais tensas, ficou claro que o 25 de Novembro de 1975 continua a ser matéria de debate político e social, mobilizando tanto quem o viveu na primeira pessoa como quem, anos mais tarde, procura compreender e estudar a data.

Fonte: SIC Notícias

A visão de um Presidente

No final do dia, o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, marcou presença na Fundação Gulbenkian expondo, num discurso, a sua perspetiva sobre a comemoração do 25 de Novembro. Sublinhou que a ideia de celebrar esta data surgiu há cerca de um ano e meio e que, já na altura, se verificou um intenso debate sobre se a comemoração deveria ser anual ou apenas em aniversários significativos. A primeira opção acabou por prevalecer, tendo o 49º aniversário sido assinalado em 2024. 

Marcelo Rebelo de Sousa destacou que “no percurso que vai de 25 de Abril até ao 28 de Setembro é evidente que em torno do Presidente Spínola confluíram vários partidos” com “leituras diferentes” de como o país deveria ser governado daí em diante. O 25 de Novembro representou, segundo o Presidente, o culminar dessas tensões entre os partidos.

O Presidente não escondeu a sua afetividade com o 25 de Abril e apelou a que “aqueles que tiveram um papel no passado valorizem esse passado”, de modo a  ensinarem esse conhecimento às novas gerações. Em altura de eleições presidenciais e a meses de encerrar o seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa relembra que os princípios e valores da constituição, “fundamentais para a democracia”, devem ser mantidos e preservados. 

“Uma maneira de servir Abril é, de facto, continuar a manter viva a mensagem de Abril”, foi a frase escolhida para terminar o seu discurso, fortemente aplaudido pela plateia.

Fonte: Agenda/seminario_25 de novembro, 50 anos depois

Fonte: Barlavento

O seminário organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian mostrou que, passados cinquenta anos, o 25 de Novembro de 1975 continua a provocar reflexão, debate e discordância em torno da sua celebração. Entre memórias pessoais, interpretações históricas e análises políticas, ficou evidente que muitos se preocupam em proteger os valores deixados pelos heróis do 25 de Abril de 1974 e que as novas gerações devem reconhecer a sua importância para que não se percam.

Fonte da Capa: Érica Gregório

Artigo corrigido por: Leonor Almeida

AUTORIA

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Vinda da zona de Peniche, da sua tão adorada localidade de São Bernardino, a Érica veio parar a Lisboa, à ESCS, com o grande objetivo de estudar e de se tornar uma boa profissional na área do jornalismo. Desde pequena sempre adorou escrever e comunicar e acredita que há sempre coisas novas para aprender sobre o mundo que a rodeia. Gosta muito de conviver com a família e os amigos e está sempre aberta a conhecer pessoas novas. Tem uma “obsessão” saudável por cookies e ambiciona viajar para todas as partes do mundo. Com o lema “se te faz feliz, é porque vale a pena” bem assente, está pronta para arriscar, falhar e aprender com os erros as vezes que forem precisas para alcançar os seus objetivos e sonhos.