Nós contra o Mundo: as gerações jovens e a Saúde Mental
Ainda bem que a saúde mental se tornou um tema recorrente. Estamos cada vez mais conscientes de todos os desafios que grande parte da população enfrenta e isso, espero eu, é um indício encorajador de que a sociedade se está a tornar cada vez mais compreensiva.
Nunca se escreveu nem se falou tanto sobre saúde mental. O tema multiplica-se por livros e podcasts, e tem-se tornado uma constante no nosso quotidiano, mas esta abundância de informação e perceção otimista de avanço social pode não se traduzir num desenvolvimento efetivo.
O relatório Global Mind Health 2025, da organização Sapien Labs, indica que a saúde mental dos jovens portugueses, seguindo a tendência europeia, é pior do que a das faixas etárias mais elevadas, nomeadamente a dos adultos com mais de 55 anos.
De acordo com este relatório, os jovens adultos entre os 18 e os 34 anos “experienciam mais desafios de saúde mental clinicamente significativos”.
Neste caso, a explicação mais óbvia pode mesmo ser a resposta. A dependência do digital, com todas as suas consequências, pode ser a causa de uma geração mais ansiosa e deprimida; mas será a única?
É preciso ter em mente que os jovens adultos, em Portugal, enfrentam uma gigantesca crise habitacional e não só. A inflação, o perigo da guerra, a conjuntura internacional caótica liderada por homens inaptos e irresponsáveis e as alterações climáticas, entre outras, são apenas algumas das preocupações que nos atormentam. Se é certo que as gerações mais velhas também sentem estes problemas, as mais jovens temem que isto seja apenas o início, o rastilho de uma bomba ainda por explodir.
Há ainda o facto de os jovens adultos terem passado pela pandemia de COVID-19 em anos muito importantes a nível de desenvolvimento pessoal, o que pode ter prejudicado em larga escala o seu bem-estar e a sua adaptação ao mundo “real”.
Para fugir a tudo isto, muitos escolhem refugiar-se na internet, mas também por lá são muitos os perigos, como o ódio generalizado, os padrões de beleza irrealistas, a pornografia e a violência. Corremos o risco de ficar viciados, de nos desconectarmos da realidade e de perdermos a nossa vida social.

Há muitos casos em que a saúde mental é perturbada por desequilíbrios mais internos, congénitos ou genéticos, cuja normalização é um passo importante para que haja cada vez mais conhecimento e aceitação. Felizmente, por norma, já não se fala em “malucos” ou “loucos”, pelo menos não no sentido pejorativo que as palavras adquiriram.
Os avanços no campo da psicologia têm permitido compreender que a nossa psique é muito mais complexa do que aquilo que podemos sequer conceber sem anos e anos de estudo. Ainda assim, existem muitos preconceitos em desconstrução. A medicação para os distúrbios mentais, por exemplo, ainda é vista como um tabu, uma medida extrema ou de último recurso, quando, muitas vezes, é benéfica e, em alguns casos, imprescindível.
No meu entender, o caminho faz-se através da consciencialização e do debate público. Se continuarmos a falar sobre saúde mental, sobretudo na primeira pessoa, através de testemunhos sinceros, estaremos a construir a base para uma futura geração mais informada e, consequentemente, mais saudável.
Somos reféns do mundo em que vivemos, mas não estamos de mãos amarradas. Podemos lutar pelo bem da nossa geração e, mais importante ainda, podemos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance para ajudar o próximo. Podemos ligar aos nossos amigos, familiares e conhecidos e combater a solidão, estar juntos fisicamente sempre que possível, abraçar quem amamos, aconselhar como bem soubermos ou só ouvir. Estar, em silêncio, a ouvir quem precisa de libertar uma angústia é um dos maiores atos de generosidade e amor.

Podemos ainda recomendar ajuda profissional, porque há problemas demasiado complexos ou intensos para os nossos conselhos de amigo. Zelar pelo bem-estar físico e mental de alguém nunca pode ser visto como uma fraqueza.
É ainda preciso ter cuidado com “gurus de autoajuda” que indiquem passos fáceis para a felicidade. Já nem todos os que se pronunciam sobre um tema são especialistas e é crucial escolher as pessoas certas a quem dar ouvidos. A confiança em excesso nestes falsos mentores pode culminar na automedicação ou na desvalorização do problema, o que só trará malefícios.
O mundo é um lugar feio, violento, vulgar, melancólico e assustador, mas é também o lugar mais belo, risonho, divertido e inspirador que conheço. Para além disso, é, por acaso, o local onde vivem todas as pessoas que amo. É a isso que me agarro: à beleza nas coisas ordinárias, à perspetiva de aventura e ao amor pelo incerto e pelo inesperado. Isto pode não dizer nada a alguns, mas acredito que todos terão a sua própria luz ao fundo do túnel, pelo menos é nisso que escolho acreditar.
Deixo alguns contactos que podem ser úteis caso precises de pedir ajuda:
SOS Voz Amiga: 213 544 545
Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico: 1411
Telefone da Amizade: 22 832 35 35
Linha Lisboa Liga-te: 800 916 800
Fonte: Freepik
Artigo corrigido por: Beatriz Mendonça
AUTORIA
O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.

