Opinião

Touradas: até onde estamos dispostos a ir para preservar a cultura?

A Tourada é uma tradição divisiva em Portugal. De um lado, os que acham que se trata de um evento com grande relevância cultural; do outro, os que consideram tratar-se de um ato violento, atroz e imperdoável.

O que raramente acontece é a tentativa de compreensão de parte a parte, o diálogo refletido e moderado. As narrativas de cada lado da barricada divergem tanto que parece que falam de coisas diferentes. Os aficionados louvam o espetáculo, a arte e a cultura, enquanto que os críticos falam em tortura, violência e barbaridade.

Os argumentos chegam a ser contraditórios. Para uns, a população portuguesa demonstra ser a favor do toureio; para outros, a grande maioria é contra. Tudo depende das sondagens e dos estudos que são usados e cada lado escolhe os resultados mais favoráveis à sua visão.

Torna-se difícil termos opiniões informadas quando a informação é tão filtrada e envenenada por preconceitos de ambos os lados.

Para os aficionados, a tourada garante a sobrevivência do Touro Bravo; para os críticos é perfeitamente possível assegurar a manutenção da espécie sem as touradas. Segundo os fãs deste espetáculo, os touros são tratados com respeito e dignidade e admirados pela sua bravura; de acordo com quem é contra estes eventos, os touros são maltratados, humilhados e violentados.

Fonte: Unsplash

Compreendo que cresci num ambiente no qual a tourada nunca foi um assunto, nunca surgiu como um evento recreativo ou cultural, pelo que é normal que nunca tenha sentido vontade ou necessidade de ir a alguma. Em toda a minha vida presenciei apenas uma tourada e recordo-me do quão chocante foi a experiência. Era ainda bastante novo e a visão do sangue a escorrer pelo dorso do animal marcou-me muito negativamente. Por outro lado, é razoável assumir que, se tivesse crescido numa atmosfera na qual as touradas fossem algo banal, teria outra opinião. Muitos dos trabalhadores deste setor exercem as suas funções por paixão. É muito fácil escarnecer dessa paixão quando nunca a pude sentir em primeira pessoa. O envolvimento ambiental e sentimental pode não justificar toda a violência e desrespeito pelos direitos dos animais, mas, no meu entender, deve levar-nos a tentar compreender a tauromaquia sem juízos de valor à partida.

Dito isso, é-me impossível não condenar todo o sofrimento causado aos touros e até aos cavalos durante a lide. Nas touradas, o sofrimento começa desde logo pelo stress sentido pelos touros ao serem afastados da sua manada, colocados em camiões e transportados para a praça de touros. Ao longo da sua vida e da sua prestação durante a tourada, os touros são embolados e submetidos à ferra, aos treinos dos cavaleiros tauromáquicos, às tentativas e às investidas sangrentas dos cavaleiros com recurso a diferentes tipos de ferros e arpões. Os cavalos são também alvo das esporas do cavaleiro e dos ataques do touro.

Será que as touradas são cultura? Eu diria que sim, são de facto uma cerimónia que agrega história e costumes, juntando a comunidade. Na tourada concentram-se inúmeros aspetos únicos, dos trajes às performances artísticas, passando por toda a estrutura do ritual. Para mim, a tourada é, realmente, património imaterial, mas isso não significa necessariamente que deva ser mantida.

O espetáculo é efetivamente sangrento e desrespeitoso para com o bem-estar animal. O que nos deve levar a questionar se não será possível chegar a uma forma mais humana de cultura taurina.

Fonte: Pixabay

Os aficionados vêem a Tourada como uma demonstração de coragem do cavaleiro, que se submete à força e selvajaria do touro, mas é difícil não ver todo o espetáculo como uma afirmação do domínio do Homem sobre o animal, chegando a parecer uma matança glorificada.

Penso que tem de ser possível que a cultura evolua e, nesse sentido, acho que se pode conceber uma forma de homenagem ao touro que não envolva a sua chacina. Não pretendo desrespeitar de modo algum os apreciadores das Corridas de Touros, pelo contrário, gostava de perceber o seu gosto até porque considero que todos, quer aficionados quer críticos, devem fazer parte da discussão.

A indisponibilidade para sequer considerar as diferenças culturais revela uma falta de empatia estrutural que não resulta, na minha opinião, em nada de bom. É, pelo contrário, contraproducente.

Penso que tem de haver um grande esforço para promover o diálogo e a intercompreensão, e julgo que não podemos ser taxativos ao falar de cultura. A cultura é um elemento social dinâmico e em constante mudança que tem de ser respeitado, mas também interpretado à luz de diferentes tempos, evoluindo, se necessário.

Fonte: Unsplash

Artigo corrigido por: Mariana Rocha

AUTORIA

+ artigos

O André é um orgulhoso buraquense, movido a café. Começou este ano a licenciatura de jornalismo na ESCS e o seu percurso na Magazine. Adora sol, mar, churrasco, convívio, rock, humor e livros. Preza, sobretudo, o amor pela escrita e a vontade de marcar a diferença um dia, contribuindo um bocadinho para um mundo melhor.
Na ESCS Magazine vê uma oportunidade de aprender e arriscar.