Opinião

A alergia ao “não”

Muitas vezes surgem questões na nossa vida que variam desde coisas mais básicas, como fazer o jantar ou mandar vir take away, até questões mais profundas que podem alterar significativamente o nosso dia. Hoje queria falar das respostas a essas perguntas, mais especificamente quando são utilizadas as palavras “sim” ou “não”, que, apesar de serem relativamente simples, podem trazer muita emoção por trás. 

A palavra “sim” está muitas vezes associada a situações e sentimentos positivos, que transmitem conforto e segurança a uma pessoa, enquanto o “não” trás consigo mais incerteza e negatividade, fazendo com que o seu uso gere maior desconforto e incerteza nas pessoas.

Fonte: Freepik

Um exemplo: um amigo manda-te uma mensagem de manhã a convidar-te para sair mais tarde. Sabes que vais ter um dia muito longo pela frente e tens noção de que, quando chegar a altura, muito provavelmente estarás demasiado cansado para isso. Outra possibilidade é a de que, sem justificação aparente, não te apeteça sair naquela altura. Todas estas justificações são válidas e compreensíveis, por isso não devias sentir receio de dizer isto ao teu amigo, certo? Mas, se olhares para trás e recordares todas as vezes que isto aconteceu na tua vida, qual das opções aconteceu mais vezes? 

Opção A: Mandas mensagem ao teu amigo a dizer que não queres sair hoje e que não te apetece. 

Opção B: Inventas uma desculpa qualquer para evitar ser honesto. 

Opção C: Concordas em ir e, ao final do dia, estás a escolher um outfit e a preparar-te para sair, contrariado.

Todas estas opções devem ser-te familiares. É normal que a mais favorável possa variar de pessoa para pessoa ou de situação para situação. Apesar disso, ao observar o mundo à minha volta, acho válido dizer que a maioria das pessoas considera as opções B ou C como as mais seguras de se usar.

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Já há alguns dias que tenho feito umas perguntas a mim próprio: o que é que têm elas de tão seguro? E por que é que as pessoas olham para a honestidade com tanto desdém? Por que é que temos tanto receio em dizer pura e simplesmente não, sem mais nada a seguir, sem nenhuma mentira a acompanhar? Talvez seja pela conotação negativa que a palavra tem: não queremos parecer rudes, não frios, nem  queremos desvalorizar os sentimentos e necessidades dos outros. Ele teve o trabalho de nos convidar e, no final das contas, fica mal recusar dessa forma. Mas agora pergunto: e então as nossas necessidades? E então os nossos sentimentos? Não merecem o mesmo nível de atenção? Desde quando é que os nossos motivos têm de ser reprimidos só porque podem não ir de acordo com o que os outros pensam? Escrevo isto para refletir sobre o assunto; talvez até dê mais coragem às pessoas para refutar esse “medo” natural da palavra não. Eu acredito que os nossos princípios e limites devem ser valorizados e respeitados, tanto pelos outros como por nós próprios. Talvez, se fizermos um esforço, quando a pergunta chegar e finalmente respondermos com um grande e redondo não, vamos descobrir que afinal a palavra “não” não é um bicho de sete cabeças, mas sim uma forma de autocuidado e expressão como todas as outras.

Fonte da capa : Unsplash

Artigo revisto por: Ariana Valido

AUTORIA

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O Bernardo tem 18 anos e está no primeiro ano de jornalismo. Já percorreu muitos sítios, mas atualmente chama a Malveira de sua casa. Pensa em si como uma bomba de curiosidade, sempre pronto para aprender e experimentar coisas novas. É uma pessoa leal, um bom ouvinte e está disposto a defender e proteger os seus até ao fim. É apaixonado por filmes de terror, videojogos, música, história, livros e é claro, a escrita. Viu na Magazine uma chance de partilhar com os outros um dos seus maiores gostos, e mal pode esperar para descobrir as aprendizagens e oportunidades que esta pode trazer.