Take 2: Sessão especial de “La Grazia”
Nasce uma nova rúbrica em parceria com o programa “De olhos bem abertos”, da ESCS FM. Uma ligação entre dois formatos que se complementam e abrem espaço para conversas sobre o melhor do cinema. O que é discutido no programa passa agora também a poder ser lido e relido.
Este primeiro artigo parte de um episódio fora do comum, sobre uma sessão única que levou a equipa do programa “De olhos bem abertos” diretamente para o auditório Fernando Lopes, na Universidade Lusófona, no âmbito da 19.ª Festa do Cinema Italiano. No espaço enunciado, foi possível visualizar “La Grazia”, a mais recente longa-metragem de Paolo Sorrentino, numa iniciativa organizada pela Risi Film, empresa responsável por dinamizar a presença do cinema italiano em Portugal e no Brasil.
Fonte: André Correia
Um filme sobre escolhas
O protagonista, Marino de Santis, é apresentado como um presidente cristão que vive os últimos seis meses de mandato. À primeira vista, a premissa poderia apontar para um filme apenas político, mas Sorrentino transporta a narrativa muito para além disso. O foco da história está no conflito interior, na dúvida, no peso das escolhas e na dificuldade de agir quando tudo parece suspenso entre a razão e a emoção.
Neste episódio especial, o filme é descrito como “sóbrio e intimista sobre dilemas morais existenciais”, não tratando apenas de decisões políticas, mas também da dificuldade em lidar com o passado, com a culpa e com a necessidade de seguir em frente.
Marino de Santis surge como um homem dividido entre o que foi e o que ainda pode vir a ser, preso num “impasse perpétuo” que atravessa toda a narrativa.
Fonte: Andrea Pirrello
Entre a razão e a emoção
Uma das ideias mais fortes está na forma como o filme coloca lado a lado a razão e a emoção. No programa, é referido que “a razão é importante, mas a emoção também”, e é essa tensão que torna “La Grazia” tão interessante. O filme mostra como uma visão demasiado rígida da vida pode afastar-nos daquilo que somos verdadeiramente.
Nesse sentido, a personagem principal vive num estado de bloqueio entre o medo de errar e o receio de não deixar o legado certo. Essa sensação faz com que o conflito emocional pese tanto quanto qualquer decisão política.
Amor, catarse e decisão
Sorrentino constrói um enredo que vai para além do retrato de um presidente no fim do mandato. O episódio sublinha que esta obra é, acima de tudo, uma história sobre “o amor e sobre a procura e descoberta da catarse”. Existe, ao longo da análise, uma ideia de reconstrução, de coragem e de leveza.
Esta visão confere ao filme uma perspetiva mais ampla: não se trata apenas de cumprir deveres, mas de perceber o que é “verdadeiramente” correto e encontrar a força para avançar. No episódio, essa sensação aparece resumida através da ideia “de nos tornarmos ligeiros”.
Para além disso, o amor aparece como uma “força de transformação”, algo que pode magoar, consumir e até destruir, mas que também pode reconstruir e abrir caminho para uma espécie de paz interior.
Fonte: Andrea Pirrello
A estética de Sorrentino
Visualmente, esta obra mantém muito do que já se associa ao cinema de Sorrentino. O episódio chama a atenção para os “grandes planos”, para os contrastes de luz e para a forma como as personagens olham diretamente para o espectador, quase como se pedissem companhia dentro da narrativa.
Além disso, há ainda espaço para notar os diálogos contidos e a música, que contrasta com a figura tradicional de Marino De Santis através da presença do hip-hop italiano.
Tudo isto reforça a identidade própria do filme.
Continuar a olhar
“La Grazia” reforça o estilo de cinema de Sorrentino e trata de colocar em causa as escolhas, a fragilidade e a transformação.
Esta nova parceria entre a ESCS Magazine e o “De Olhos Bem Abertos” abre espaço para continuar a olhar para o cinema com mais tempo e atenção. E, de olhos bem abertos, há sempre mais para contar.
Fonte da Capa: Flicks
Artigo revisto por Mariana Ranha e Eva Guedes
AUTORIA
Estudante do 2.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial, Marta divide o seu tempo entre livros, maratonas de séries e sessões de cinema. Apaixonada por romances de todas as épocas e fã assumida das temporadas antigas de Morangos com Açúcar, também não resiste a um bom filme de terror. Agora como editora de Cinema e Televisão, está pronta para ouvir e partilhar as melhores séries e filmes de sempre.




