Ler sem reter: porque nos esquecemos do que lemos?
Sou daquelas leitoras que, se estiver entusiasmada com um livro, posso tanto devorá-lo ou lê-lo mais devagar para o saborear. No entanto, há algo que me acontece e que nunca soube muito bem explicar: eu esqueço-me do que leio depois de acabar um livro.
Durante a leitura, a memória funciona na perfeição. Posso ficar um mês sem ler, voltar a meio de um capítulo e saber exatamente o que aconteceu antes. Mas, se me perguntarem sobre o livro que terminei na semana passada, vou ter de me esforçar um pouco mais. As personagens fogem-me, a história dissolve-se. Sei dizer exatamente se gostei ou não do livro e consigo explicar porquê. Lembro-me das “vibes”, das imagens mentais, do que senti enquanto lia. Mas e o enredo? Para que lugar escondido da minha mente foi ele?
Isto não acontece com todos os livros. Fiz o exercício de ver se me lembrava da história dos livros que li o ano passado e, felizmente, até me recordo da grande maioria. Mas há outros que, se não os folhear e reler algumas passagens, é como se nunca os tivesse aberto, ainda que saiba que gostei muito de os ler.
Se também te revês nesta experiência, não estás sozinho. E há uma explicação.
A curva do esquecimento
Hermann Ebbinghaus foi um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória que, no século XIX, identificou aquilo a que chamamos a “curva do esquecimento”: um processo natural que descreve como as nossas memórias tendem a desaparecer com o tempo se não forem reforçadas. Assim, a nossa capacidade de reter informação nova cai drasticamente nas primeiras horas e dias após a aprendizagem. Segundo a hipótese da curva do esquecimento, para não perder informação é preciso que se faça um esforço consistente para a consolidar: revendo, repetindo e aplicando. Ler um livro e não o reler é, deste ponto de vista, uma forma garantida de o esquecer.

Mas a ciência não explica tudo. Porque é que, mesmo sabendo disto, continuamos a avançar para o livro seguinte em vez de regressar ao anterior? Porque é que reler um livro parece estar logo fora de questão? Quase como se estivéssemos a perder tempo a ler um livro que já lemos enquanto tantos outros novos esperam por nós. Contra mim falo, não tenho o hábito de reler livros. Tenho apenas a famosa TBR (to be read), uma lista enorme de livros que quero ler e que só aumenta em vez de diminuir.
A sociedade do cansaço
É aqui que entra Byung-Chul Han, um filósofo que diz que vivemos numa sociedade do cansaço. Uma sociedade que está sempre a produzir ou a consumir alguma coisa de forma contínua, sem tempo para pausas. E fazemos isso de forma voluntária, quase como se nos explorássemos até à exaustão. Assim, ler deixa de ser um ato de concentração para se tornar mais uma tarefa, mais uma coisa para ser riscada da lista.

Ao olhar para a tal interminável pilha de livros por ler não ficamos entusiasmados, mas sim ansiosos. Num tempo em que todos os dias saem livros novos, cada lançamento, cada recomendação no Instagram ou no TikTok é uma lembrança de que estamos a ficar para trás. A pressão das redes sociais para o novo é implacável, e reler um livro é impensável quando há centenas de outros à nossa espera, especialmente quando toda a gente à nossa volta parece estar sempre a avançar.
O que resulta deste cenário é um paradoxo: lemos mais, mas retemos menos. Lemos como quem consome, ficando satisfeitos momentaneamente, mas não como quem digere. É difícil de admitir, mas o que acontece é que podemos estar mais preocupados em ler mais do que em ler melhor. Não nos preocupamos em reter informação porque isso exige pausa e calma, precisamente aquilo que a sociedade do cansaço nos retirou: tempo lento.
Afinal, não estamos condenados
Este discurso mais pessimista não é de todo uma condenação porque, afinal, isto não significa que estejamos condenados a esquecer tudo aquilo que lemos. Se o esquecimento apaga das nossas memórias o enredo, poupa quase sempre outra coisa, como as sensações, a atmosfera do livro, a “vibe”. Talvez o cérebro saiba melhor do que nós o que importa realmente guardar.

No fundo, o problema não é esquecer o que lemos, mas sim tratarmos os livros como bens descartáveis. Se queremos lembrar, temos de ler contra a corrente, voltar atrás, falar, pensar sobre ele, tornando de alguma forma o livro presente. Se virmos o momento de leitura como uma experiência de calma e cuidado, não apenas como algo a consumir, permitimos que o livro ocupe espaço em nós. Permitimos que ele fique.
Ainda te lembras do que disse no início? Talvez não. E tudo bem. O que importa não é retermos cada palavra, reviravolta ou cada nome de personagens. O que importa é que, de cada livro, alguma coisa fique, mesmo que seja apenas uma sensação.
Imagem de Capa: Freepik
Artigo revisto por Inga Carvalho
AUTORIA
A Maria Rita tem 18 anos e vem do Bombarral, terra que quase ninguém sabe onde fica. Uma das suas maiores paixões é a leitura: é nos livros que sente que pode escapar à realidade e viver em diversos mundos diferentes. Aliada à leitura vem a escrita, pois escrever é a sua forma favorita de se expressar. É devido a este gosto pela comunicação e por ter descoberto o bichinho da rádio em criança que está no segundo ano em Jornalismo. Na ESCS Magazine quer não só falar de algo de que gosta, como também divertir-se e explorar mais a sua criatividade.

