O conceito de uma carreira para a vida morreu: acabei a licenciatura… e agora?
Este artigo é dedicado a todos os estudantes finalistas que, depois de anos de esforço, chegam ao fim do curso com uma pergunta que ninguém ensinou verdadeiramente a responder: “E agora?”.
Durante décadas, terminar um curso superior significava entrar num caminho relativamente previsível. Havia uma ideia quase automática de progressão: licenciatura, emprego estável, crescimento na mesma área, reforma. Hoje, receber o diploma já não representa um mapa claro. Para muitos jovens, representa apenas o início de uma nova incerteza.
A verdade é que a geração atual vai entrar num mercado de trabalho completamente diferente daquele para o qual os nossos pais foram preparados. As profissões mudam rapidamente, empregos desaparecem ao ritmo da tecnologia e novas áreas surgem antes mesmo de conseguirmos perceber como funcionam. Trabalhar durante décadas na mesma empresa tornou-se raro. Mudar de área deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte do percurso de muita gente. Ainda assim, a universidade continua, muitas vezes, presa a um modelo antigo. Forma estudantes para carreiras lineares num mundo onde quase nada é linear. Ensina conteúdos técnicos, mas fala pouco sobre precariedade, reinvenção, instabilidade ou sobre a ansiedade que aparece quando percebemos que um diploma já não garante segurança.

E talvez seja esse o verdadeiro choque pós-licenciatura. Depois de anos a estudar, muitos jovens sentem uma pressão enorme para encontrar emprego rapidamente, “ter tudo resolvido” e começar de imediato a construir uma carreira sólida. Ao mesmo tempo, vivem rodeados pelas redes sociais, onde toda a gente parece estar mais avançada: há quem já tenha emprego, quem esteja a viajar, quem tenha criado uma empresa ou começado um mestrado no estrangeiro. E, no meio dessa comparação constante, instala-se a sensação de atraso.
Mas a verdade é que ninguém sabe exatamente o que está a fazer: existe uma expectativa silenciosa de que devemos descobrir cedo aquilo que queremos ser “para o resto da vida”. Hoje, uma pessoa pode trabalhar numa área durante cinco anos e, mais tarde, mudar completamente de direção. Isso não significa fracasso. Significa adaptação. Durante muito tempo, associámos valor pessoal ao sucesso profissional. Crescemos a ouvir perguntas como “o que queres ser quando fores grande?”, como se a nossa identidade tivesse obrigatoriamente de caber numa única profissão. Por isso, quando não encontramos imediatamente um caminho claro, surge frustração, culpa e ansiedade. Como se estar perdido fosse um erro, e não uma parte natural do processo.
Só que esta geração não foi feita para percursos rígidos. Foi feita para aprender continuamente. Hoje, mais importante do que escolher “a profissão certa” é desenvolver a capacidade de adaptação. Saber aprender de novo. Saber mudar. Saber recomeçar sem sentir vergonha por isso. E, apesar de toda a instabilidade, existe também algo profundamente positivo nesta mudança. Nunca houve tanta liberdade para construir percursos menos tradicionais. Há espaço para criar projetos próprios, trabalhar a partir de qualquer lugar, explorar diferentes áreas e redefinir prioridades. O sucesso já não precisa de ter apenas uma forma.

Talvez o maior desafio da nossa geração não seja decidir o que queremos fazer para sempre, mas aceitar que vamos mudar várias vezes ao longo da vida. E que isso não nos torna menos capazes. Torna-nos humanos. No fundo, nenhum caminho é definitivo. Vamos sempre a tempo de mudar de vida. Nunca é tarde para procurar a felicidade, mesmo que ela apareça num destino completamente diferente daquele que imaginávamos aos 18 anos. A vida não é uma corrida, é para ser vivida. Não existe uma meta universal onde todos devemos chegar com a mesma idade, com o mesmo emprego, o mesmo salário ou as mesmas conquistas. Cada um de nós se descobre em momentos diferentes. E a beleza da vida é esta, nem sempre temos de começar de novo, às vezes basta recomeçar.
Fonte: Pexels
Artigo corrigido por: Luana Ferreira
AUTORIA
Sonhador por natureza, curioso e sempre atento ao que o rodeia, o Samuel de 21 anos, finalista da licenciatura em Publicidade e Marketing, encontrou na editoria de Opinião o lugar ideal para dar asas às suas ideias, um espaço onde pode escrever sobre o que mais o intriga: o mundo em constante mudança. Para ele, opinar é mais do que escrever, é pensar alto. Gosta de refletir sobre a atualidade e de transformar pensamentos soltos em palavras que façam sentido de ser lidas. Vê na escrita uma forma de explorar o mundo e partilhar a sua visão com quem o lê.

